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Cinco anos sem você, vó



Não parecia um autêntico sábado de verão. Mal começou e ficou suspenso num tempo indefinido entre tudo que acabou e tudo que jamais voltará ao lugar. 

Foi a partir daquele dia que você começou a morrer um pouquinho. 

Teve um domingo muito estranho algum tempo depois. Cinzento, frio, longo e suspenso. As paredes frias testemunharam os seus últimos momentos, mas esse trecho da história sofreu diversas alterações, a depender de que o narrava. Porque o desfecho era óbvio, não haveria um último milagre para fazê-la levantar daquela cama e testemunhar uma cura que faria a medicina duvidar das próprias convicções.

Dizem que seu último suspiro foi perto da meia-noite. Suas mãos soltaram a corda esgarçada pela luta desleal contra um inimigo que devorou as páginas em branco restantes no livro da vida e se apresentou num estágio avançado demais para uma remissão. Chegava a hora de dar os primeiros passos rumo a um lugar muito melhor do que aqui, distante da nossa visão, do entendimento e do toque.

Naquela manhã de segunda-feira eu não mensurava a dimensão da sua partida. No fundo, eu ainda esperava por um telefonema que desmentiria a realidade e devolveria aos dias um senso de normalidade.

Foi algum tempo depois que olhei para as fotos que tirei da última vez que a visitei e ficou muito claro o ensaio improvisado de uma despedida não tão anunciada.

A casa ainda era a mesma, mas havia um silêncio dolorido naquele relógio parado às sete horas, no piso frio que cobria os cômodos, no amarelo desbotado das paredes. O último café não parecia o último, a mesa posta tinha gosto de reencontro. Álbuns de fotografias espalhados pelo chão, a voz embargada com uma lembrança que veio de repente, droga de pandemia.

Você acenou para nós até o carro dobrar a esquina, costumava ser o nosso "até sempre". Foi numa madrugada insone que escrevi sobre o assunto pela primeira vez, com um nó na garganta, porque resumiram seu funeral a lavação de roupa suja de quem deixou a mágoa e o rancor falarem mais alto do que a dor que nos igualava a todos.

O inventário mais importante não eram os eletrodomésticos, nem o carro, nem a propriedade, era a sua bondade de ajudar a quem precisasse, a determinação de uma mulher que ficou sozinha no mundo e lutou por tudo que quis, as histórias que cada um viveu ao seu lado e poderá guardar para sempre.

Esse lar ainda existe no mundo dos sonhos. Não tem tumor nenhum, nem joelho estourado, nem coração quebrado, nem protocolos sanitários a impedir visitas e abraços. A saudade acaba assim que avisto o canteiro de flores perto do portão e a rampa que dava na garagem porque sempre tem um abraço cheiroso pedindo desculpas pela bagunça — inexistente — e agradecendo a visita.

Tiraram a plaquinha dos geladinhos que ficava no poste, mudaram a cor do portão, tem outro veículo estacionado na garagem, parece que tantos anos passaram mais rápido do que um suspiro. Tem uma pessoa a menos orando por mim e pelos meus, nunca mais apareceu seu telefone no identificador de chamadas nos aniversários e no Natal.

Reconheço ser tarde para lamentar tudo que não fiz por você, pelas visitas que ficaram na promessa, pelo ponto final que mudou tudo para sempre. Remoer arrependimentos por não ter aproveitado certos momentos ciente da brevidade de nossas existências não acalma meu coração, porque por um bom tempo eu te tinha como uma mulher forte e longeva, que veria meus filhos crescerem, reunindo novamente quatro gerações no mesmo aposento, que nem naquele dia em que estávamos a bisa, você, a minha mãe, a minha irmã e eu.

São cinco anos de muitos outros que ainda virão. O mundo seguiu em frente, nós também seguimos para algum lugar. Com um vazio impossível de preencher com nada que não seja a sua memória e a certeza de que quando eu publicar aquele livro o qual você queria tanto ter lido, o mundo haverá de conhecer o seu nome. 

Infelizmente, nem todos os contratos são respeitados e uma editora pegou aquele dinheiro que você com tanto carinho deu para ver o livro ser publicado. Nunca consegui te contar que pessoas inescrupulosas agiram de má-fé, deixando de cumprir o que prometeram até reconhecendo firma, porém a lembrança mais bonita tem a ver com a sua generosidade em acreditar em mim mais do que eu mesma já acreditei. 

Talvez você olhe por mim aí do plano superior e a gente se encontre um dia desses, quando a primavera voltar. Enquanto isso, eu escrevo.


Terças com Tita | A farsa dos 500 anos

 



Isso vai entregar a minha idade, mas não estou nem aí. Parece que foi ontem que eu passava pelo centro da cidade e via aquele relógio de rua que fazia a contagem regressiva para os 500 anos do descobrimento do Brasil. Para quem nasceu depois disso, essas narrativas parecem meio estranhas, pertencentes a outro mundo.

O otimismo quase ingênuo que aquela vibe do ano 2000 trazia era palpável no ar, nos gestos, no sentimento comunitário. Algo muito grandioso estava para acontecer, muito além do nosso modesto entendimento. Essa expectativa só precisava existir para hoje ser palavra — ou muito mais do que palavras.

Coração de leão e sábados preguiçosos



"A culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser" — Homer Simpson 

Tudo começou num dia qualquer, de frente para a televisão de tubo, sem nenhum prenúncio especialmente memorável. Primeiros parágrafos me intimidam, preciso sacudir a cartola de cabeça para baixo na esperança de encontrar algumas ideias razoáveis para não abandonar o texto. Porque é o que acontece quando o medo se torna uma estufa de acrílico e desencoraja riscos, mesmo os calculados. 
Eu teria de reencarnar dezenas de vezes para ser tão inteligente e articulada como a Lisa Simpson é no alto dos seus oito anos, mas a sede de conhecimento é uma constante. Só é sufocante tentar caber em definições tão obtusas; a caixinha não é um lugar legal para se morar. 

Terças com Tita | Quem roubou pão na casa do João?

"O Miguel roubou pão na casa do João (2x)
Se não foi você, então quem foi?

O Bernardo roubou pão na casa do João (2x)
Se não foi você, então quem foi?

(e os versos são repetidos por 44 vezes — ou até o fim da excursão ou, em último caso, até o motorista abandonar o posto)" 

Exageros à parte, quem já participou de uma excursão escolar lembra que reunir a criançada é sinônimo de cantoria, batucada e adultos irritados até chegar ao destino. 

Mudam os celulares, os ônibus e as mochilas, mas a cantoria continua a mesma. Criança é uma espécie que atravessa gerações intacta.

Ouvi uma cantoria dentro de casa e, por desencargo de consciência, fui dar uma olhadinha na janela. Dei de cara com aquele ônibus da prefeitura apinhado de criança fazendo fervo com aquela musiquinha que a galera cantava na minha época.

Miguel disse não ter roubado o pão na casa do João; o Bernardo também não. O sinal ficou verde, o ônibus dobrou a esquina e eu fiquei sem saber se essa parte da musiquinha também foi cantada:

Não sabe, não sabe,
vai ter que aprender.
Orelha de burro,
cabeça de ET…

Quando eu digo ‘na minha época’, já me imagino virando o Abe Simpson sentado debaixo do limoeiro, contando histórias para as crianças... ou muitos leitores podem pensar que eu nasci "dez mil anos atrás". Brincadeiras à parte, "o tempo passou e eu sofri calado, não deu pra tirar ela do pensamento"... Vai falar sério ou não vai, Tita? 

Quando relembro minha vida de menina, pareço viajar para outro mundo, onde volto a me ver sentada em algum canto pertinho da janela, só observando os colegas cantarem e a inspetora Jane, colérica, intervir de cinco em cinco minutos, iludida de que sua gritaria surtiria algum efeito.

Ou o motorista tinha uma paciência de longe tibetana, ou já havia desenvolvido certa tolerância à algazarra porque a Jane, ah, aquela lá não via a hora de que a gente crescesse, muito embora todo ano viesse uma turma novinha em folha e disposta a honrar esse legado passado de geração para geração como que instintivamente.

Um belo dia (ou não tão belo assim, culpa da enxaqueca), a gente também experimenta o papel da Jane. A gente refuta tudo que soa "infantil" para sustentar um simulacro de maturidade, enterrando a autenticidade em troca de uma máscara social "aceitável".

Esse dia chega para todos, mas, depois de certa idade, a gente se cansa de carregar o peso dessas máscaras e precisa fazer as pazes com aquela criança sapeca cantando alto na excursão. A vida pede um pouco dessa leveza.

Alguns de nós deixam a amargura tomar as rédeas e refutam as próprias raízes. Querem que crianças sejam "miniadultos" e criam uma versão idealizada do próprio passado, mas sentir medo do bicho-papão, cantarolar no ônibus e fazer um milhão de perguntas está no roteiro. Criança tem que brincar, voar com as asas emprestadas pela imaginação, só se preocupando mesmo em não pegar recuperação nem tirar nota vermelha.

A gente vai ter muito tempo (e muitos motivos) para reclamar...



Terças com Tita (sim, na segunda!) | O farol dos sonhos loucos e uma página rasgada no livro da vida

 



A maioria dos meus dias é comum. Sigo a rotina no “piloto automático”, às vezes nem paro para prestar atenção no céu, na constante batalha para não ser engolida pelos compromissos. E à meia-noite a contagem regressiva é zerada… e por consideráveis décadas o que muda é a disposição, que vai diminuindo quando o peso da idade é mais do que uma piadinha para quebrar silêncios.

Mary Recomenda | O diário de Anne Frank - Anne Frank

 

Reler (ou comentar) Anne Frank é sempre um exercício de humildade. Em um mundo onde as pessoas gritam por atenção nas redes sociais, o diário de uma menina escondida em um anexo secreto em Amsterdã continua sendo uma das vozes mais potentes da história. Mas não se engane: o valor deste livro não está apenas na tragédia que o encerra, mas na vida que transborda de cada página.

O que mais me impressiona em Anne não é a sua condição de perseguida, mas a sua qualidade como escritora. Ela não estava apenas relatando fatos; ela estava fazendo literatura de si mesma. Anne era perspicaz, muitas vezes ácida ao descrever os outros moradores do anexo, e tinha uma honestidade cortante sobre as próprias falhas e desejos.

Ao ler Anne, a gente percebe que a maior resistência dela não foi apenas se esconder, mas se recusar a deixar que o medo apagasse sua identidade. Ela escreve sobre o desabrochar do corpo, sobre o conflito com a mãe, sobre as descobertas do amor e, acima de tudo, sobre a sua ambição de ser jornalista e escritora.

É devastador pensar que o mundo perdeu a mulher que Anne se tornaria, mas é reconfortante saber que ela conseguiu o que mais queria: “continuar vivendo depois da morte”. Seu diário é a prova de que a sensibilidade e a verdade são as únicas coisas que o autoritarismo não consegue enterrar.

Minhas impressões: Muitas vezes evitamos o Diário por medo da dor que ele causa, mas a leitura nos entrega algo muito diferente: uma vontade imensa de viver. Anne nos ensina que, mesmo no lugar mais apertado e escuro do mundo, o pensamento pode ser livre. É um livro que exige escuta, entrega, empatia.

O "batismo de fogo" que ninguém pediu: você conhece a Ilha da Garganta Cortada?

 

Minha incursão no mundo dos videogames começou lá no verão de 1997. Foi quando a madrinha do meu irmão lhe presenteou com um Super Nintendo e um universo inteirinho se abriu para três crianças em idade escolar. 

Sabe aquele frenesi que os moradores da Vila do Chaves têm quando a Dona Florinda comprou a lavadora? Foi mais ou menos desse jeito. Entretanto, para a nossa frustração, em vez do Super Mario World, veio a Ilha da Garganta Cortada (Cutthroat Island).

Carnaval com serpentinas, pixels e cores vibrantes


Ontem foi aniversário de uma amiga muito querida e nós fomos celebrar a data, em clima de Carnaval. Foi um rolê entre amigas tão divertido e tão agradável que mal vimos a hora passar. Literalmente, só saímos quando até a praça de alimentação estava fechando, mas não fomos as únicas.

O Shopping Estação preparou uma programação especial para os pequenos nestes dias de folia, com direito até à Capivara Maquinista dando o ar da graça. Inclusive, quem entrar pela rua Rockefeller, que já acesso à Renner, bem pertinho está montado um palco bem colorido onde a mascote põe todo mundo para dançar.

No entanto, no segundo piso, está tendo uma feirinha para quem curte cultura pop, nerd e geek. Somente neste fim de semana. Para quem é de Curitiba e tiver interesse, a feira funcionará ao longo de todo o domingo (15) e a entrada é franca.

🎉 Um dia em 1995 🕹️🍌💿



Você acordou… em fevereiro de 1995. Sei, seu primeiro pensamento foi “deu ruim”. Na verdade, ninguém fala desse jeito. O vocabulário é outro: se algo é legal, dizemos que é “massa”; se alguém é chato, chamamos de “mala”.

No começo, dá um branco. Você pensa que teve um daqueles sonhos estranhos onde não consegue se mexer, no entanto, você nunca esteve tão bem, seus sentidos estão despertos e aguçados e todos os seus brinquedos estão na prateleira ou no baú, ou mesmo espalhados pelo recinto.

22 de agosto | Dia do Folclore 🗣️

 


📚 Os Cadernos de Marisol

🌿 Saci, Iara, Boitatá. Cavalo voador de papel crepom. Feira de ciências com vatapá e cartolina. E um Brasil inteiro tentando caber em uma sala de aula.

26 de Julho | Dia dos Avós 🧓👵

 

🧓👵 Avós são como raízes: firmes, silenciosas e cheias de história. Mesmo quando já não estão, seguem nos sustentando por dentro.

📜 Por que 26 de julho?

A data homenageia Santa Ana e São Joaquim, os avós de Jesus.
Segundo a tradição cristã, eles esperavam há anos por um filho quando Ana recebeu a visita de um anjo anunciando o nascimento de Maria. Com o tempo, seriam também os avós daquele menino que nasceria em uma estrebaria e mudaria o mundo com ternura e resistência.

🎗️ Em países como Portugal e Espanha, o Dia dos Avós também é celebrado nesta data. Já em outras partes do mundo, como os Estados Unidos e o Canadá, há o “Grandparents Day” em setembro, com foco no reconhecimento familiar e comunitário.

Campo minado com tiaras arrancadas, pulseiras improvisadas e banhos de lama

Dizem que a infância é a fase da pureza. Que toda criança é feliz. Que bullying "faz parte", que "a gente supera". No entanto, não é bem por aí. Minha infância foi um campo minado com tiaras arrancadas, pulseiras improvisadas e humilhações cirúrgicas. E quem ousar dizer que isso ficou no passado… nunca carregou esse passado dentro do peito.

Terças com Tita | Escola: berço do saber ou palco de sofrimento?


Por Tita | Os Cadernos de Marisol 

Os momentos mais alegres da minha infância e pré-adolescência não aconteceram dentro dos portões da escola. Para muitos, a escola deveria ser o lugar de inclusão, tolerância e aprendizado — não somente acadêmico, mas também social. Um espaço onde crianças e adolescentes aprenderiam a conviver com as diferenças, a respeitá-las e a praticar a tão necessária empatia.

Mary Recomenda | Minha vida de menina - Helena Morley

Segunda versão da identidade visual do Mary Recomenda

Sexta-feira combina com Mary Recomenda e hoje decidi trazer uma obra que conheci meio ao acaso, anos atrás, e que se tornou um divisor de águas para mim. Já aviso: já sofri hate por defender esse livro, mas não me importo. O ódio alheio geralmente é apenas um espelhamento; a pessoa projeta em nós o que ela não suporta em si.

Mary Recomenda | A Amiga Maldita - Beatrice Salvioni

 📖 A Amiga Maldita, de Beatrice Salvioni

Quando o título engana e a verdade emociona

Autora: Beatrice Salvioni
Gênero: Ficção histórica, drama psicológico
Páginas: 336
Publicação: 2023
Ambientação: Itália fascista sob o regime de Mussolini

Converse All Star – Um Século de Estilo, Rebeldia e Memória

 

Ilustração inspirada em uma imagem real, adaptada para anime do Studio Ghibli (Reprodução/Arquivo pessoal da Mary/Chat GPT)

Do basquete à contracultura, do pé da sua mãe ao seu: a história afetiva do tênis mais querido do mundo.

Por Mary Luz 

Bonito? Sem dúvidas.
Confortável? Com certeza.
Estiloso? Modéstia à parte, sua permanência já é uma resposta!

Mais do que uma moda passageira, o Converse All Star ultrapassa gerações, se estabelece como ícone da cultura pop e, não menos importante, conta a minha própria história.

Você sabia que esse tênis tão presente nos pés e nas memórias afetivas de milhões tem mais de 100 anos de existência?

A equipe do OCDM viajou pela história para descobrir por que o tênis mais querido do mundo se tornou um fenômeno atemporal, rebelde e afetivo.

Editorial OCDM | Infância com cheiro de sofá e pipoca doce: quando a TV era um mundo inteiro


 

Houve um tempo em que a infância cabia num sofá. Num copo de Toddy gelado, numa coberta remendada, num controle remoto brigado entre irmãos. E a televisão não era só ruído — era refúgio, era alegria, era companhia.

No auge dos anos 90, ainda era possível sonhar acordada com uma nave que levava a Xuxa para o espaço, ou com uma redação comandada por cães jornalistas — a lendária TV Colosso. E se você cresceu ali, entre a programação infantil da Globo, SBT, Cultura e Manchete, você sabe do que estou falando. Tínhamos opções.

Terças com Tita | Como a escrita salvou minha infância e me ensinou a resistir


Como a escrita salvou minha infância e me ensinou a resistir
Por Tita


Hoje me peguei lembrando do dia em que alguém me ouviu pela primeira vez — de verdade. Não foi em casa. Não foi entre colegas. Foi num momento simples, numa sala de aula barulhenta, com cheiro de merenda e barulho de ventilador.
Foi a primeira vez que senti que escrever poderia me salvar.
Nem todo mundo vai entender o que isso significa. E tá tudo bem. Porque escrever, para mim, é como conversar com a menina que fui e dizer a ela: “Você não estava errada. Só nasceu num mundo que ainda não sabia como lidar com a sua força.”
Este é um pedaço da minha memória guardado com grafite, dor e alguma poesia.

Arquivo Malacubaca | A televisão que lia pensamentos (2020)

 


Por Marisol de Moura

26 de agosto de 2000

Eu sempre gostei de ir com o meu pai até a emissora, principalmente quando ele estava no ar com o boletim do tempo. Às vezes, passava o dia inteiro por lá e, quando não estava com ele, ficava acompanhando os jornalistas ou ouvindo histórias engraçadas. A Noviça, por exemplo, sempre tinha alguma coisa inusitada para contar. Foi ela quem me apresentou à Jaqueline, a filha dela, que também andava por lá de vez em quando. 

Uma vez, depois de um dia de gravação, a Jaque me levou ao fliperama para conversar, e foi lá que ela me contou uma história tão doida, mas tão engraçada, que eu não consegui parar de rir. Ela falou sobre a televisão da mãe dela, que tinha um chip japonês que lia pensamentos! 

Eu sei, parece coisa de filme, mas a Jacky falou sério. Disse que a mãe dela cobria a TV com um pano à noite, porque achava que os asiáticos poderiam ver tudo o que acontecia na casa e até ouvir o que ela pensava.

Quando contei essa história para a Fabiana e para a Duda, elas se divertiram tanto, que comecei a pensar que seria uma boa ideia escrever sobre isso. Fui tão inspirada por aquelas risadas que, no dia seguinte, peguei meu caderninho e comecei a escrever uma história sobre duas irmãs que ficam presas dentro de uma televisão. Elas começam a viver dentro de todos os canais e, no final, conseguem se salvar. Tudo isso, claro, por causa da tal TV que “lê pensamentos”. 

Não sei por que, mas me deu uma sensação boa escrever sobre isso, como se, de alguma forma, fosse a minha própria aventura também.

Cinco anos sem você, vó

Não parecia um autêntico sábado de verão. Mal começou e ficou suspenso num tempo indefinido entre tudo que acabou e tudo que jamais voltará ...