Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens

espelho quebrado | o manifesto da dismorfia (2020)

 

Publicado originalmente em 7 de março de 2020, no blog Perguntas, prerrogativas e provocações.

ele nunca foi o algoz

refletiu a representação
sobre a minha pessoa
sem omitir os detalhes
sem filtros de disfarces
por inteiro a me ver

cada um por si e o tempo contra todos nós

somos as peças que ficam de fora 
no limiar da invisibilidade 
nós sempre damos conta do recado 
precisamos olhar para o lado
tanto egoísmo não leva a nada

corra uma maratona com a perna engessada
você pode ir mais depressa
desculpas não justificam derrotas
você nem sequer se esforça 
a vida é difícil para todo mundo 

cada um por si e o tempo contra todos nós 

eles vêem o sorriso resignado,
palavras trancadas no alto da garganta 
concessões feitas sem resistência 
o lobo rasga a pele do cordeiro 
quando o sim não vem de primeira 

o cansaço crônico parece ócio
de quem vive um não-lugar no mundo 
pensado para suprimir divergências

corporais 
mentais 
comportamentais 

lugar de fala, qual deles?

porque quem tenta falar por nós 
se esquece de nos consultar.




refluxo urbano

os ventos sopravam ao sul
ondas revoltas inundavam as cercanias dos castelos
erguidos na firmeza de uma promessa vazia 
apesar da escuridão, ainda era dia 
e o lugar seguro dispensava a tradicional rigidez
nem perto do mar, nem na capital 

pombos encharcados no telhado 
a sacola plástica, marionete de mãos invisíveis, voava sem freios
da janela, a imagem embaçada
ondas se formando no asfalto 
impacientes faróis amarelados preenchiam a avenida
um por um a entrar nessa dança funesta
no sentido antihorário 
contabilizados nas estatísticas 
bueiros regurgitavam as velhas queixas de verões passados 
transbordando o que sempre foi ignorado.



anatomia de um coração quebrado



não sei mais como se chora. 
a vontade existe, 
mas a fonte do pranto deve ter secado. 

chuva no deserto, carente de lógica, 
feito o relógio que marcou as horas pela última vez
 e segue pendurado na parede, 
emoldurando um lar desfeito, 
sobrevivente da própria indiferença. 

quanto de mim há nessa estranha 
que tenta brincar de escrever? 

a alma ainda é feita de poeira estelar.
o corpo é um objeto desconexo —,
porque pesam nele os sonhos de outrora,
varridos nas temporadas de furacões 
que arrastaram com elas 
a curvatura daquele sorriso 
que começava nos olhos 
e terminava na prece. 

1000 cartas de amor | Dona do meu coração (março de 2017)

 


Era tão estranho pensar no primeiro parágrafo, ele era a base para os demais, mesmo porque não houve uma data estipulada para se desdobrar uma reflexão (conclusões me atordoam por demais), são pequenas constatações que me levam a falar de amor depois de tanto tempo. Desconfortável, por assim dizer. Não estava nos meus planos. As palavras não foram idealizadas, apenas se encaixam em prol da necessidade de dividir com mais alguém que já não sou mais a mesma e meu coração está cheio de desejo, alegria, paixão (no sentido de destemor, não de destempero).
A vontade crescente me arrebatou aos pouquinhos, sem escândalos, tencionava não passar de inspiração no meio da noite, a ânsia constante e inquieta por desaguar tantas ideias reprimidas num lugar onde elas não se voltassem contra mim. As teclas se moveram num gesto espontâneo, deixando tão claro que pela primeira vez na vida sinto-me em paz, feliz por estar onde estou; concentrada no presente e não mais olhando para trás a lamentar aquilo que não estava destinado a ser meu, ora por não me fazer bem, ora por não ser o “momento”. Cada época com o seu propósito.

Simplesmente Tita | Teasers de músicas

Decidi compartilhar com vocês alguns testes que fiz com o novo recurso do Gemini,que permite criar músicas. Na versão grátis, os créditos são poucos e o tempo de duração também é curtinho, 30 segundos. Na versão pró talvez seja possível explorar melhor a sonoridade, porém esses vídeos são algumas das tentativas de versos que são de minha autoria, mas ganharam uma sonoridade toda especial.


A Lua ainda é a mesma, mas eu já não sou mais quem fui


Decidi testar um recurso do Gemini que permite compor músicas, mas, calma

Estrelas na madrugada chuvosa



A escuridão é o papel em branco que segue o instinto da pele. A luz do luar traceja delicadamente os contornos desse movimento gravitacional, invisível aos olhos distraídos, que harmoniza a comunhão de dois mares na eternidade. 

Mary Recomenda | Dentro da noite veloz - Ferreira Gullar


O Mary Recomenda de hoje vem com o pé na porta, mas por uma boa razão: a indicação de hoje, definitivamente, não é para os fracos.

Novidades literárias da Mary | Considerações sobre a participação no projeto Literatura na Escola 🖋️

Há alguns meses sem escrever poesia, foi no meio de uma crise que finquei em palavras o que queria escrever na pele. Eu não precisava sangrar no sentido literal, mas poderia muito bem resgatar o velho hábito de externar no papel todo o peso que a mente carrega por pensar e sentir demais, num nível quase insuportável. 

31 de outubro | Dia Nacional da Poesia

📜 Poesia como Arte ou Resistência

O Dia Nacional da Poesia é comemorado em 31 de outubro, instituído pela Lei nº 13.131/2015 em homenagem ao nascimento de Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros.

Antes disso, a data era celebrada em 14 de março, recordando Castro Alves, o “poeta dos escravos”.

Hoje, celebramos não apenas os poetas, mas a força que a poesia tem de traduzir as inquietações humanas e revelar a alma de um povo.

Mais do que arte, a poesia é também resistência. Ela denuncia injustiças, mobiliza consciências e cria pontes entre vozes marginalizadas e o mundo. Desde os tempos históricos até os dias atuais, os versos têm servido para lutar, transformar e provocar reflexões profundas.

✊ A Poesia Abolicionista de Castro Alves

Na história do Brasil, um dos maiores exemplos de poesia como resistência vem de Castro Alves, o “poeta dos escravos”.

Seus versos abolicionistas foram uma poderosa denúncia contra a escravidão.

Em O Navio Negreiro, por exemplo, ele retratou com força e emoção a brutalidade vivida pelos povos escravizados.

A poesia de Castro Alves sensibilizou as elites, deu voz aos oprimidos e tornou-se um símbolo da luta pela liberdade e pela dignidade humana.


🖋️ Conceição Evaristo e a Poesia Contemporânea de Resistência

Hoje, poetas como Conceição Evaristo continuam essa tradição de resistência, transformando a palavra em ato político.

Em suas escrevivências, ela traz à tona as experiências negras e femininas, revelando histórias silenciadas pela desigualdade.

Sua poesia é um convite à escuta, à empatia e à reparação e lembra que escrever também é um gesto de sobrevivência e amor-próprio.

🎤 Os Slams de Poesia: Resistência Urbana e Coletiva


Nos últimos anos, os slams de poesia — batalhas poéticas que acontecem em praças, escolas e redes sociais — se tornaram espaços de voz, afeto e protesto.

Neles, as palavras ganham corpo, suor e verdade.

Os slams democratizam a poesia e ampliam debates urgentes sobre racismo, violência, desigualdade e direitos humanos, reafirmando que poesia também é militância.


💭 Reflexões Sobre a Poesia na Atualidade


Mesmo em um mundo digital, a poesia permanece uma ferramenta poderosa de resistência e transformação.

Ela se adapta às plataformas, viraliza nas redes, atravessa gerações e continua inspirando quem busca sentido e liberdade.

A poesia de hoje, assim como a de ontem, é coragem em forma de palavra.

🌻 Conclusão


A poesia como arte é linda, mas como resistência, ela é transformadora.

Ela rompe barreiras, desafia estruturas e conecta almas que ainda acreditam na mudança.

Dos versos abolicionistas de Castro Alves às escrevivências de Conceição Evaristo, dos palcos dos slams às timelines das redes sociais. A poesia nunca deixou de ser um ato de coragem, ternura e esperança.


🖊️ E você? Que versos de resistência ecoam na sua vida?

Deixe nos comentários e ajude a manter viva a força das palavras. ✨

o impossível é só um tempo que ainda não chegou

por mais incerto que tudo pareça agora, 
o impossível não é um muro,
é só um tempo que ainda não chegou.

mesmo quando se duvida

nem sempre quem escreve acredita no que carrega.
há dias em que a palavra pesa,
o cansaço cala,
e a inspiração parece ter mudado de endereço.

mas o dom não some,
ele se recolhe.
espera o coração respirar de novo,
espera o corpo lembrar que ainda pulsa.

ser escritora não é viver em êxtase —
é persistir na escuta do invisível.
é escrever mesmo sem certezas,
mesmo quando o texto parece menor do que a dor.

quem nasceu pra sentir o mundo em palavras
não desaprende,
apenas silencia por um tempo
até reencontrar o próprio fôlego.

e quando volta,
volta mais inteira,
mais densa,
mais você. 

Sala de travessia


Não estou mais no começo, mas também não cheguei ao fim. Vivo nesse meio-termo onde nada é definitivo e tudo ainda pode mudar.

A Insubmissa que cria mundos (essa sou eu, mesmo que não vejam)


Você escreve com o coração na ponta dos dedos,
cria mundos com o que os outros descartam,
não vive para agradar, mas para dizer o que precisa ser dito
e isso é tão raro que assusta mesmo quem vive no raso.

Você não nasceu para ser padrão, nasceu para ser lenda.

Não desista, não se disfarce para servir no encaixe.
Não deixe o mundo te convencer de que ser autêntica é um defeito.
O que você cria não é ostentação vazia para um story e nada mais…
é arte, resistência, poesia… legado.

Quem cria mundos, mesmo sendo invisível no seu tempo,
planta raízes para que outras como você floresçam depois.

🎭 Figurante de mim

A sensação é essa mesma: a de levar um soco bem na boca do estômago, quando verdades indigestas me embrulham.
Tornei-me figurante da minha própria história, sombra que o enquadramento perfeito tenta excluir para não contrabalancear os tons de bege.

Sou só uma nota de rodapé na biografia alheia.
Não tenho nome, nem idade, nem alma.
Já não me reservam nenhuma fala no roteiro.

E, se por acaso viesse um improviso, jamais haveria permissão para quebrar a quarta parede. Meu lugar é lá na ponta da mesa, e às vezes minha cabeça sai cortada na foto.

Ninguém quer saber quem já fui ou sonhei ser.
Nem eu mesma reconheço os olhos que me olham de volta no espelho, antes de ser apenas satélite das expectativas alheias.

De consolo, alguns dizem:
— Você ainda é jovem…

O que é juventude quando não te dão tempo nem espaço para viver o que é seu?

Nossos momentos (meu amor é meu abrigo)




Chove lá fora. Bem, bem forte. Constante. Num ritmo interminável e úmido. O contar das horas se dá lentamente. O vento bate nas janelas e arrasta tudo que encontra pela frente. Não vejo as estrelas, mas a noite dá as caras mesmo ao raiar do dia.

Cinco anos sem você, vó

Não parecia um autêntico sábado de verão. Mal começou e ficou suspenso num tempo indefinido entre tudo que acabou e tudo que jamais voltará ...