Sempre que chega setembro, aqui no hemisfério sul a gente celebra a chegada da primavera. Os dias começam a ganhar mais horas de luz natural, alguns parecem antecipar o verão enquanto outros ainda nos fazem procurar o casaco, e os ipês coloridos transformam a paisagem das nossas cidades.
Mas setembro também traz consigo outra cor. O amarelo começa a aparecer em monumentos, campanhas publicitárias e, sobretudo, nas redes sociais. É o Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio e a importância dos cuidados com a saúde mental.
Não que o assunto seja menos importante nos outros onze meses do ano. Pelo contrário. Talvez uma das principais reflexões propostas pelo Setembro Amarelo seja justamente esta: o sofrimento psíquico não obedece ao calendário.
Eu mesma passei um tempo sem mensurar a importância dessa campanha. Em meio a tantas postagens, frases motivacionais e laços amarelos compartilhados todos os anos, é fácil enxergá-la apenas como mais uma data no calendário das redes sociais. Só que, por trás de uma campanha como essa, existem pessoas reais — e algumas delas podem estar enfrentando batalhas que ninguém ao redor consegue enxergar.
De onde veio o Setembro Amarelo?
Uma das histórias associadas ao símbolo da fita amarela começou nos Estados Unidos, em 1994, após a morte por suicídio de Mike Emme, um adolescente de 17 anos. Mike era conhecido por sua habilidade com mecânica e por um Mustang 1968 que havia restaurado e pintado de amarelo.
Depois de sua morte, familiares e amigos passaram a distribuir mensagens amarelas incentivando quem estivesse em sofrimento a procurar ajuda. A iniciativa deu origem ao Yellow Ribbon Suicide Prevention Program e ajudou a transformar aquela cor em um símbolo de prevenção e acolhimento.
No Brasil, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) informa que o Setembro Amarelo ganhou notoriedade nacional em 2013 e que, desde 2014, a campanha é divulgada em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM).
A escolha de setembro também tem uma razão: em 10 de setembro é celebrado o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, instituído em 2003 pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (IASP), em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Pedir ajuda nem sempre é simples
Uma das mensagens mais repetidas nesta época do ano é a importância de pedir ajuda. É uma recomendação necessária, mas talvez a gente precise conversar também sobre o que acontece depois desse pedido.
Nem sempre é fácil dizer que alguma coisa não vai bem. Quem está em sofrimento pode ter medo de incomodar, de não ser levado a sério, de ser julgado ou simplesmente não conseguir encontrar palavras para explicar o que está sentindo.
Por isso, não basta ensinarmos alguém a pedir ajuda. Também precisamos aprender a ouvir.
Ouvir sem transformar sofrimento em competição. Sem responder que alguém "tem tudo para ser feliz". Sem reduzir uma dor complexa a falta de gratidão, força de vontade ou pensamento positivo.
Às vezes, acolher começa por acreditar que aquilo que parece pequeno para nós pode ser enorme para quem está vivendo.
E acolhimento também não substitui tratamento. É necessário que quem precisa de atendimento em saúde mental consiga encontrá-lo. Prevenção envolve informação e conversa, mas envolve também profissionais capacitados, serviços acessíveis, políticas públicas e continuidade no cuidado.
Essa discussão, aliás, está no centro do tema escolhido para o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio entre 2024 e 2026: "Changing the Narrative on Suicide" — em português, algo como "Mudar a narrativa sobre o suicídio". A proposta é substituir silêncio, estigma e incompreensão por abertura, empatia e apoio, além de cobrar mudanças que ampliem o acesso ao cuidado em saúde mental.
E quando setembro acabar?
Daqui a algumas semanas, outubro chegará. Os monumentos deixarão de receber iluminação amarela, as campanhas desaparecerão aos poucos das redes sociais e outros assuntos ocuparão nossas timelines.
Mas alguém continuará precisando ser ouvido.
Saúde mental não pode ser assunto apenas quando uma hashtag está em alta. Também não deveria aparecer somente quando alguém chega ao limite.
Talvez uma das melhores maneiras de levar o Setembro Amarelo para os outros onze meses seja abandonar a ideia de que precisamos ter sempre a frase perfeita para dizer. Muitas vezes, podemos começar com algo muito mais simples: ouvir, não julgar, levar o sofrimento do outro a sério e ajudá-lo a encontrar cuidado adequado quando for necessário.
Setembro chega com seus ipês, dias mais claros e a promessa de uma nova estação. Que o amarelo espalhado por aí neste mês não seja apenas decoração.
Que ele nos lembre de olhar com um pouco mais de atenção para quem está ao nosso lado — em setembro e depois dele.
🆘 Onde buscar ajuda?
Se você ou alguém que você conhece precisar de um ombro amigo e uma escuta atenta, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende pelo número 188. É gratuito, sigiloso e funciona 24 horas por dia.
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