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| Segunda versão da identidade visual do Mary Recomenda |
Sexta-feira combina com Mary Recomenda e hoje decidi trazer uma obra que conheci meio ao acaso, anos atrás, e que se tornou um divisor de águas para mim. Já aviso: já sofri hate por defender esse livro, mas não me importo. O ódio alheio geralmente é apenas um espelhamento; a pessoa projeta em nós o que ela não suporta em si.
O título é simples, mas entrega muito mais do que os enredos enfeitados da literatura pré-fabricada de hoje. Helena Morley não quer ser admirada, quer apenas viver. E é justamente por isso que muita gente não entende a grandeza desta obra: as pessoas estão viciadas em personagens que gritam, em espetáculos de trauma, e não sabem mais apreciar uma menina que apenas observa.
O silêncio subversivo de Helena
O diário de Helena é um mergulho sem filtros no cotidiano de Diamantina, em Minas Gerais, no final do século XIX. O Brasil ainda tateava a República, mas já era mestre em hipocrisias sociais e estruturas patriarcais que tentavam calar as mulheres.
Nesse cenário, Helena surge como uma força silenciosa: esperta, questionadora e absolutamente espontânea. Pelos olhos dela, vemos a escola, a fé, as contradições dos adultos e as injustiças disfarçadas de costume. Há uma subversão deliciosa na forma como ela trata as “virtudes” da época. Helena escreve com silêncio, e por isso passa despercebida por quem tem urgência de escândalo.
É claro que, como um retrato fiel de seu tempo, o livro registra o racismo naturalizado daquela sociedade, por isso, um olhar crítico sempre cai bem, e nos ajuda a perceber o quanto nossa percepção pode mudar. Helena não tenta reescrever a realidade para parecer “correta”, nos oferece o retrato nu e cru das contradições da época, o que dá ao livro um valor histórico imenso.
De Diamantina para o mundo: o encontro com Elizabeth Bishop
A prova de que a sensibilidade de Helena é universal está no fato de que a poeta norte-americana Elizabeth Bishop, décadas depois, ficou tão fascinada pelo livro que decidiu traduzi-lo para o inglês. Bishop, que visitou Diamantina por intermédio de Manuel Bandeira, reconheceu naquelas páginas um olhar sensível que poucos leitores alcançam.
Como disse Bishop em 1970, “voltar a lugares é perigoso porque tudo muda”, mas o texto de Helena é capaz de fazer o passado voltar à vida tal como ele era.
O que fica para nós
É uma pena que nunca tivemos uma continuação. Dizem que o futuro marido de Helena, já presente nas páginas do diário, teria ficado constrangido com a exposição. Perdemos a chance de ver como aquela visão de mundo atravessaria a vida adulta no pós-abolição.
Helena Morley não quer nos dar lição de moral. Ela divide risadas “inapropriadas” com a irmã e encontra ternura nas brechas de uma rotina vigiada. Quem não consegue enxergar o valor disso talvez precise rever o que espera da literatura. Talvez nunca tenha tido uma vida interior rica o suficiente para entender o peso das perguntas que fazemos para nós mesmas.
Eu, que sempre fui uma menina que pensava demais, encontrei na Helena uma companheira de jornada. Minha Vida de Menina exige escuta e humildade. Se alguém não entendeu a obra, não é porque o livro falhou — é porque essa pessoa não foi capaz de ouvir uma menina escrevendo com verdade.
O Mary Recomenda de hoje fica por aqui. Obrigada pelo carinho e pela resistência. Um passarinho me contou que teremos edições extraordinárias na próxima semana. Até lá!

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