Perto dos quarenta, longe da tomada

 


Envelheci 20 anos nas duas últimas semanas ou sem os óculos de sol que as ondas arrastaram, a realidade ganhou contornos de uma nitidez inquestionável? Olha eu tentando falar bonito e me pagar de cronista extraordinária, quando não passo de uma reles escrevinhadora, a apelar sem muita firmeza para a falsa modéstia, quando o que não tenho mais é tempo para depreciações.

Toda essa comoção sobre “2006 já fazer 20 anos” não é só papo de rede social. A Copa na Alemanha, de tão decepcionante desfecho, completa duas décadas. Era o primeiro passo de uma longa e insegura travessia, ninguém de nós sairia ileso dessas porradas que a vida dá, às vezes na surdina, sem motivo, só porque estar na chuva significa se molhar e arriscar perder tudo, até mesmo aquilo que nem se tem.

A D. Rebeca tinha pouco mais que a idade da Júlia quando um infeliz acaso lhe impediu de ver a primogênita completar quarenta anos. Se não me engano, dizia-se naquela época que as mulheres de quarenta eram "os novos trinta", como também parece bastante inspirador ver que as mulheres de 60 hoje quebram vários paradigmas e deixam o etarismo com o rabinho entre as pernas.

Júlia nunca gostou de fazer aniversário no começo do ano, tampouco na segunda-feira, porém a energia de Capricórnio é tremenda. Mãe, filho, sogra e netos são todos do mesmo signo. Para os Carrasco, a temporada de festas começa com o aniversário do Rodrigo na antevéspera de Natal, segue ano-novo adentro e só acaba em meados de janeiro, como as férias dos professores.

Acordar ouvindo o barulhinho do mar tem propriedades terapêuticas. E essa é uma daquelas manhãs lentas e preguiçosas, onde até me esqueço de que o tempo parece me engolir numa espiral de sadismo. Se há 20 anos era uma delícia entrar no Orkut e passar horas conversando, participando das comunidades e ouvindo música, hoje dá vontade de excluir todas as redes sociais e virar uma eremita, porque as redes são tudo, mas nunca foram tão antissociais, tão insalubres.

Se você foi do time que ligou o computador com o pé, também deve se arrepiar quando lembra do brilho azulado do monitor de tubo, do 'toc-toc' do MSN e daquela ansiedade boa de ver quem tinha visitado o perfil no Orkut. Era um mundo que cabia num quarto, mas parecia infinito. Hoje, o infinito cabe na palma da mão e pesa como chumbo. O polegar desliza pela tela do celular como se estivesse limpando uma ferida que não fecha; é um excesso de gente, de opinião, de perfeição fabricada que me faz desejar o silêncio absoluto da Arlete em sua horta.

Aqui, em Praia de Leste, a insalubridade do mundo parece perder a força diante da maresia. Deixo o celular vibrar sozinho em cima da cômoda de madeira e me permito apenas ser. Se ser eremita significa trocar notificações por esse horizonte cinzento e vasto do Paraná, então talvez eu já tenha encontrado minha caverna.

Arlete Rios Carrasco continua acordando "com as galinhas", como diz sobre si própria. O dia só começa de verdade após as orações, porque é sempre longo: cuidar do galinheiro, dar uma olhada na hortinha, esquentar água para o café e dar uma passadinha no mercadinho para comprar uma dezena de pães, preparar a mesa.

Quando as "crianças" levantam lá pelas tantas da manhã, a mesa já está pronta e o guapeca corre esbaforido para pedir carinho para todo mundo. Os netos tiveram de voltar para a capital no fim de semana por motivos laborais. No entanto, Júlia, Rodrigo e eu ainda podemos curtir mais alguns dias de leseira, como diria o próprio, com aquela fala malemolente e displicente de quem sobreviveu a muitas chineladas voadoras que jamais erraram o alvo.

Fiapo de Manga é um caso à parte naquela hierarquia familiar; um vira-lata que parece ter herdado a teimosia dos Carrasco e a malandragem de quem sabe exatamente quem é a pessoa mais propensa a derrubar um pedaço de queijo sob a mesa.

O Fiapo é o único que tem permissão para ignorar as ordens da Arlete sem levar uma chinelada ou talvez seja apenas rápido demais para a mira dela. Ele é o espírito da casa: meio bagunçado, barulhento na hora errada e absolutamente leal àquela confusão de pratos de âmbar e conversas intermináveis.

— Por que quem leva caixa de som pra praia insiste em escutar música ruim? — insiro o assunto na mesa.

— Não sei se eu envelheci muito rápido, mas tudo perdeu um pouco da graça pra mim.

— Em pleno 2026 eu ainda me pego ouvindo música de 1996 — diz Rodrigo. — Quem viveu a era de ouro do pagode sabe...

— Essas músicas de hoje em dia estão uma pouca vergonha — concorda Arlete. — Ninguém canta nada, ninguém escreve nada, é só barulho.

— Música "ruim" sempre teve — lembra a aniversariante. — Só que antes, até o que era dito ruim conseguia ser bom ou pelo menos tolerável, ao passo que hoje não tem condição.

— Será que eu ando muito nostálgica ou realmente parecia que antes o mundo era mais colorido, mais autêntico, mais leve?

— Leve o mundo nunca foi. Sempre teve música ruim, corrupção, maldade e miséria — discursa Arlete.

Eu ouço o tom professoral dela e sinto um eco de 2014 batendo no peito. Lembro de quando a Júlia declarou voto ao Aécio e eu fiquei muito puta com ela. Discutimos feio no chat do Facebook. A gente quase deixou a amizade de décadas morrer em um campo de comentários, por causa de um Brasil que, como a Ju disse naquele dia, leva 7x1 desde 1500. Ficamos semanas sem nos falar, em uma tensão que parecia maior que o próprio país, só para descobrirmos, mal as urnas esfriaram, que nenhuma alternância de poder valia o silêncio entre nós.

— O excesso de redes sociais não faz bem — continua Arlete, alheia ao meu mergulho no passado. — Tem muita gente grande adoecendo porque é informação demais. É muita gente que não sabe nada querendo dar opinião sobre tudo, só vendilhões querendo empurrar curso disso e daquilo goela abaixo. Antes, você desligava o computador e voltava pra sua vida. Hoje a gente tem o celular como uma extensão nossa. Uma verdade eu preciso dizer: não sinto a menor falta de ficar esperando na fila do banco.

— Eu também não me imagino vivendo sem Pix — concorda Rodrigo.

— Nem eu sem esperar uma entrega — sorrio.

— Tem uns reels que a Giovana compartilha que eu fico boiando. Uma mina padrãozinho comendo batata frita e uma legenda sobre suicídio. Eu mando ela pra casa do caralho e falo que isso aí é falta do que fazer — conta Júlia.

— A Ju é mãe raiz.

— Não é tão verdade, amor. Eu sou muito de boa, estou sempre disponível pra conversar, mas não sou obrigada a concordar com tudo que meus filhos fazem.

— Agora vocês entendem por que eu pegava tanto no seu pé, senhor Rodrigo? — pergunta Arlete. — Porque quem está de fora consegue enxergar com mais clareza. Mãe nunca dorme em paz. A gente tem que deixar eles quebrarem a cara. E os netos que não se engraçem em Curitiba, que o chinelo voador serve para todas as gerações lá em casa.

— Não tem jeito. Pra aprender, muitas vezes, só quebrando a cara — eu digo.

Júlia pega mais um pedaço de bolo, ignorando a azia da gravidez, e dá um sorriso de lado.

— O problema não é quebrar a cara, Tita. O problema é que hoje em dia as pessoas postam um tutorial de como passar o curativo com filtro de beleza. A gente, pelo menos, tinha a dignidade de chorar escondido.

— Até agora não entendi o motivo da menina postar um vídeo comendo batata frita romantizando o suicídio — comenta Arlete.

— É a mesma lógica de apertar o botão de uma televisão que está desligada da tomada — explica Júlia.

— Ou de acender uma fogueira no fundo do mar.

— Ah, mas o Bob Esponja tem licença poética — Rodrigo defende.

Um dos motivos pelos quais eu mais gosto daqui tem relação com a "não passagem do tempo". Essa casa de lajotas vermelhas parece alheia aos modismos. As louças não combinam. A mesa tem carinho, mas não é instagramável. Tem prato de âmbar e xícara de café dos tempos em que o Rodrigo assistia ao Pica Pau com leite achocolatado em frente à televisão de tubo. Tem uma capa cheia de frufru no botijão de gás. Os imãs de geladeira estão se lixando para a ditadura do bege. Gratidão é um lema de vida, não frase de algum quadro que será brega na próxima temporada.

Essa casa é o nosso marco zero. Quando a Arlete se aposentou, lá em 2019, não pensou duas vezes: comprou este terreno a duas quadras do mar de uma antiga amiga que fazia o caminho inverso, trocando a maresia pelo asfalto de Curitiba. Foi a melhor transação da vida dos Carrasco. Desde então, a casa de tijolos à vista virou o 'point' oficial, o lugar onde nos encontramos para fugir do mundo e redescobrir que a vida acontece fora das telas. Aqui, Arlete Rios Carrasco reina absoluta, entre a horta e o galinheiro, garantindo que o chinelo voador continue com a mira em dia, seja no litoral ou nas temporadas que insiste em passar na capital.


Olhando para ela agora, com a mão na barriga e o olhar perdido na maresia, me lembrei de quando a liguei às seis da manhã daquele janeiro distante.

— Sabia que agora você já pode ser presa?

— E você me ligou a essa hora pra falar isso? Vá se foder, Tita! — ralhou Júlia.

Eu rachava o bico, mas o timing para aquela piada estava no final. Não é todo dia que sua melhor amiga completa 18 anos. Rimos com gosto diante do ridículo. Estendemos a mão depois do tropeço, não sem antes soltar aquela gargalhada de quem não pode perder a piada.


Nem tudo foi sempre piada. Hoje, a risada tem uma nota de fundo agridoce. O preço de encarar a travessia é sobreviver, não sem passar pelos trechos mais desérticos e sair deles sem saber se algo falta ou se resta apenas um suspiro resignado.

Quem olha para a Júlia com aquela tranquilidade toda nem imagina que quando acabou a escola, ela entrou na maior fossa do mundo. Reprovou no vestibular, sentia na pele o paradoxal preconceito da "piedade enojante". Diziam que ela "desgraçou a vida". 

No entanto, sou o contraponto da minha amiga: não casei e não tive filhos. Os mesmos hipócritas acham que estou perdendo meu tempo, que nunca serei completa porque não tem um homem me bancando.

Não é papo de militante. Toda essa insatisfação que a sociedade vomita em cima de nós é o motivo perfeito para sair de cima do muro e aceitar a fama de disruptiva.

Parece até que foi ontem quando ela voltou para casa com o cabelo joãozinho. O ano era 2007, época dos Jogos Pan Americanos no Rio de Janeiro, também daquele trágico acidente da TAM.

— Pegou piolho, amor? — quis saber o Rodrigo. 

— Só porque eu cortei o cabelo?

— Você está linda, mas enjoou do comprido?

— Promessa é dívida — explicou Júlia. — Pedi à Nossa Senhora para passar no vestibular. Prometi que, caso passasse, cortaria o cabelo para doar para crianças com neoplasia.

— Você passou em Química?

Ela meneou a cabeça.

— Na Federal? — Rodrigo e eu perguntamos em uníssono.

Lágrimas corriam dos olhos negros. Um choro orgulhoso de quem estranhava o vento tocar-lhe a nuca.

— Sabiam que eu já passei na Federal?

— Quando? — demonstrei espanto.

— Ah, passei na frente um dia desses pra cortar caminho. — Ele deu de ombros.

A mesma jovem julgada por ter filhos foi ridicularizada por voltar a estudar porque "já tinha passado da idade". Não foi uma época fácil. É preciso ter um discernimento muito bom para não pirar e uma determinação de mestre para seguir com firmeza uma trajetória na qual muitos abandonam.

Os frutos desse sacrifício parecem ilusórios quando nós nos comparamos com essas celebridades sem moral que ganham em uma live o que não ganhamos em uma década. Entretanto, os algoritmos são fugazes e cruéis, o bege pode virar cringe na próxima primavera, mas as sementes do conhecimento, uma vez plantadas, nos libertam da ignorância,da alienação e de nos aprisionarmos nas convenientes prisões sem grades que chamam por aí de "seguir o fluxo".

Passado algum tempo, o cabelo dela cresceu de novo. 


— Você gostou da carta? — pergunto.

— Não me obrigue a te biscoitar. Já faz mais de 20 anos que eu digo todo dia que você é minha escritora favorita — ela aperta minha mão. — Só não sei se sou essa pessoa que você acha que eu sou.

— Como é ser mãe depois de tanto tempo?

— Eu não lembrava de ter sofrido tanto com os enjoos como estou sofrendo agora — confessa Júlia.

— Bem que eu estava sentindo falta de ter uma criança em casa — intervém Arlete.

— A senhora só faltou me colocar pra fora de casa quando a Ju engravidou pela segunda vez — provoca Rodrigo.

— Era outro contexto, senhor Rodrigo. Vocês pareciam dois coelhos e mal tinham terminado a escola, não tinham fonte de renda, nem juízo. É lógico que eu ficava possessa. E com razão. Agora é diferente.

— Sei que serei avó em algum momento, mas ainda me parece tão estranho pensar nisso — murmura Júlia.

— Como você acha que eu me senti quando você e esse jaguara, com bigode de leite ainda, vieram contar sobre a gravidez com aquela cara de cachorro que peidou na sacristia da igreja? Foi um choque! — Arlete dispara, sem perder a mira.

— E o mais irônico é que ter filhos nunca esteve nos meus planos — admite a aniversariante.

Levanto da mesa sob o pretexto de buscar mais água, mas o que eu queria era apenas observar o quadro de longe. Arlete gesticulando com a faca de bolo, o Rodrigo rindo de uma piada que já contamos mil vezes e a Júlia, com seu silêncio de mãe, sendo o centro de gravidade de tudo aquilo.

Percebi que, aos trinta e oito, minha “disrupção" não cabe num post barulhento ou uma conquista épica. É gozar do direito de estar aqui, inteira, sem precisar explicar por que existo, sem provar valor para validar meus trunfos.

Saio para a varanda e olho para o mar de Praia de Leste, que continua o mesmo, alheio aos nossos aniversários. Por um segundo, ignoro a nitidez dos óculos e me permito ver o mundo um pouco borrado, como se estivesse de volta àquela luz azulada do monitor de tubo de 2006. Sinto a mesma ansiedade boa de quem espera o MSN conectar, só que agora não espero por ninguém, nem persigo um final feliz.

Não sou personagem de uma comédia romântica. Sou apenas a amiga da aniversariante, agradecida por ter sobrevivido à travessia. O mundo pode até ter mudado de cor e de ritmo, mas aqui, entre o café da Arlete e o barulho das ondas, ainda é 2006. E a gente, finalmente, ganhou o jogo.

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