![]() |
| Ilustração de Júlia Mirella Menezes Gutierrez Carrasco criada por Inteligência Artificial |
Aquele era meu primeiro dia na escola nova. Tudo que eu queria era esquecer o que aconteceu antes, tudo que você soube depois e não soltou a minha mão. Você chegava ao lado da Deh, com os cabelos pretos, longos e esvoaçantes, a bolsa lateral de barbantes balançando junto, parecendo tão animada para começar tudo de novo. Seu sorriso foi a ponte que rompeu quaisquer silêncios que pudessem formar um muro entre nós. Esse é o nosso clichê de amizade, não posso reescrever diferente disso.
A cultura pop nos “ensina” que meninas bonitas com tendência à liderança geralmente são perversas, mas você quebrou todos esses paradigmas, bem como quebrou muitos outros. O mais importante deles inspira esta homenagem. Superamos os tempos de escola, os dramas de jovem adulta, crises políticas, pandemias (desinformação também conta) e rumamos para um jubileu de prata especialíssimo, que será devidamente celebrado em fevereiro próximo.
Você detesta frases feitas, eu, não saber a melhor forma de iniciar um texto. É sempre o velho dilema de ter tanto a dizer e, ao mesmo tempo, ser engolida pelo medo da mediocridade. E a ocasião pede um cuidado maior com as palavras, até porque não é todo dia que sua melhor amiga completa 40 anos.
Ouvi de muitos que nossa amizade teria prazo de validade, que em questão de anos seríamos estranhas uma para a outra. Em alguns momentos chegamos bem perto de confirmar as profecias dos ditos “entendidos de tudo”, contudo, uma amizade tão longa não se sustenta unilateralmente. Em meio a tantas incursões ao precipício, você não soltou a minha mão, nem eu a sua.
Às vezes eu não dou conta de visualizar todos os reels que você manda, as redes sociais são um ambiente insalubre para mim. No entanto, cada vez que sou lembrada, sinto uma profusão de ternura me abraçar. Dou-me conta do privilégio de estar cercada por pessoas boas e queridas que não colocam a culpa na tal correria, porque não deixam o tempo e a rotina apagar a estima.
Não é todo mundo que tem essa força de vontade. Pelo menos, não na era das “amizades líquidas”.
Parece que foi ontem aquele dia em que te contei sobre minha vida caótica e você disse várias vezes que não queria nem ver a Cássia Reis na sua frente porque quebraria a cara dela, tampouco imaginei que você cumpriria essa promessa. Às vezes, se eu fechar os olhos, ainda posso me sentir no C.E.P.E.M., o cheiro de pipoca-doce no ar, as nossas risadas preenchendo aquele cantinho da escada onde ficávamos, altos papos, altos sonhos, dias que pareciam durar pela eternidade.
Dias em que respirávamos a copa do mundo lá na Ásia, que ficávamos acordadas até de madrugada para ver os jogos, mesmo os de outros times. Dias em que lutávamos para preencher nossos álbuns e já não aguentávamos mais as figurinhas repetidas. Dias em que comemoramos o pentacampeonato como se tivéssemos entrado em campo. Dias que hoje são anos e nos deixam cada vez mais distantes daquela adolescência despreocupada, onde poderíamos passar horas conversando no telefone e nunca acabava o assunto.
Seus filhos nem sequer sabem a sensação gostosa de ver a nossa seleção sendo campeã, daquele choro de alegria que faz todo mundo se abraçar, que eleva o nosso moral, mesmo sem pagar nossas contas. Não a julgo por não estar lá muito entusiasmada para a próxima copa. É possível estar antenada em tudo que acontece e me distrair com o futebol, um comportamento não anula o outro. Nossos jovens cresceram com o 7 × 1 engasgado.
Nem todos os dias foram ensolarados, é por isso que tudo faz um sentido tão absurdo. Discordamos em muitos assuntos naquela época e ainda hoje. Você nunca escondeu sua facilidade e predileção pelas exatas, eu sempre fui de humanas. Nem quando fiz as escolhas mais questionáveis escapei dos seus sermões, antes fosse cortar uma franja torta em frente ao espelho e tentar esconder depois. Nem sequer havíamos terminado a escola e passamos por situações que muitas pessoas de 40 também hesitariam em encarar, porém, nós seguimos em frente, apesar do medo, apesar de tudo.
Li um dia desses que se família a gente não escolhe, que pelo menos escolha amigos que componham uma boa tribo de alma, amigos que nos oferecem todo amor e suporte que muitos de nós não recebem/receberam dos parentes consanguíneos. Quando eu era menina, mamãe me disse que eu tinha dedo podre para amigos; por sorte eu não acreditei nessa asneira. Sempre fechei com os verdadeiros, se são poucos, em minha defesa digo que priorizo qualidade. Bons amigos não se encontram em qualquer esquina.
Primeiro, foi o Rodrigo. E a ficha não caiu. Quarentão. Não, não. Quarentão era meu pai… há 25 anos. Não aquele meu amigo que dizia “fuja, loco” como dizemos “daí”.
Eu poderia jurar que hoje você está completando 17 de novo, meio pê da vida por fazer aniversário no comecinho do ano, meio agradecida por escapar das ovadas, mas cercada dos “de sempre”, torcendo para nenhuma foto queimar na hora da revelação. Nada instagramável, tudo muito “raiz”, apesar de termos um fraco por Nutella.
A menina do cabelo esvoaçante e bolsa lateral de barbante precisou aprender a ser gente grande antes do tempo, mas foi muito sábia e feliz em conservar no peito uma centelha que não a deixa amargar, ainda que a vida não se canse de te testar.
Crescemos ouvindo que os 30 são a idade do sucesso, porém, com uma licença poética tão sutil quanto um pé na porta, a partir de hoje decreto que os 40 são a idade do sucesso, que, na realidade, ele não tem um número aproximado que dite qualquer coisa.
Então, Júlia, que venham os 40. Que venha esse novo ser que escolheu você para ser o porto-seguro dele, e que ele tenha a sorte de herdar esse seu riso que rompe muros. Fevereiro do próximo ano está logo ali para celebrarmos nossas bodas de prata de amizade, mas hoje o palco é seu. Brindo à menina da bolsa de barbante, à mulher que soube se refazer das cinzas e à amiga que nunca soltou a minha mão.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Muito obrigada pela visita ao OCDM, espero que você tenha gostado do conteúdo e ele tenha sido útil, agradável, edificante, inspirador. Obrigada por compartilhar comigo o que de mais precioso você poderia me oferecer: seu tempo. Um forte abraço. Volte sempre, pois as páginas deste caderno estão abertas para te receber. ♥