O pânico ainda assombrava meus sentidos. O peso daquele olhar invasor ordenava o ritmo dos passos. Ah, como doía. De cima a baixo, aquele olhar estreitado e dissimulado tocava numa ferida que nunca se fechou de verdade.
Era uma daquelas pacatas tardes de outono, finalzinho de março, céu pálido e nuvens quase transparentes. A palpitação que vinha do medo tentava prender o ar e as lágrimas. Fazia um pouco de frio, mas eu sentia o suor escorrer pelo rosto e grudar nas costas, mesmo estando de manga curta.
Fui me acostumando tanto a não ocupar espaço, não chorar, não “falar demais” para não incomodar, a ir guardando sentimentos e desejos como se meu coração fosse um reservatório inesgotável, mas o balde havia transbordado.
Vontade de gritar não faltava. Por mais que eu tentasse, a garganta arranhava e ninguém ouvia nada mais do que um sussurro rouco, quase débil. A postura rígida e silenciosa não era sobriedade, nunca foi. Era mais um dos disfarces pensados pelo cansaço para evitar demasiadas perguntas. Ninguém estava interessado de verdade na resposta.
Para dizer a verdade, eu também não saberia responder… pelo menos, não com a assertividade desejada. As palavras fugiriam de mim, me obrigando a encarar a tela em branco ou os olhos repletos de expectativas estraçalhas para dizer o quê?
— Por que você está tão triste, moça? O que aconteceu?
Um moço alto e magro atravessou a rua, vindo na minha direção. Eu aguardava o carro que não chegava nunca. Perdida. Absorta em algum pensamento que já nem mais recordo.
— Seus olhos são muito tristes, moça! Não fique assim!
Ele vendia balas de goma no sinaleiro e precisava inteirar o dinheiro do aluguel até o fim do dia. Morava numa pensão nas imediações daquela região, mas não me pediu um único centavo, simplesmente tirou uma embalagem da caixinha de papelão e ofereceu-me, como quem desenha um arco-íris num vidro embaçado, sem prometer nada, sem frases feitas, um gesto desprendido.
Fotografei meus olhos mais tarde, as palavras dele escavando todas as lágrimas calcificadas em nome de uma força que eu não tinha, não mais, porque antes eu desaguava e colocava as pendências da alma em dia. A vontade até vinha, porém ficava retida na intenção, arriscar às cegas, sei lá… às vezes, basta um pingo de chuva para começar o vendaval…
Respirar fundo já não dava mais certo. Viver anestesiada, como quem leva os dias com a barriga, não tinha nada a ver comigo, nunca teve.
De fato, meus olhos nunca estiveram tão tristes.
Será que eles ainda se lembravam do quão bom é brilhar? Do quão lindo é amar?
Voltar a segurar a caneta me amedronta um pouco. No entanto, cada palavra constrói a picareta que derruba esses muros erguidos em volta do meu coração para evitar o mundo.

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