Por Tita | Os Cadernos de Marisol
Se você nunca foi odiada só pelo fato de existir, considere-se uma pessoa abençoada. Boa parte das pessoas, dentre as quais me incluo, nunca teve o direito de viver em paz.
Desde o primeiro dia que pisei na escola, a Cobra demonstrou profundo desgosto por mim. Entretanto, ao invés de simplesmente ficar “na dela” e ser feliz, ela fez questão de deixar isso muito claro das maneiras mais covardes, mesmo que eu nunca tenha lhe dado um motivo real ou plausível que justificasse aquele ódio desmedido, toda aquela aversão a troco de nada.
Como toda criança ingênua e cheia de vontade de ter amigos, tentei me aproximar e quebrar o gelo. Não deu certo. Revidar, tampouco. Eu estava sozinha, ela tinha dezenas de aliados. Ignorar, como solenemente solicitavam os adultos, não me transformou numa pedra cinzenta e sem graça.
A professora Dulce era conivente com a tortura e até participava junto. A coordenação da escola aconselhava meus pais a me levarem ao psicólogo e reiteraram que eu era uma criança “que não aceitava brincadeiras” e era “sensível demais”, procurava problema onde não tinha, me isolava e queria ser a vítima das circunstâncias.
Quando a gente cresce sendo ignorada e descreditada, começa a duvidar da realidade e se perguntar se a percepção está alterada pelo trauma ou se realmente está à deriva num mundo de merda onde ninguém vê o óbvio, ou, pelo menos, finge não ver…
Ninguém queria me entender, nem me escutar. Fui aprendendo a guardar toda dor num cantinho do peito onde ninguém pudesse ver, nem me dizer que “não doía tanto assim”. Se meu destino era passar todos os recreios sozinha, quanto antes me conformasse, melhor.
Talvez o problema estivesse dentro de mim. Talvez eu levasse tudo muito a sério. Sentisse tudo intensamente demais. Inventasse desculpas para não fazer a minha parte… mas a verdade era uma só: a líder da turma precisava de um alvo perfeito… e esse alguém era eu!
A testemunha mais próxima jamais deporia contra ela. Não importava o que eu fizesse: ela descobria, ridicularizava, estragava, pisoteava. Da lancheira cor-de-rosa a um trauma irreparável na viagem de formatura.
Cresci tentando entender essa obsessão da Cobra em continuar me ferindo, sendo que, para todos, ela era a borboletinha social, a preferida dos meninos, a queridinha da diretora, aquela que percorria a estrada da vida usando os patins mais modernos enquanto eu mancava descalça, com uma pedra pesada nos tornozelos.
Foi já na fase adulta, com a saúde mental valendo menos do que uma nota de cruzeiro, tratando disso em terapia, que minha psiquiatra, Dr.ᵃ Doriana, me recomendou a leitura de uma fábula chamada “A cobra e o vaga-lume”.
O texto é simples, leve, facilmente entendível por crianças de todas as idades, o sentido é um soco no estômago. Não um golpe literal, mas aquele estalo que nos faz pensar na situação de um jeito que parecia impensável, como se o próprio vaga-lume tivesse acendido uma constelação para iluminar nossos caminhos.
“Por que você me persegue?”, perguntou o vaga-lume.
“Porque você brilha”, respondeu a cobra.
Essa fábula possui uma linguagem breve e acessível, mas nada infantil.
É preciso ter sido ferido profundamente para transformar tentativas de apagamento em uma experiência tão bonita quanto a de ilustrar realidades em uma narrativa fictícia poderosa, como as fábulas, aquelas que lemos quando pequenos e entendemos após adultos.
A simplicidade do texto abriga camadas profundas de verdade e resistência. Às vezes, tudo que precisamos é lembrar que o brilho que incomoda também é o que nos mantém vivos. Se a vida da Cobra fosse toda essa perfeição vendida, ela não teria tempo nem disposição de passar tantos anos perseguindo uma pessoa que considerasse “sem graça”.
Mas o bullying parou?
Na verdade, não.
Com certo pesar, sou obrigada a admitir que ele se refinou e se potencializou nesse mundo de algoritmos. São aqueles minions de Cobra que estão lá no nosso chat dando opinião que eu não pedi, que ofende a minha honra, a minha arte, ainda crentes de que a internet é “terra sem lei”.
São esses indivíduos que criam um monte de fakes, sem um pingo de caráter, com tempo de sobra para desperdiçar, escrevendo groselhas que sequer teriam coragem de falar na minha cara.
Não teriam, sabem por quê?
Porque essa gentalha ainda acha que está nos anos 90. Basta dar o tapa, esconder a mão e contra-atacar com uma narrativa falaciosa que me prejudique moralmente.
A Cobra contemporânea é aquela que persegue, mas acusa a vítima de ser a perseguidora. Precisa berrar de um palco improvisado, na esperança de que o carisma natimorto deslanche. Despreza e ridiculariza tudo que venha da outra para depois ir lá, copiar, crente de ser a estrela, a rainha do espetáculo.
Hoje, eu não tenho mais medo.
O medo me aprisionou numa redoma. A vida estagnou. Tentei não ser eu, não aparecer demais, não fazer muito barulho, evitar certos lugares… queria que ela me esquecesse…
Mas a verdade é que eu não posso deixar de viver por causa dela e de suas réplicas malfeitas. Porque se sou o vaga-lume insistente, meu exemplo precisa alcançar outros corações que também são atacados pelo simples fato de existir.
Entregar-me sem dignidade significa deixar outros sofredores na escuridão. Não cheguei tão longe assim para desistir por tão pouco.
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