Primeiramente, quero deixar meus votos de feliz ano-novo a todos! Em segundo lugar, agradecer imensamente pela companhia ao longo de 2025. O OCDM teve um ano maravilhoso e cresceu muito mais do que eu poderia imaginar há um ano. Isso tudo só foi possível porque vocês, leitores e amigos, existem. Espero que continuemos juntos em 2026.
Para começar muito bem as atividades, a nova temporada do Mary Recomenda vem com tudo. A obra escolhida foi Stuart Little, de E. B. White, mas não se enganem com a fofura. Quem também já leu A Teia de Charlotte (Charlotte's Web) sabe que essas obras podem até ser dirigidas ao público infantil num primeiro momento, mas dialogam muito mais com as crianças que hoje são “gente grande”.
Os Arquitetos do Pequeno Herói
O Mestre da Clareza: E.B. White (1899–1985)
Se você já estudou escrita ou jornalismo, com certeza cruzou com o nome de Elwyn Brooks White. Ele foi o principal colunista da revista The New Yorker por décadas e o autor de The Elements of Style, o “manual de cabeceira” de dez entre dez escritores americanos. White era um homem que amava a vida simples e acreditava que escrever para crianças exigia elevar a clareza, nunca “diminuir” o tom. Sua escrita é como o Stuart: pequena em tamanho, mas gigante em elegância.
O Traço da Alma: Garth Williams (1912–1996)
Você consegue imaginar o Stuart sem aquele terno impecável? Isso devemos a Garth Williams. Ele tinha um talento raro para humanizar animais sem os transformar em caricaturas bobas. Stuart não é um “pet”, é um cidadão, usa chapéu, carrega um bastão e possui modos impecáveis. Williams deu o corpo, e White deu o espírito.
Curiosidade: White demorou quase 20 anos para terminar este livro! Ele só decidiu publicar quando sentiu que a jornada do camundongo tinha algo de universal.
Stuart Little: o Gregor Samsa que deu certo
Se você já leu A Metamorfose, de Franz Kafka, deve se lembrar do choque de Gregor Samsa ao acordar transformado em um inseto. Naquela obra, o “diferente” é motivo de horror e isolamento. Aqui, entretanto, quero propor uma conexão inusitada: Stuart Little é o oposto exato de Gregor.
O Absurdo Aceito vs. O Absurdo Rejeitado: Enquanto a família de Gregor reage com nojo, a família Little trata o nascimento de um camundongo com a maior naturalidade do mundo. O pai de Stuart se preocupa se o ralo da pia é seguro, mas ninguém questiona por que ele é um rato. O ambiente molda quem somos, e a aceitação dos Little faz toda a diferença.
A Autoaceitação como Poder: Stuart se aceita. Enquanto Gregor morre de culpa e tristeza, Stuart se veste com elegância e assume seu papel na família com uma dignidade enorme. Enquanto Kafka usa a transformação para falar da desumanização, E.B. White usa a figura do camundongo para falar sobre a força do caráter individual.
Ganhar o Mundo: Ao contrário de Gregor,
que morre trancado em um quarto,Stuart ganha o mundo. Ele vira mestre de um barco no Central Park e, finalmente, pega a estrada. Se Gregor representa a tragédia de ser diferente, Stuart representa a aventura de ser único.
A Busca pela Margalo (O Ideal)
A passarinha Margalo é o grande ponto de virada. Ela é a beleza e a liberdade. Quando ela parte, Stuart deixa o conforto de casa para buscá-la. Este livro é sobre “a busca que nunca termina”. Stuart nos ensina que o importante não é chegar, mas estar no caminho certo.
A estrada para o Norte: Por que o fim é apenas o começo?
Diferente das adaptações para o cinema, o livro termina com Stuart na estrada, em seu pequeno automóvel, dirigindo em direção ao Norte. Ele não encontra Margalo nas últimas páginas; simplesmente continua.
Para mim, esse é o momento mais adulto do livro. Margalo representa o Ideal, aquela beleza ou propósito que todos perseguimos e raramente “capturamos”. O valor da vida não está em estacionar o automóvel, mas em ter a coragem de seguir a direção que o coração aponta.
Lembra quando falamos do Nelson Rodrigues e daquela “janela aberta para o infinito” no início de um jogo? O final de Stuart Little é essa mesma janela. Ele está sozinho e minúsculo, mas está em paz. Como o próprio White escreveu: “O céu estava limpo, e Stuart sentiu que estava indo na direção certa.”
Que em 2026, possamos todos ter essa mesma certeza: a de que ainda estamos seguindo para o Norte.

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