Terças com Tita (no domingo, sim) | 2006 já faz 20 anos



Sandy Leah cantou muito bem sobre ter grandes sonhos, as costas doerem, ser jovem demais para ser velha e velha demais para ser jovem. Há anos vivemos nesse limbo paradoxal, mesmo que cada geração vivencie uma época da vida em um contexto bem diferente do que o dos pais e avós.

Com a mesma idade, minha avó tinha uma casa própria. Mamãe tinha uma filha adolescente e um veículo velho na garagem. Eu mal tenho uma casa para chamar de própria. Quanto aos filhos, só os de quatro patas e, olhe lá; não está fácil mimar a cambada.

Vovó viveu a juventude naquele ínterim entre a morte do Vargas e o golpe de 1964 e engoliu muito desaforo de patroa para sustentar os filhos. A tecnologia do momento era a televisão, e o rádio deve ter revirado os olhos incontáveis vezes ao ouvir que não sobreviveria. Muita gente nem no exame de admissão passava. Estudar não era para todo mundo. Faculdades eram poucas, a fome urgia.

Mamãe engravidou no período da redemocratização. Hiperinflação, remarcação de preços, planos econômicos ineficientes. Tira o zero, coloca o zero de novo. E o povo que lutava na fila do mercado desde a madrugada para comprar pão e leite.

Iludida pelas promessas do Plano Real, aos 30 anos eu esperava ter casa própria, automóvel e reconhecimento público na minha área. Para uma menina de origens modestas e sem o tal do QI (quem indica), estou me saindo bem. 

Poderia estar melhor

Faltou-me certa malícia para ludibriar multidões. O descaramento necessário para vencer nesse baile de máscaras digital deixa-me exausta só de pensar. Usar o nome de Deus para validar os trambiques e o próprio narcisismo. Eu poderia insistir no clichê de que “todos temos as mesmas 24 horas” e que “inveja é atestado de falta de força de vontade."

No entanto, esse negócio de "pensar demais" me colocou em desvantagem. O mundo é dos espertos; o ditado se cansou de esfregar a verdade no meu rosto. Ah, a tendência é a internet. Hoje tudo precisa caber em 280 caracteres, quinze segundos ou dois minutos. O resto já é considerado literatura russa.

Eu poderia surfar nessa modinha de aplicar a caneta mágica e vir com aquela conversinha furada de ser "pela saúde". A consciência pesaria tanto quanto aquela barriguinha que tento esconder como se fosse um saco plástico cheio de entorpecentes. Não tem jeito, eu sou cringe e piegas.

Sem querer cansá-los, a verdade é essa: a minha geração quebrou a cara, falando em português claro. Ter somente o diploma do ensino médio algumas décadas atrás era um diferencial; hoje, o ensino superior é um requisito básico. A régua do mercado de trabalho se tornou mais criteriosa. Até agora, eu não disse nada de novo.

Enquanto crescia, vi as máquinas de escrever serem substituídas pelos computadores. Estes ficaram cada vez menores e mais finos, literalmente cabendo na palma da mão. Aquele velho hábito de alugar fitas/DVDs é só uma lembrança distante, ao mesmo tempo em que o streaming segmentou tudo. Lembro ainda de quando ia ao mercado com os meus pais e passava um tempo no corredor onde estavam os CDs, só para ouvir alguns deles. Eu era daquelas que baixavam músicas para gravar em CDs também, mas posso ser cancelada por dizer que fazia isso. 

Um lema que raramente cumpri foi o de escrever no caderno novo com a letra bem bonita, depois voltava com os meus hieróglifos. A estética impessoal e massificada é instagramável: minimalista, em tons de bege ou cinza.

As agendas começavam o ano mirradas e terminavam repletas de elementos que contavam histórias especiais. Embalagens de doces, fotografias, cartinhas, assinaturas de amigos, adesivos. Sem essa folia de aesthetic, que mais oprime e padroniza do que cria lembranças autênticas.

Minha geração também é do tempo da internet discada, da banda larga e daquela que às vezes queria ser eremita, já que a tendência à misantropia é algo a se considerar. Ser a “louca dos gatos” era o meu terror; hoje virou aspiração. Com essa cambada de pílulas ignóbeis, problemáticas e ressentidas, o celibato é a sublimação, um ato de amor-próprio e autopreservação. 

Aquela menina que cresceu vendo finais felizes nunca soube o que aconteceu depois deles. Se a Cinderela foi mesmo feliz para sempre. Numa dessas, o príncipe da Branca de Neve podia ser um mulherengo inveterado que daria em cima até da Malévola no sigilo. 

A cultura pop vendeu a ideia de estar no topo até ou, de preferência, antes dos 30. Somente agora estamos abrindo os olhos para aceitar que nosso processo de crescimento não segue um ritmo padronizado. É cada um com o seu próprio entendimento tentando chegar a algum lugar. Alguns privilegiados pegam carona; outros vão andando mesmo com as solas dos pés em carne viva. E toca o barco.

Há muita vida pela frente. 

Ainda me vejo tentando segurar a caneta. Expectativas demasiado altas, inclinação a sofrer por não ser aquela pessoa que sonhava na infância. Contudo, há certa indulgência nos recomeços. A liberdade de mudar de ideia sobre tantas coisas merece um brinde. Deixar para trás ilusões que me prendem a um tempo em que nada mais poderá ser feito.

Minha história tem alguns capítulos cagados. Se fosse um livro, eu pularia muitos deles. Dizem que o sofrimento nos lapida, vira lição e contribui para o amadurecimento. Mas ainda penso que tudo poderia ser diferente se aquele acidente nunca tivesse acontecido.

Ela já questionava o mundo daquela época sem embaraços. Nessa era de pós-verdades e polarizações acirradas, sentiria que a concepção de realidade não passa de um simulacro distorcido. Baratas aplaudem chinelos. Quem dera que fosse apenas uma piada ridícula.

Sim, boicotar uma marca de chinelo e resolver tudo na base do pipoco é o suprassumo da civilidade de plástico. Ler os comentários é pedir para desacreditar na humanidade e lamentar que Jesus tenha morrido por seres tão abjetos.

Nos tempos da vovó, a ameaça comunista era o bicho-papão de muitos adultos. Inclusive, dela. Mamãe votou no Collor, caiu no conto do vigário e se arrependeu; depois veio com aquela ladainha de “todos são farinha do mesmo saco”. Vi minhas certezas se desmontarem e o futuro ter ares de um passado que não deveríamos querer reviver nem por brincadeira.

Ninguém é verdadeiramente neutro, nem xampu nem sabonete. Não falamos a verdade porque nosso entendimento não se alinha ao senso comum. Por covardia. Por necessidade de silenciar ou por receio de romper laços já tão esgarçados… ou, em último caso, por proteção à saúde mental. Jogar pérolas aos porcos é uma perda de tempo.

Escrever bem agora é um problema. Ah, certamente foi a IA que redigiu o texto. Não se pode mais confiar em nada nem em ninguém. Desde os tempos em que os primeiros livros foram escritos, houve quem encarasse aquela nova tecnologia com ceticismo e horror. Não poderia ser diferente agora.

Nós ainda somos os condutores de tudo. A inteligência artificial pode ser uma ferramenta de grande utilidade quando conduzida com sabedoria. Terceirizar a tarefa de pensar para um algoritmo é uma perspectiva assustadora. Estamos todos presos em bolhas, rolando o feed atrás da próxima noz de dopamina... enquanto criticamos a alienação alheia.

Não foi pequeno o susto que tive quando realmente me dei conta de que 2006 já faz 20 anos. Sem saudosismo piegas, éramos felizes e não sabíamos. A voz da razão reitera que a felicidade vinha do “não saber” de muitas coisas — porque elas já existiam. O limiar entre o analógico e o digital ainda era uma linha visível. A superexposição de estímulos, o medo de ficar para trás e o cancelamento não eram espinhos no peito da rotina.

No fim das contas, talvez esses quilos a mais sejam apenas o peso acumulado de tudo que engulo calada desde que me entendo por gente. Querer o corpo de 2006, mas esquecer que há 20 anos não havia essa carga de 24 horas de cobrança na palma da mão. Se não tenho a caneta mágica para riscar minhas imperfeições, que eu tenha ao menos a caneta de tinta para escrever sobre elas. É o que me mantém sã enquanto o feed rola e a vida passa.

Na primavera do próximo ano, entrarei na casa dos “enta”, mas quero deixar para sentir o que for quando assoprar as velas. Minha avó já tinha casa própria nessa idade; mamãe, uma filha adolescente. Eu tenho histórias para contar e uma caneta na mão. Talvez seja o suficiente por enquanto.

Talvez a vida esteja começando de fato. Não se sabe…


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