O elefante no casulo



O vento me direcionou para esse caminho outrora familiar. Conheço cada buraco dessa estrada, cada pedra no acostamento, cada grão de poeira que faz os olhos arderem e o ar estar carregado daquele essência de desilusão. Quando me perco nesse afã de encontrar um lugar para de meu chamar, basta fazer o retorno. A escuridão nunca me bombardeia com demasiadas perguntas.

Soltar a minha mão é tão fácil, não julgo quem me abandonou. Os olhares de vergonha e desgosto me conduzem rumo ao precipício. Eu não caibo nesse recinto, o som alto me sufoca, entro muda e saio calada, já deixei de existir há muito tempo. Meu lugar na mesa é o eterno “tanto faz como tanto fez”.

Talvez dessa vez eu queria pagar para ver, talvez nada mais haja a se perder

Reprovada sempre na mesma lição, será burrice ou mau-caratismo?

As cicatrizes da persistência se refletem nesses pensamentos intrusivos que não me dão sossego. Um elefante metido a contragosto num casulo desconfortável, pagando o preço por não ter a leveza de uma doce lagarta. Até as girafas estão cada vez menores e mais “etéreas”, ninguém quer ocupar muito espaço, dizem que o sol não brilha para todos.

Sigo a direção do vento, vejo a lua encoberta pelas nuvens de chuva, como vejo o tempo passar e levar a esperança consigo. As fotos antigas mostram uma versão de mim que deixou de existir, mesmo sem dever. As lentes esfregam na minha cara o preço de acreditar em frases feitas e mentiras vendidas, não tem ângulo que possa me salvar do inferno de estar na minha pele.

Toda aquela conversa de “amar o próprio corpo” é pura mentira de quem hoje mostra o próprio poderio nos bastidores da vida. Aquela caneta mágica tornou-se minha maior obsessão, a resolução de todo o sofrimento de estar presa a um corpo que não me pertence.

Não faz sentido sonhar quando a alma pesa muito mais do que uma tonelada. Ainda que os ponteiros da balança afirmem com aquele sorrisinho cínico que “esse peso é saudável e proporcional” para minha idade e estatura, na prática, o discurso é outro. O bordão não me impede de me odiar e viver nesse bunker de onde vejo a felicidade acontecer sem poder participar dela… exatamente como um elefante no casulo.

Curitiba, 8 de fevereiro de 2026.


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O elefante no casulo

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