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Confissões de Laly | Rugidos ácidos (por Lalinha)


Você julgou a história pela capa, condenou-me pelas entrelinhas, atuando como Deus no julgamento final.
Você me odeia porque eu não sou o que você esperava que eu fosse.
Na realidade, você tem tanto receio do que é novo que simplesmente o rejeita sem nem sequer conhecer mais a fundo para quebrar paradigmas e fronteiras da própria mente.
O mundo evolui e a sua casca se fragiliza, mas você se nega a aceitar o novo e tolerar aquilo que é diferente do que você julga por certo ou errado.
Cansei-me de tentar ser a Cinderela. Meus pés não cabem naqueles sapatos. Falta-me a graciosidade e a passividade que fariam de mim uma princesa, mas eu quis ser princesa mesmo assim, dona de mim.
Uma princesa assim não lucra.
Uma plebeia sem coroa, estressada e louca, puta por ser simplesmente eu mesma.
Xingar-me de puta é bem mais fácil do que me respeitar.
Sou puta porque não sou o que você espera, mas você jamais admitiria isso porque se choca com um palavrão e não com o que realmente deveria te assombrar.
Ser o que você almeja anula a naturalidade.
Num mundo carente de espontaneidade, um nobre gesto de coragem é romper com os padrões doentes e retrógrados que sufocam almas até que elas se rendam e se curvem ao inferno da mesmice.
Por muito tempo desejei estar conforme as expectativas alheias e me adequar àquelas estreitas linhas que determinavam com precisão até onde eu podia ir.
Ser a tal da mocinha. Nada ao contrário disso, por gentileza.
Julgada pela beleza (ou a falta dela), segundo o peso (de preferência menos de 50 kg), por ter (ou não ter) uma vida amorosa, por um pedaço de pele que ninguém vê, mas se torna mais importante que o caráter para aqueles que ainda não aprenderam a respeitar uma mulher.
Especulações, lições de moral à revelia, feitas sob a encomenda de indiretas. Milhares de dedos podres apontados na minha direção. O calibre desta arma é letal porque a bala de prata equivale ao veneno da mais perigosa espécie de cobra.
Procurar o ponto exato da perfeição, trombar com a depressão e ser ridicularizada pelo simples fato de reconhecer que, apesar dos esforços, não sou constituída de ferro. E a frieza tão rechaçada é a minha defesa contra os mais sórdidos ataques vindos logo daquele que tanto disse me estimar e foi capaz de me destruir insistentemente com a desculpa de me amar mais do que tudo no mundo.
Minhas linhas não formam a "verdadeira poesia" porque têm a minha alma e estão pouco se lixando para a riqueza das rimas ou a estruturação de sílabas.
As mocinhas perfeitas são rendosas porque não há esforço em projetar nas linhas uma versão inexistente de você, cara criadora. Desculpe-me a franqueza, mas eu não estou interessada em ler as porcarias das suas idealizações de como a merda do mundo deveria ser.
Se for impossível uma mulher ser machista, posso dizer que você reproduz o discurso machista, sim, é racista, preconceituosa. Inovação é mais do que a mocinha ter olhos verdes em vez de azuis.
Você projeta na sua personagem perfeitinha e irritante tudo aquilo que você não é e não tem. Pessoas igualmente vazias como você se identificam com as suas baboseiras.
Números são ilusões.
Sua personagem é o arquétipo do que você acha que é certo, do que me aprisionou por muito tempo porque tentei ser a mocinha religiosa e perfeita, mas nunca me senti de verdade enquanto lutei para viver conforme os rótulos.
Senti-me despencar num precipício de medo e tortura por desviar da reta, todavia as algemas da alma se soltaram e eu pude enfim abrir os braços, sentir sem que ninguém definisse antes das minhas próprias conclusões.
Você julgou-me por um beijo que dei. Um simples beijo. Errada ou não, a boca é minha e não sua.
Eu só tinha doze anos e dei um único beijo.
Um beijo não engrandece nem diminui ninguém. Pare de me comparar com você na mesma idade, tenha senso. Se eu fosse uma pessoa real, de carne e osso, não deveria nenhuma satisfação a você.
Eu tinha doze anos e gostava de um garoto mais velho. Nesse sentido, não fui diferente de ninguém. Não passando de uma criança indefesa que sem mãe e carinho de pai, me apeguei à imagem de um rapaz por pensar que ele poderia preencher o vazio que eu sentia, mas a verdade se revelou, a decepção destruiu minha utopia e eu descobri que o meu “príncipe” era um monstro.
Você foi incapaz de perceber o quanto as aparências enganam porque mede o caráter dos outros pelos músculos, pelos olhos brilhantes e a barriga sarada.
Você não leu com o coração e sim com ódio, querendo encontrar um motivo para me desqualificar porque não saciei suas malditas expectativas.
Sério, foda-se você.
Foda-se o seu conservadorismo velado e ridículo.
Foda-se se você não é capaz de abrir essa sua mente medíocre e opressora que despreza a minha história porque nela as coisas não acontecem do jeito que você “acha” que deveria ser.
Foda-se se você acha que eu deveria ter feito assim ou assado.
EU NÃO NASCI PARA TE AGRADAR!
Pare de julgar as pessoas pela cor dos olhos, de desmerecer as esferas castanhas, as sardas, as saliências no abdômen, as coxas roliças. Somos muito mais do que músculos definidos e membros torneados.
Não vou permitir que o seu padrão assassine a minha autoestima.
Não sou certinha e não faço questão de ser.
Orgulho-me de cada lágrima que meu rosto quadrado de olhos castanhos acolhe.
Amo cada centímetro do meu corpo, cada cicatriz que tenho por dentro e por fora porque elas são os melhores feedbacks da minha história. Eu não seria nada sem o sofrimento, nem metade do que eu sou.
Cuida da sua “salvação”. Sou apenas uma personagem, existo para quem é capaz de me sentir. Não demonize o prazer de uma pessoa que nem existe e nem das que existem.
CUIDA DA SUA VIDA!
Por pessoas como você, muitas mulheres crescem acreditando que sentir prazer faz delas “vagabundas”.
Eu fui uma dessas garotas.
Falo palavrão e tenho a boca suja, mas nada se compara com o seu ódio velado contra tudo o que se opõe ao seu protótipo doente de perfeição que nem eu e 99% do mundo nos encaixamos.
Quero amar o amor como ele é.
Não é uma porcaria de uma fórmula ultrapassada que vai me parar.
Não sou composta somente de predicados. Meus defeitos alimentam toda a complexidade do ser. Junto das qualidades eles fazem de mim o que eu sou.
Ser o que você almeja é renegar a essência. Ordinária e inexpressiva. Um rascunho apagado de um sonho maior.
Que, com a razão, eu perca também o medo.
Que a liberdade seja o meu caminho e se não houver nenhum lugar que me aceite, serei como um pássaro, livre para voar, mas não vou de maneira alguma mudar o que eu sou para agradar a quem me odeia e me julga sem conhecer a verdade.
O tempo que perdi nunca me pertenceu. Tenho o presente até amanhã. E depois de amanhã, simplesmente não sei.

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