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Sintonia

 

Após a chuva de verão (Reprodução/Arquivo pessoal da Mary)

Escrito em janeiro de 2018, “Sintonia” nasceu de reflexões sobre as nuances das conexões humanas. Esses encontros — uns superficiais, outros profundos — carregam consigo uma beleza e complexidade que permanecem tão atuais quanto naquela época. Hoje, compartilho este texto com a esperança de que ele possa inspirar você a valorizar os instantes de verdadeira sintonia que encontramos ao longo da vida.

Mary Recomenda | Azar do amor: ou como eu sobrevivi a um manipulador — Sophie Lambda

O Mary Recomenda de hoje pode não ser adequado a todos os públicos, mas trata a literatura com a seriedade que ela merece. A obra desta semana não esconde, nem no título, a que veio.

Feliz Dia dos Namorados



                Atualmente vivemos ciclos distintos. A dimensão da distância parece maior, quando vejo milhares de casais (quero crer que estejam mesmo) apaixonados celebram o amor. Aqueles que perderam o seu estão devastados, tudo faz lembrar quem já se foi. Aqueles que ainda não amaram se fazem de indiferentes. Aqueles que gostariam de sentir o amor em plenitude não são recalcados, só não sabem explanar assertivamente que não é o materialismo envolvido, mas a recordação.

Nina Contra o Mundo | A mulher invisível: quando a inteligência é vista como desvantagem no amor

 


A mulher invisível: quando a inteligência é vista como desvantagem no amor
📌 Por Nina | Os Cadernos de Marisol

Você já se sentiu invisível?

Não por ser tímida. Nem por falta de charme. Mas por ser… inteligente.

Quando a vida nos presenteia com sensibilidade, pensamento crítico, olhar analítico e uma certa acidez bem-humorada, parece que também nos pune com a solidão. Não faltam elogios à nossa “inteligência”, “maturidade”, “brilho próprio”. 

Por que esses elogios vêm sempre de pessoas que nos descartam como opção amorosa?

É possível viver sem AMIGOS?

 

Escrito originalmente em 2014, este texto reflete um período em que explorei de forma mais intensa os significados de amizade e solidão. Ele fez muito sucesso no meu blog Perguntas, prerrogativas e provocações, e acredito que sua mensagem ainda ressoa nos dias de hoje. Por isso, decidi compartilhá-lo novamente, intacto, para que novos leitores possam refletir e talvez se identificar com essas palavras.

Platônico II

Olá, amigas e amigos do OCDM. Temos mais um texto de 2010 aqui, espero que vocês gostem de rever essas relíquias que aparecem no blog ocasionalmente, pois sinto muita satisfação em cuidar desse cantinho como se fosse o meu jardim, o meu oásis. 

Os ímpares e a paciência


Uma virtude deveras admirável é a paciência. Não somos dados a longas esperas, vivemos na era do “é para ontem”, onde pessoas, sentimentos e tendências são descartáveis, estamos sempre na luta para não ficarmos para trás, não queremos ser piegas, uma piada sem graça.

O que diz um beijo no olho?


"Os cílios dedilhados aceitam a aproximação dos lábios inspirados. Os olhinhos estão fechados, mas as sinestesias estão mais intensas do que nunca. A revolução se dá na direção certa: atingir o coração de quem se ama." 
— Mary  🪻

CONFISSÕES DE LALY 10 ANOS | O QUE FAZER? (em comemoração dos 10 anos da web novela)

 


Que fim de semana lastimável!

Chorei tanto que fiquei com o nariz todo assado, os olhos inchados e amarguei uma enxaqueca de tirar a concentração. Saí da cama poucas vezes, apenas para ir ao banheiro e à cozinha, não atendi a nenhum telefonema, nem mesmo de Fernanda. 

Entretanto, na segunda-feira me levantei cedo, tomei um banho mais longo, sequei e escovei os cabelos e procurei por uma peça de roupa sóbria, um par de sapatos confortáveis e usei maquiagem para disfarçar os efeitos de um final de semana deprimente.

Apesar de não querer confrontar Abel, não poderia fugir dele pelo resto da vida, teria de passar aquilo a limpo, mas com elegância, como uma lady. Se eu não era nenhuma mocinha injustiçada pelo destino, tampouco ele era um monstro indigno de receber uma segunda chance. Haveríamos de dialogar como os dois adultos civilizados e lúcidos que éramos.
Barraco no local de trabalho só colava em telenovela. Na realidade, eu perderia a razão no primeiro escândalo, sem falar no perigo de um furo desses chegar até algum informante da imprensa marrom e eles terem prato cheio para me detonar. Samantha Saldanha agradeceria a cortesia, não me restam dúvidas.
Abel costumava chegar depois das nove porque em dias mais movimentados, não tinha horário para sair, porém, nunca se queixou. Quando via o resultado do trabalho, o sacrifício o dignificava.
— Lalinha? — Abel tentou me cumprimentar com um beijo, mas recuei e o ato não passou despercebido. — Tudo bem?
— Precisamos conversar, Abel. — declarei sem nenhuma emoção na voz.
Ele, confuso, fechou a porta e questionou o porquê de eu não ter atendido aos telefonemas dele durante o final de semana.
— Sei que tem um bom tempo que não ficamos juntos, leoa, mas essa reportagem é questão de vida ou morte...
— A reportagem é um eufemismo para me dizer pelas entrelinhas que eu não sou sua prioridade?
— Eu te disse que essa reportagem é a salvação da revista, Laly. Há anos estou em busca desse furo e você sabe disso melhor do que ninguém. Se eu consegui-lo, a revista estará a salvo e eu finalmente me sentirei realizado como jornalista. Tenho trabalhado duro...
— Por que você não pode ser sincero pelo menos uma vez na vida? — Minha paciência já havia vazado pelo ralo, enquanto ele seguia pleno, quase explicativo, como se eu fosse uma estagiária acuada no primeiro dia de trabalho.
— Eu não estou entendendo onde você quer chegar, Lalinha. Por favor, explique para mim.
— Eu vi... vi você todo assanhado com outra mulher...
Abel, aturdido, franziu o cenho:
— O QUÊ? QUANDO?
— Na sexta à noite, queridinho.
— Essa só pode ser uma piada de mau gosto.
Assenti, sarcástica.
— Eu que o diga, meu bem.
— Tem certeza de que era eu?
— Ela sabe que eu existo?
— Eu nem sei do que você está falando! — argumentou Abel.
— Sabe, sim. Você sabe melhor do que ninguém.
— Que mulher é essa?
— Ela sabe sobre nós?
— A única mulher na minha vida é você.
— Aaaaah, sei. Ela também ouve isso todo dia.
— Juro por tudo que é mais sagrado que eu não faço a menor ideia do que você está falando.
— Então não adianta nada eu falar, passar por otária, me descabelar, se você não se importa.
— É claro que eu me importo com você, Lalinha.
O jeito que ele me chamava de Lalinha.
O olhar penetrante, decidido, que me equilibrava, mas também me desnudava.
As pontas dos dedos dele enxugavam as lágrimas e para o abraço foi um passo, um passo que eu não deveria dar se já não havia mais esperança entre nós, não mais.
— Lalinha, me escuta! Eu não sei quem anda fofocando sobre mim, mas pensei que você confiasse em mim, que não acreditasse em intriga da oposição.
Desvencilhei-me do abraço dele, disposta a aceitar o fim e ser bem enfática em minhas colocações. De boba ele não me faria.
— Só diga a verdade, Abel. É só isso que estou te pedindo.
— Qual verdade?
— Você tem outra!
— Se eu tivesse outra, não estaria com você. Eu não consigo dar conta de mil coisas ao mesmo tempo.
— Por que você mente?
— Se você quiser terminar comigo, que pelo menos tenha um motivo justo. Chegar aqui e colocar em dúvida meu caráter parte o meu coração, pois se eu fosse casado, você saberia.
— Agora sei, fui a última a saber! Por sorte, o vexame não foi maior e não precisa ser. A gente não precisa se expor, pode terminar por aqui. Não precisa sentir dó de mim, não somos mais crianças, cada um pode ir para o seu canto numa boa, sem ressentimento, sem afetação, mas eu não aceito fazer o papel da outra. Se fosse para ter você, queria ter por inteiro. Se não pode ser assim, então não quero nada.
— Ah, não! — Abel chiou.
— Não importa quais sejam os seus argumentos, nenhum deles vai me convencer a ser a outra. Nada contra mulheres que gostam mais de serem amantes, mas eu não sirvo para isso! Quero meu homem só para mim e exijo o mesmo dele, pois quando estou com um homem, eu sou só dele, não me interessa nenhum outro. Para dar certo, é preciso ser recíproco, não pode um amar pelos dois, não dá certo. Ficar por dó também não dá certo. Então, se for para doer, que doa agora, desatar o nó agora ainda me recorda que tenho dignidade, que não aceitarei menos do que mereço, mentiras, falsidades, joguinhos...
— Você diz ter me visto num jantar na sexta à noite?
Aquiesci, sentindo mais uma onda de lágrimas se avizinhar.
— Ah, não.
— Você confirma que estava naquele jantar?
Ele não confirmou.
— Estava ou não estava?
— Por que isso te interessa tanto?
— Porque eu descobri que passei todos esses anos iludida, achando que tinha tirado a sorte grande, encontrado um cara para casar, que era diferente do Iury, um cara em quem eu podia confiar de olhos fechados quando já não mais acreditava que pudesse confiar num cara. E descubro da pior forma possível que ele é casado, que as mesmas juras de amor que ouço, ela também me ouve, que as migalhas que você me dá são as sobras do banquete dela. Como você se sentiria se estivesse no meu lugar? Você não se sentiria totalmente desnorteado? Como se tivessem tirado o seu chão? Como se nada mais pudesse consertar os estragos feitos no seu coração?
— Todo mundo me confunde com esse cara.
— Nem me venha com essa história de irmão gêmeo porque isso aqui não é uma telenovela! — ralhei.
— Quem me parece querer viver em uma telenovela é você. — devolveu Abel. — Terminar comigo é uma espécie de reviravolta?
— Você está me chamando de maluca?
— Tem um advogado que presta consultoria para nós, o Sandro. Sandro Gonzaga é o nome dele. O cara é tão parecido comigo que todo mundo confunde a gente.
— Nunca ouvi falar. — dei de ombros.
— Você viu o Sandro e a Cláudia, posso te jurar. Se você quiser, eu peço para o porteiro que cobre o turno da noite te ligar e dizer onde eu estava na sexta, se só minhas palavras não são o bastante para você decidir acreditar em mim ou na sua insegurança.
— Nem pense em envolver amigo meu nas suas trapalhadas...
Abel não insistiu.
Fernanda pediu-me para mantê-la informada. Por ela, teria quebrado o carro dele com um cabo de guarda-chuva, num típico dramalhão. Ela, agora elevada ao posto de guru do amor, não interpretou aquela conversa como um bom sinal: 
— O crápula deu um jeitinho de sair pela tangente, dando respostas evasivas, no fundo, querendo te convencer de que você delirou... querendo te passar conversa mole para continuar te cozinhando em banho-maria.
— Fui firme, amiga. Não posso te dizer que está sendo fácil, pois uma parte de mim quer acreditar que tudo não passou de um mal-entendido, que pode ser mentira, mas a outra, a outra cobra de mim a lucidez, o entendimento que preciso ter para dar um basta a essa situação.
— Você sabe que eles nunca terminam com as mulheres, não sabe? Eles nem sempre são malcasados, às vezes só querem uma aventura diferente. Mesmo os que têm amantes porque o casamento não vai bem nunca firmam o relacionamento. Isso, claro, analisando de um modo mais geral e realista.
— Nunca existiu uma exceção?
— Miga, pára para pensar comigo: se ele trai a mulher para ficar com você, quem disse que estando com você, ele não te trairia com outra?
Iury.
Iury fez-me experimentar o gosto amargo da traição. Aimée e Milene foram casos de meu conhecimento, mas e os tantos outros?
Depois de um namoro tão cheio de tumultos, desentendimentos, discussões e joguinhos emocionais, tudo que eu queria era um amor calmo, maduro, verdadeiro, no qual um e um fossem dois e tudo que eu era bastasse para alguém ficar. Até ver Abel enganchado com aquela sujeita com cara de antipática, eu não tinha dúvidas do meu amor por ele, nem do dele por mim, mas como explicar esse vácuo? E como sair daquela cilada sem perder a esperança?

CONFISSÕES DE LALY 10 ANOS | O REENCONTRO (a releitura do texto que inspirou a publicação da web novela)

 Olá, queridos amigos e amigas! Tudo bem com vocês? Espero que sim. *-*
Dez anos atrás, numa terça-feira ventosa, esta que os escreve abriu o bloco de notas e, inspirada pela proximidade do Dia dos Namorados, decidiu escrever uma nota aleatória da Laly, e desta simples tentativa vieram outras e as ideias encontraram um fluxo harmonioso para se manifestarem. Com isso, pensei, seria legal dar uma chance para uma novela que destoava totalmente de DDP. E foi a melhor decisão que tomei. Espero que gostem dessa releitura porque a escrevi com o coração, tendo de base a versão original. Apertem os cintos e entrem no clima. (= #ConfissõesDeLaly10Anos #EscritoraVirtualSim #ComOrgulho 

O final feliz

    


     O final feliz é repleto de dias registrados com distintas caligrafias, de temporais nos finais de tarde, noites sem estrelas e manhãs agradáveis de sol. Ponto final de uma história, argumento de outra, utopia para os descrentes, distante para aqueles que deixaram de enxergar com o coração em virtude das sucessivas desilusões porque o sofrimento transforma bastante a percepção que alguém tem sobre qualquer que seja o assunto em pauta. 

    O que dirá de um amor, de um amor chega ao fim? Era amor ou apenas medo de ser gente grande? A busca incansável por uma utopia? Constantes ciclos repetitivos nos quais a fé diminui à medida que a ferida cresce de tamanho? O inalcançável desejo de quem apenas quer encontrar uma mão para segurar quando o mundo virar-lhe as costas?

    O argumento do amor está interligado com a verdade, ambos caminham de mãos dadas. Uma análise de consciência feita com sinceridade pode responder a essas (e outras) questões. O amor nasce num terreno fértil, que aceite as transformações que sobrevirão, que durante os mais duros obstáculos prevaleçam os valores edificantes. Esse amor perdura pela posteridade adentro, o restante não passa de brincadeiras de mau gosto, fazendo uso indevido do nome dele.

    A eternidade, sob esse viés, é tecida conforme as linhas avançam e preenchem páginas inteiras, assim também é com a estrutura que sustenta o que quatro mãos em consenso resolveram construir, cientes de todos os entraves que poderiam enfrentar durante o referido período. Se o amor for o alicerce do empreendimento, ressignificar será um vocábulo bastante popular para dois corações dispostos a recomeçarem, reatarem, realinharem, reconsiderarem, realizarem.

    Haverá o dia em que lágrimas cairão, quando o barco aportar, levando a pessoa amada embora. O amor não acaba no último beijo, no último abraço nem no último aceno, não enquanto for uma estrela a iluminar suas noites mais escuras. Do tamanho do horizonte, do céu, do universo, a grandeza fica a seu critério. Não é uma dor que se supere, mas se tolere, para manter acesa a chama do legado, porque o reencontro tem um momento certo para acontecer. 

    Já vi pessoas dizendo que “superaram amores” quando, na verdade, nunca amaram, nunca fariam nenhum sacrifício pelos rostinhos bonitos em quem dão match e descartam sem qualquer piedade ou empatia, posto que tabu hoje é se apaixonar, bacana é dar vácuo, seguir um monte de gurus que apenas querem enriquecer com dicas prontas, conteúdo suficiente para caber num livro onde a ilustração preencha o restante, haja um designer muito habilidoso para elaborar uma capa atraente, quando o amor não segue esses protocolos e haja vários modos de amar.

    No fim de um relacionamento abusivo, busca-se reconstruir a dignidade esfarelada, a confiança perdida, superar o trauma de sofrer humilhações, essa fase ruim da vida, mas extraindo dela os referentes aprendizados para se fortalecer. Superar um amor soa incoerente, seria o equivalente a rasgar centenas de páginas escritas com tanto esmero, queimá-las, guardá-las num canto qualquer amontoado de tranqueiras.

    Existe vida depois do final feliz. Existe final feliz enquanto há vida. Existe também a vontade de dizer que os compromissos mundanos delimitam as horas do dia, as estações do ano, as festividades e solenidades, mas não são hábeis para medir o amor em sua totalidade porque não há no mundo cálculo exato para encontrar um valor exato para a plenitude. Existe o meu texto, de quem acredita com todo o coração que a condição propícia para haver um final feliz é que haja um início, o restante, cada história no seu próprio ritmo, ajusta a cadência dos capítulos.

    As ondas quebram durante um solitário passeio pela orla, tantos momentos felizes reduzidos agora ao silêncio. Alguns diriam que a história não teve um final feliz porque uma das partes se foi, entretanto, é justamente nesse ponto dolorido que se encontra o equívoco: o fato de ter chegado ao fim não anula a felicidade vivida, as conquistas, os aprendizados, elementos esses que tornam uma história muito mais bela do que aquelas repletas de palavras rebuscadas.

    O corpo humano expira, quitação pelo grato empréstimo, entretanto, a alma que abrigamos enquanto terrenos, essa é imortal, portanto, o verdadeiro amor, esse dos finais felizes, evolui, transcende. Cumprida a missão, desafios maiores estão a caminho. Caso eu precise te lembrar, viver um final feliz foi um deles.


Curitiba, 7 de dezembro de 2020.

Às vezes sonho que tem alguém, em algum lugar desse mundo, que sonha com o mesmo que eu, alguém que gostaria de encontrar alguém como eu.



        Às vezes, quando não consigo dormir, fecho os olhos e imagino como deve ser abraçar alguém que te faz se sentir protegida, amada, que te aquece o corpo e a alma, como deve ser beijar alguém e sentir que o coração acelera e o desejo queima, pulsa; olhar dentro dos olhos desse alguém e compreender a razão dos desencontros do passado e deixar que alguém me enxergue também, cuidar, porém também deixar alguém cuidar de mim.
        Às vezes sonho que tem alguém, em algum lugar desse mundo, que sonha com o mesmo que eu, alguém que gostaria de encontrar alguém como eu.

Diga que me ama (cap. 10) ele fala


        Você já está nos braços de outra pessoa, amando e se deixando amar. Vocês formam um belo par. Ainda assim, dói. Meus sentimentos estão bagunçados. Alegro-me por saber que depois de todas as desilusões que lhe furtaram a fé, seu coração te guiou com a razão e as portas se abriram para que alguém adentrasse e cuidasse um pouco dessa alma incrível. 
Por outro lado, não serei hipócrita: eu queria ser essa pessoa que te proporciona tantos sorrisos, com quem você imagina um futuro ao lado, ainda que não possa mudar os fatos. Te ver sem poder te tocar, te sentir, ter qualquer esperança de te provar que meu apreço sempre foi verdadeiro, me martiriza sobremaneira. Preciso aceitar que agora você é meu maior impossível.
Queria te abraçar sem pressa e deslizar as mãos pela sua cintura, deixar os dedos correrem por entre os seus cabelos e te beijar. Eu ainda me lembro do seu gosto, deixou saudades no céu da boca. Seu cheiro na fronha do travesseiro, as pontas dos dedos curando feridas que a insegurança encobria com camadas de vaidade. Hoje te enviei aquela música, talvez tenha colocado tudo a perder, porque as mágoas não são muralhas que impedem o contato. Lágrimas não choradas nos surpreendem. Somos tão francos com o papel, libertamos nossos pesos conforme as páginas avançam.
Você se lembra de quando demos nosso último beijo? Sabíamos que seria o derradeiro? Havia algum sinal que não interpretamos muito bem ou fomos vítimas de uma sucessão de desencontros?
        Não quero te constranger te perguntando a respeito da música porque ela, por si só, diria muito mais do que eu, em minhas tentativas pífias de escrevinhar uma resposta digna. Melhor acreditar que te marquei por saber que The Corrs é uma das suas bandas favoritas. Poucos têm conhecimento de que você ainda guarda com carinho os CDs e discos ganhados e comprados. Forgiven, not forgotten é um deles. 
        Ora bolas, você está comprometida. Quase dez anos se passaram desde o nosso último beijo. Seguimos o curso de nossas vidas, nos permitimos beijar outros lábios, dormir em outros braços, encarar desafios e provações. O tempo não parou. Nossas escolhas nos levaram a estar onde estamos hoje. Se decorresse o inverso, a abnegação seria sua prova mais de pura de amor. 
Você viu Yasmin nos braços de outro rapaz e mesmo com o coração quebrado por saber que eles se envolviam enquanto vocês estavam juntas, seguiu em frente e decidiu cuidar um pouco mais de você mesma, não focou sua energia em planinhos ridículos de vingança.
       Ainda me lembro dos seus longos cabelos castanhos cobrindo a cintura, daquele vestido de verão branco com estampas florais e manga ciganinha que você usava naquele happy hour de ano-novo, do colar cujo pingente era um coração vazado, de seu sorriso também. 
Você me disse uma vez não se sentir bonita. Isso ainda se dá por você nunca ter enxergado sob as lentes de quem a ama. Se fosse capaz disso, se surpreenderia. Porque me surpreendi com a intensidade das batidas do meu coração quando nossos olhares se encontraram naquela mesa cheia de gente risonha e paqueradora e nos cumprimentamos pela primeira vez.
        Você estava desacompanhada e não usava anel de compromisso. A noite era longa. Amigos se reuniam e colocavam a prosa em dia. Suas amigas estavam trocando amassos com os companheiros enquanto você conversava e parecia até um pouco deslocada, não exatamente por não ter um par, mas porque não estava em seu lugar.
        — Está esperando alguém?
        Você fez que não com a cabeça.
        — Tudo bem se eu me sentar aqui?
        Você me perguntou se eu era quem era, confirmei com um sorriso e então me lembrei de uma moça bonita a qual alguns amigos meus comentavam, que apesar do talento não ascendia na profissão porque não dormia com o patrão. Não se aborreça comigo, mas era o papo que rolava entre amigos em comum, que a Cláudia Barreto só se tornou âncora do TVTV News porque saía com o Sr. Velloso, enquanto você, que havia estudado por quatro anos, feito pós-graduação e vários cursos livres, era preterida, apesar de talentosa.
        Essa moça bonita era você, também conhecida por não dar moral a ninguém.
As línguas maldosas diziam que você almejava ser à preferida do velho Velloso e por isso não assumia nenhum relacionamento. Outros já questionavam sua orientação sexual, embora naquela época você não falasse a respeito, fosse por medo de portas fechadas ou por separar vida pessoal da profissional com a maestria que poucos de nós conseguimos.
        — Pois é, tenho que estar de pé às sete. — Você deu de ombros. — Estou de plantão, por isso não vou beber nem um golinho, só vim dar um abraço no pessoal…
        — Não vai nem acordar para ver os fogos?
        — Talvez… — Você me respondeu, sorridente, e a conversa fluiu tanto que, por mais que seus sinais não fossem tão claros, a ideia de dormir com você se agigantou dentro de mim. Se você também curtia viver intensamente sem problematizar tudo, trato feito.
        — Depois do plantão, você vai ter uma folguinha? — Arrisquei, porque tudo que poderia ouvir de você era um não e até onde sei, ouvir não faz parte da vida. Pior do que ele, o nada, o nada que poderia ter sido tudo, a teia destrutiva da suposição.
        — Não. Sigo na labuta. Não paro nunca. — Você me respondeu.
        — Nem gripe te derruba? — Brinquei.
        — Só gripe e olha lá.
        A primeira impressão nem sempre é a mais correta, mas a sua desmontou todas aquelas teorias da conspiração que pipocavam a seu respeito. 
Naquele instante, vi uma jovem jornalista focada batalhando para construir uma reputação ilibada no trabalho, dedicada, entretanto, esgotada e ferida pela total falta de reconhecimento, sem oportunidades reais de ascensão.
Gozei desse privilégio, não posso negar; só agora me dou conta disso, de que o caminho que você trilhou para estar onde está, foi muito mais repleto de buracos, trechos íngremes e curvas perigosas. No entanto, para a felicidade geral, você nunca se intimidou nem com a pior das tempestades.
        — Me passa seu número?
        Meus planos para 2009 eram os de sempre, comuns a todos nós, os clichês que repetimos para que se tornem verdades. Aquele que brotou quando 2008 já se aproximava do derradeiro fim, foi te ver naquele novo ano, te ver nem que fosse uma só vez, quiçá a última.
        E você me passou seu número, aproveitando o ensejo também para se despedir da turma. Provavelmente até hoje você pensa que flertei com outra moça e passei a virada do ano acompanhado.
       Pouco depois que você saiu, eu poderia, sim, ter entornado vários drinques e me divertido com outra. Em vez disso, voltei para casa e passei a virada vendo televisão, olhando para o seu número gravado na minha agenda e pensando se seria muito atrevimento te deixar uma mensagem de feliz ano-novo.
        O tal do “escrevi, mas não tive coragem de enviar”.

Destrinchando a Letra | Moments of Love — Cathy Dennis

Depois de revisitar uma das músicas mais marcantes de Confissões de Laly na última edição do Destrinchando a Letra , resolvi aproveitar o e...