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Sabe por que o mundo se tornou tão careta?
Porque foi o preço a ser pago para entrar na caixinha, apesar de sempre termos escutado aquela máxima sobre pensar fora dela, ousar, abraçar a coragem, celebrar as diferenças e saber quando e como discordar. Uma leitura maniqueísta e tendenciosa poderia incorrer numa captura de tela distorcida e replicada à exaustão, colocando na minha boca palavras que eu nunca falei, ignorando o contexto e o chamado à autocrítica que tanto faz bem à sociedade e nunca cai de moda.
Quis ser muitas coisas nesta vida. Entre elas, ser cantora e líder de uma banda de rock. Como desafino cantando até "Parabéns a você", tentei escrever boas letras, as quais admito serem melhores do que muita coisa que toca nos top 50 dos aplicativos de streaming musical, mas isso é conversa para outro dia.
Nunca consegui reunir pessoas suficientes para formar um grupo musical, como também nunca fundei um clubinho lá na tenra infância, porém, a inteligência artificial me permitiu realizar esse desejo de ver minhas letras transformadas em canções.
"O Miguel roubou pão na casa do João (2x)Se não foi você, então quem foi?O Bernardo roubou pão na casa do João (2x)Se não foi você, então quem foi?(e os versos são repetidos por 44 vezes — ou até o fim da excursão ou, em último caso, até o motorista abandonar o posto)"
Não sabe, não sabe,vai ter que aprender.Orelha de burro,cabeça de ET…
Ah, a pretensão juvenil. Mudar o mundo, uma missão quase messiânica. Sou a mensageira da sociedade. Pare e preste atenção na minha arte.
Meu sonho sempre foi ter um cachorrinho. E eu realizei. Agora, que outros sonhos tenho para colocar no lugar?
Tá, você escreve, mas qual é o seu trabalho? Escritor nesse país não ganha nem para o sabão!
Já fui hater do Carnaval a ponto de passar mal quando essa época do ano chegava, mas minha percepção modificou-se completamente depois da pandemia. Naquele fevereiro de 2021, cheio de restrições sanitárias e algum rastro de esperança com a chegada das vacinas, senti falta da “normalidade” de antes, de ver as pessoas se divertindo, usando só as máscaras coloridas para entrar na folia, não aquela que escondia o sorriso da gente.
Depois disso, nunca mais falei mal do Carnaval. Não me tornei a maior adoradora desse evento, confesso, no entanto, tento aproveitar o feriado, seja trabalhando, cuidando da casa, saindo com os amigos, me distraindo… e os quatro dias passam tão depressa que, quando dou por mim, já estou na Quarta-feira de Cinzas e pensando no próximo feriado.
Gostar ou não é uma questão mais pessoal, mas é importante que os argumentos sejam fundamentados com respeito e decência. Quem gosta de bloquinhos deve ir a bloquinhos e só não ir se não tiver e se não quiser; quem gosta dos desfiles das escolas de samba que assista, quem prefere trio elétrico e micareta, idem; quem prefere retirar-se e tratar como um momento de reflexão, retire-se.
Se o seu bloquinho é de quem maratona série de pijama, saia para a avenida da alegria e seja feliz, não deixe que ninguém invalide a sua diversão se ela não prejudica ninguém.
O Carnaval fala de liberdade. De ser quem somos. De aceitar e abraçar quem queremos ser. Isso é viver.
Agora, um recado: já está fora de moda há muito tempo esse negócio de ficar enchendo o saco na internet para ganhar biscoito. Já tem muita intolerância no mundo, nem sempre sou obrigada a opinar sobre tudo de tudo, mas não contem comigo para propagar discórdia e baixaria a troco de nada.
Quando eu era adolescente, tinha aquela liberdade poética para falar groselhas e esbravejar, contudo, agora sou uma mulher feita. Espera-se que eu já tenha desenvolvido a capacidade de gerenciar certas emoções mais “primitivas” e saiba conduzir uma discussão na condição de uma pessoa disposta a ouvir ambos ou mais lados da questão no lugar de impor meu ponto de vista como uma verdade inquestionável.
Às vezes, sinto que o mundo exige que tenhamos um veredito instantâneo sobre tudo. Mas aprendi que não saber, ou não ter uma opinião formada, não é sinal de ignorância — é sinal de respeito pelo tempo das coisas. Hoje, prefiro o silêncio da observação à pressa do julgamento. E está tudo bem não ser a “dona da verdade”; ser dona da própria trajetória já dá trabalho suficiente.
A cura é uma promessa que vende. Um salto de fé para os joelhos amortecidos, um caminho para o céu, para encarar a escuridão sem sentir que se está prendendo o ar, o choro e algumas respostas indecorosas. Ninguém conta que, às vezes, esse salto é um abismo traiçoeiro.
Envelheci 20 anos nas duas últimas semanas ou, sem os óculos de sol que as ondas arrastaram, a realidade ganhou contornos de uma nitidez inquestionável? Olha eu tentando falar bonito e me pagar de cronista extraordinária, quando não passo de uma reles escrevinhadora, a apelar sem muita firmeza para a falsa modéstia, quando o que não tenho mais é tempo para depreciações.
Toda essa comoção sobre “2006 já fazer 20 anos” não é só papo de rede social. A Copa na Alemanha, de tão decepcionante desfecho, completa duas décadas. Era o primeiro passo de uma longa e insegura travessia, ninguém de nós sairia ileso dessas porradas que a vida dá, às vezes na surdina, sem motivo, só porque estar na chuva significa se molhar e arriscar perder tudo, até mesmo aquilo que nem se tem.
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| Ilustração de Júlia Mirella Menezes Gutierrez Carrasco criada por Inteligência Artificial |
Aquele era meu primeiro dia na escola nova. Tudo que eu queria era esquecer o que aconteceu antes, tudo que você soube depois e não soltou a minha mão. Você chegava ao lado da Deh, com os cabelos pretos, longos e esvoaçantes, a bolsa lateral de barbantes balançando junto, parecendo tão animada para começar tudo de novo. Seu sorriso foi a ponte que rompeu quaisquer silêncios que pudessem formar um muro entre nós. Esse é o nosso clichê de amizade, não posso reescrever diferente disso.
A cultura pop nos “ensina” que meninas bonitas com tendência à liderança geralmente são perversas, mas você quebrou todos esses paradigmas, bem como quebrou muitos outros. O mais importante deles inspira esta homenagem. Superamos os tempos de escola, os dramas de jovem adulta, crises políticas, pandemias (desinformação também conta) e rumamos para um jubileu de prata especialíssimo, que será devidamente celebrado em fevereiro próximo.
Sandy Leah cantou muito bem sobre ter grandes sonhos, as costas doerem, ser jovem demais para ser velha e velha demais para ser jovem. Há anos vivemos nesse limbo paradoxal, mesmo que cada geração vivencie uma época da vida em um contexto bem diferente do que o dos pais e avós.
Com a mesma idade, minha avó tinha uma casa própria. Mamãe tinha uma filha adolescente e um veículo velho na garagem. Eu mal tenho uma casa para chamar de própria. Quanto aos filhos, só os de quatro patas e, olhe lá; não está fácil mimar a cambada.
Por Tita | Os Cadernos de Marisol
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Sinto, dia após dia, o olhar enviesado de quem espera que eu me encaixe.
Porque não suporto blazer que me aperta, salto que me cala, nem a obrigação de parecer adulta para satisfazer expectativas alheias. Gosto de roupas que contam quem sou, não desses figurinos pensados para agradar o LinkedIn dos outros. Julgar meu profissionalismo pelo que visto é uma das formas mais escancaradas de misoginia estrutural.
A régua da maturidade é torta. E pesa só para um lado.
Por Tita
Não parecia um autêntico sábado de verão. Mal começou e ficou suspenso num tempo indefinido entre tudo que acabou e tudo que jamais voltará ...