26 de abril de 2002.
A crise de choro veio antes de conseguir pronunciar alguma palavra. O abraço coletivo não tardou a acontecer. Todos eles estavam condoídos por mim porque, com detalhes ou não, sabem o que acontece lá em casa. Pri às vezes discute com os pais, mas logo eles se reconciliam, idem com a Júlia, a Deh e o Rodrigo. Famílias normais têm desavenças, diferenças porque faz parte da natureza humana, no entanto, quando o desrespeito e a violência se sobrepõem à razão, a admiração vai definhando aos poucos, até não sobrar nem a lembrança dela.
“Já fugi de casa uma vez e não acho que sair por aí resolva o problema.”, antecipou-se Priscila. “Fiquei duas semanas longe e até hoje, quando minha mãe quer me vencer numa discussão, joga o passado na minha cara.”
“Por que você fugiu de casa?”, perguntou Deh.
“Porque meus pais se esqueceram do meu aniversário.”
“Só por isso?”
“Acha pouco?”
Júlia já pensou em fugir de casa quando era mais nova, mas no dia em que fez as malas, foi à igreja e teve uma intuição que a fez reconsiderar a decisão, logo, os pais nunca souberam de nada. No meu caso, tentei na sexta série e tudo deu errado, sem falar na vergonha de ser descoberta e ridicularizada.
Na hora da saída, Andréa saiu por primeiro e reconheceu o carro da minha mãe parado. A estratégia dos meus amigos foi a de me esconder no banheiro feminino, no entanto, uma funcionária da limpeza nos enxotou de lá. Fomos para a cancha, logo que a vi entrando. O desespero foi tamanho, não tive opção senão correr para o outro bloco e entrar na primeira sala que encontrei. A porta abriu-se e, chorando debaixo da carteira do mestre, abracei os joelhos, aceitando a morte iminente. As luzes foram acesas e o coração quase saiu pela boca, porém, quem se aproximou e quebrou o silêncio foi ninguém menos do que a D. Arlete.
“Tudo bem com você? Aconteceu alguma coisa?”
Levantei a cabeça, incapaz de murmurar um “sim” ou “não”. Ela colocou a mão no meu ombro, preocupada, sobretudo quando viu o roxo na região dos olhos.
“O Dico tem razão… ”, murmurou Arlete, pensando em voz alta.
“Ele… te contou?”
“O Dico disse que tem uma amiguinha que sofre nas mãos da mãe. É você?”
Meneei a cabeça em confirmação e ela apertou os lábios finos, com a preocupação impressa nos olhos.
“Já são meio-dia e meia, daqui a pouco a turma da tarde vai chegar. Não está com fome?”
“Não posso sair daqui.”
“Daqui a pouco você precisará sair.”
“Queria, mas não posso.”
“Por que não?”, ela insistiu.
“Porque eu não posso voltar para casa.”
“Foi tão grave assim o que aconteceu?”
Voltei a chorar. Deu para ouvir a troglodita gritando meu nome, mesmo com a porta fechada. Pedi-a para apagar a luz e fingir que não havia ninguém no ambiente. Ela me atendeu, ainda relutante e nós permanecemos caladas por algum tempo.
“Eu… me machuquei sozinha.”
“Você machucou o olho sozinha?”
“Minha mãe e eu discutimos e eu me exaltei um pouco, por isso mereci a surra que levei.”
“Sou mãe de adolescente e por vezes preciso dar umas broncas no Rodrigo, o deixo de castigo quando estiver respondão e mal-educado, dou uns catiripapos na cabeça dele para ver se ele toma jeito na vida, no entanto, sou aquela pessoa que daria a vida por ele sem nem pensar duas vezes e não permito que alguém o maltrate. Deus nos agracia com a dádiva de ser mãe para amarmos nossos filhos, educá-los, prepará-los para viver, não para aprisioná-los, maltratá-los, espancá-los.”
Por volta de meio-dia e cinquenta, Arlete me convenceu a sair da sala, não sem antes pedir para me abraçar. Reparei que os olhos dela estavam úmidos e chorei de novo. Quando descemos as escadas, o pátio já estava relativamente cheio e os meus amigos estavam me esperando na cantina. O carro da mamãe continuava estacionado no portão principal, então eram grandes as chances de ela não ter desistido de me procurar.
Uma solução encontrada por Júlia, especialista em gazear aula, foi pular o muro que separa o pátio das crianças do estacionamento dos funcionários, até o portão de trás era perigoso. Senti-me naquelas cenas da Matilda e da Senhorita Honey fugindo das garras da terrível Trunchball. Não posso escapar para sempre, terei de enfrentar a troglodita em algum momento, porém, por ora, não.
Acordei agora há pouco. Dormi quase a tarde inteira depois de tomar um copo de água com açúcar e me deitar na cama da Deh para me esquentar porque eu não parava mais de tremer. Júlia disse que papai e Helena estão para chegar. Estou surpresa de que mamãe não tenha tentado me procurar aqui, considerando que, depois da escola, é um dos lugares mais frequentados por mim. Melhor assim.
Apesar de ter sido criada em um lar violento e disfuncional, creio que a arte de saber ouvir nos pouparia de tantos conflitos. No entanto, ninguém se dispõe a ouvir sem interromper, se colocar no lugar e reconhecer os próprios erros, aceitar que não é perfeito e buscar melhorar como pessoa. É sempre mais fácil bater na cara, a porta, abusar de palavras amargas e maldições.
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