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Cinco anos sem você, vó



Não parecia um autêntico sábado de verão. Mal começou e ficou suspenso num tempo indefinido entre tudo que acabou e tudo que jamais voltará ao lugar. 

Foi a partir daquele dia que você começou a morrer um pouquinho. 

Teve um domingo muito estranho algum tempo depois. Cinzento, frio, longo e suspenso. As paredes frias testemunharam os seus últimos momentos, mas esse trecho da história sofreu diversas alterações, a depender de que o narrava. Porque o desfecho era óbvio, não haveria um último milagre para fazê-la levantar daquela cama e testemunhar uma cura que faria a medicina duvidar das próprias convicções.

Dizem que seu último suspiro foi perto da meia-noite. Suas mãos soltaram a corda esgarçada pela luta desleal contra um inimigo que devorou as páginas em branco restantes no livro da vida e se apresentou num estágio avançado demais para uma remissão. Chegava a hora de dar os primeiros passos rumo a um lugar muito melhor do que aqui, distante da nossa visão, do entendimento e do toque.

Naquela manhã de segunda-feira eu não mensurava a dimensão da sua partida. No fundo, eu ainda esperava por um telefonema que desmentiria a realidade e devolveria aos dias um senso de normalidade.

Foi algum tempo depois que olhei para as fotos que tirei da última vez que a visitei e ficou muito claro o ensaio improvisado de uma despedida não tão anunciada.

A casa ainda era a mesma, mas havia um silêncio dolorido naquele relógio parado às sete horas, no piso frio que cobria os cômodos, no amarelo desbotado das paredes. O último café não parecia o último, a mesa posta tinha gosto de reencontro. Álbuns de fotografias espalhados pelo chão, a voz embargada com uma lembrança que veio de repente, droga de pandemia.

Você acenou para nós até o carro dobrar a esquina, costumava ser o nosso "até sempre". Foi numa madrugada insone que escrevi sobre o assunto pela primeira vez, com um nó na garganta, porque resumiram seu funeral a lavação de roupa suja de quem deixou a mágoa e o rancor falarem mais alto do que a dor que nos igualava a todos.

O inventário mais importante não eram os eletrodomésticos, nem o carro, nem a propriedade, era a sua bondade de ajudar a quem precisasse, a determinação de uma mulher que ficou sozinha no mundo e lutou por tudo que quis, as histórias que cada um viveu ao seu lado e poderá guardar para sempre.

Esse lar ainda existe no mundo dos sonhos. Não tem tumor nenhum, nem joelho estourado, nem coração quebrado, nem protocolos sanitários a impedir visitas e abraços. A saudade acaba assim que avisto o canteiro de flores perto do portão e a rampa que dava na garagem porque sempre tem um abraço cheiroso pedindo desculpas pela bagunça — inexistente — e agradecendo a visita.

Tiraram a plaquinha dos geladinhos que ficava no poste, mudaram a cor do portão, tem outro veículo estacionado na garagem, parece que tantos anos passaram mais rápido do que um suspiro. Tem uma pessoa a menos orando por mim e pelos meus, nunca mais apareceu seu telefone no identificador de chamadas nos aniversários e no Natal.

Reconheço ser tarde para lamentar tudo que não fiz por você, pelas visitas que ficaram na promessa, pelo ponto final que mudou tudo para sempre. Remoer arrependimentos por não ter aproveitado certos momentos ciente da brevidade de nossas existências não acalma meu coração, porque por um bom tempo eu te tinha como uma mulher forte e longeva, que veria meus filhos crescerem, reunindo novamente quatro gerações no mesmo aposento, que nem naquele dia em que estávamos a bisa, você, a minha mãe, a minha irmã e eu.

São cinco anos de muitos outros que ainda virão. O mundo seguiu em frente, nós também seguimos para algum lugar. Com um vazio impossível de preencher com nada que não seja a sua memória e a certeza de que quando eu publicar aquele livro o qual você queria tanto ter lido, o mundo haverá de conhecer o seu nome. 

Infelizmente, nem todos os contratos são respeitados e uma editora pegou aquele dinheiro que você com tanto carinho deu para ver o livro ser publicado. Nunca consegui te contar que pessoas inescrupulosas agiram de má-fé, deixando de cumprir o que prometeram até reconhecendo firma, porém a lembrança mais bonita tem a ver com a sua generosidade em acreditar em mim mais do que eu mesma já acreditei. 

Talvez você olhe por mim aí do plano superior e a gente se encontre um dia desses, quando a primavera voltar. Enquanto isso, eu escrevo.


Terças com Tita | A farsa dos 500 anos

 



Isso vai entregar a minha idade, mas não estou nem aí. Parece que foi ontem que eu passava pelo centro da cidade e via aquele relógio de rua que fazia a contagem regressiva para os 500 anos do descobrimento do Brasil. Para quem nasceu depois disso, essas narrativas parecem meio estranhas, pertencentes a outro mundo.

O otimismo quase ingênuo que aquela vibe do ano 2000 trazia era palpável no ar, nos gestos, no sentimento comunitário. Algo muito grandioso estava para acontecer, muito além do nosso modesto entendimento. Essa expectativa só precisava existir para hoje ser palavra — ou muito mais do que palavras.

Coração de leão e sábados preguiçosos



"A culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser" — Homer Simpson 

Tudo começou num dia qualquer, de frente para a televisão de tubo, sem nenhum prenúncio especialmente memorável. Primeiros parágrafos me intimidam, preciso sacudir a cartola de cabeça para baixo na esperança de encontrar algumas ideias razoáveis para não abandonar o texto. Porque é o que acontece quando o medo se torna uma estufa de acrílico e desencoraja riscos, mesmo os calculados. 
Eu teria de reencarnar dezenas de vezes para ser tão inteligente e articulada como a Lisa Simpson é no alto dos seus oito anos, mas a sede de conhecimento é uma constante. Só é sufocante tentar caber em definições tão obtusas; a caixinha não é um lugar legal para se morar. 

Terças com Tita | O dia em que achei que tinha escrito um clássico

 

Ah, a pretensão juvenil. Mudar o mundo, uma missão quase messiânica. Sou a mensageira da sociedade. Pare e preste atenção na minha arte. 




Tenho mais fases do que a Lua. Era uma das inúmeras comunidades nas quais eu participava no tempo do Orkut. Sinto já ter escrito algo nessa mesma linha, mas precisava de um ponto de partida. No fundo, escrever é um método mais sofisticado de viajar na maionese e cai como uma luva para recordar aquela época da vida em que mudar o mundo é o sacerdócio da jovem e soberba alma.

Senta que lá vem a história, mas não é aquela do Rá Tim Bum. Seria melhor se fosse, insisto. Os leitores mais jovens provavelmente não entenderão a referência — e não tem problema; eu também não manjo das gírias dos tempos dos meus pais e está tudo bem. Porque o que vai sair daqui é um arremedo de escrevinhadora da mais reles estirpe, inclinada a encher linguiça porque não gosto de poupar palavras, a menos que o dever me obrigue.

Escrever diários sempre foi um hábito essencial e inquebrável desde a infância, mesmo precisando armar um esquema de guerra para proteger a integridade dos cacarecos dos olhos de coruja que mantinham o DOPS familiar mais vivo do que nunca.

Com 16 primaveras e milhares de registros, tive uma epifania durante uma sessão de terapia. O psicólogo fez as perguntas de um milhão de dólares e eu só na defensiva, tentando mudar de assunto, porque não queria tocar em certas feridas. Ele não se intimidou nem com meu ataque de choro, que não demorou a vir.

Eu não precisava falar nada se não quisesse. O silêncio também tinha seu simbolismo, tanto quanto aquelas lágrimas que os lenços de papel não deram conta de estancar. Parecia patético chorar por “dó de mim mesma”, mas eu já falava como se estivesse no corredor da morte, com as oportunidades zeradas, esgotadas, apenas no aguardo da execução.

Por muitos anos, palavras foram munições nas bocas daqueles que sentiam prazer em me causar dor. Os rastros permaneceram no ar, na alma, reverberando ainda hoje naquele pensamento grudento sobre incapacidade. A psicologia chama esse comportamento de síndrome da impostora.

O psicólogo me deu uma "lição de casa" e eu quase pensei em não fazer, muito embora essa mentira fosse só uma cortina de fumaça para encobrir aquele anseio juvenil de ser ouvida. Abrir o documento em branco deveria contar como tentativa, mas não bastaria. Arrisquei algumas palavras e apaguei tudo com a rapidez de um temporal.

Levantei-me da cadeira, fui olhar pela janela, coloquei uma música para tocar, voltei e pensei em perguntar se todos os escritores do passado tinham problemas para começar a joça do texto. Havia horas que eu estava naquela lenga-lenga e não saía uma só frase, nem um parágrafo todo truncado e desconexo para eu rir de mim mesma na posteridade. Eles faziam parecer tudo tão fácil.

Cricri dormia todo esparramado em cima da cama, barriguinha para cima, tão lindinho. Aquele sono pesado e despreocupado era de quem não se ocupava de pensar no passado nem no futuro. Choramingava quando tinha um pesadelo, abanava o rabinho quando tinha um sonho bom. Não se importava se os pinschers eram mais esguios, nem por que um labrador tinha o dobro do tamanho dele, nem se algum yorkshire de madame ostentava um guarda-roupa cheio de roupinhas e uma extensa coleção de brinquedos. Sentia prazer com coisinhas tão simples como furtar pão da mesa, morder calçados, latir nas horas mais inapropriadas e praticamente me enxotar da minha própria cama para ficar com o maior espaço.

Meu sonho sempre foi ter um cachorrinho. E eu realizei. Agora, que outros sonhos tenho para colocar no lugar?



Eu também sonhei em ter uma melhor amiga, ser mocinha do tempo e passar as férias em outro planeta. Fiquei por um triz de ser levada pela morte, mas escolhi a vida e ela me escolheu também. Estando naquela fase de querer mudar o mundo, uma coisa levou à outra... e o que era para ser só um "dever de casa" para o psicólogo se tornou questão de honra.

O mundo precisava conhecer a minha história.

Fonte Comic Sans, tamanho 14, cor fúcsia e muitas boas intenções. A joça não tinha nome e eu ia contando a história da minha vida até o presente momento. Parecia vida pra caramba e o tempo para contar tudo, quase insuficiente. Essa dedicação ostensiva rendeu frutos, ou melhor, mais de 400 páginas.

Era de madrugada e não dava para eu abrir a janela e sair gritando que terminei um livro…

Não um livro qualquer… era o livro da minha vida.

Foi inevitável não rir de nervoso quando vi aquele meme do Derp rabiscando aleatoriedades no Paint e olhando orgulhoso para a tela como se fosse o próprio Picasso contemporâneo. Gastei uma nota imprimindo aquele calhamaço cujo texto nem sequer estava justificado, imaginando que a Academia Brasileira de Letras ainda me coroaria com uma cadeira.

Júlia disse que eu escrevia melhor do que o Machado de Assis, mas foi só para me motivar. Ele sempre foi o "cara" para mim. Se algum dia eu escrevesse sobre a natureza humana com tanta riqueza de detalhes e criasse personagens memoráveis que ultrapassassem gerações, seria uma honra.

— Como vai ser o nome do livro? — Quis saber a Júlia.
— Eu… não sei.
— Você não pensou em nenhum nome?
Tita. Por mim mesma.
— Você está tirando onda? — Júlia me encarou, séria.
— Não gostou?
— Não...
— Esse negócio de inventar título é um problema. Já pensei em vários, mas não gosto de nenhum.

Simplesmente Tita, dentre todos os títulos pensados, foi o que mais agradou. Parecia até nome de novela mexicana antiga, daquelas que a gente ama e revê milhões de vezes: com uma protagonista sofredora, que se lasca do primeiro ao último capítulo, e a promessa de um final feliz.

Concluir o primeiro livro deveria ser o final da história, certo?

Errado, muito errado.

A primeira versão difere do rascunho por deixar o anonimato. E tão somente. Ela foi o primeiro passo de uma jornada interminável de releituras, revisões, reedições, reescritas e polimento.

O perfeccionismo também pesa a mão de vez em quando, mas um dia eu hei de driblar essa tal impostora que habita em mim e publicar essa história, nem que seja para meu eu da terceira idade cair na gargalhada.

O sentimento de ter dado com o pé na porta do sistema, chocado a sociedade e abalado as estruturas da família tradicional brasileira (atenção: contém ironia!) me levava às nuvens. Como a menina prodigiosa que, no meu íntimo, eu queria ser conhecida e validada.

Querer nem sempre é poder, sussurrou o bom senso. Bem menos, Tita

Parece até um esquete do Joselito: você está de braços abertos, dando bobeira, e o fanfarrão te surpreende com um balde de água gelada que desmancha o sorriso, o penteado e até o rebolado. Sem noção, Joselito. Nesse caso, a realidade assume a bronca. 

Que jovem escritor nunca se sentiu vivendo na época errada e amargou incompreensão em algum momento da vida?
 
Faz parte do processo. Uma crítica enviesada dói tanto quanto um tiro à queima-roupa. Não morri de tuberculose, embora tenha amargado umas desilusões bem indigestas. Ninguém cria uma boa casquinha de proteção sem sair da redoma, primeiro a gente quebra a cara para depois rir da cacetada.
 
Na prática, isso quer dizer que, quando a gente tropeça nas nuvens e para no chão, o desalento é o advogado do diabo, todo cheio de vir com aquela história de "jogar pérolas aos porcos" e criticar a tendência do momento, procurando alguma desculpa esfarrapada para fugir da autocrítica.

Quem lia aquele pergaminho de cores berrantes e pretensões astronômicas dizia "gostar", isso quando eu tinha resposta. Porque quando cheguei à fase adulta, com o rei na barriga, não entendi o motivo de levar um balde de água gelada atrás do outro; não sei como não morri de pneumonia moral.

É inevitável não recordar aquela cena de A Governanta em que a Rosália aparece na casa da D. Marisa, com uma travessa cheia de bolinhos de chuva chamuscados, e a vó da Raquel, diplomática, enrola a vilã para não precisar comer bolinho nenhum feito por quem amava a cozinha na mesma proporção da caridade.

A verdade é que fui pretensiosa como a Rosália. Apresentei meu trabalho para o mundo como se fosse a reencarnação da Clarice Lispector, a promessa da literatura brasileira, indiferente num primeiro momento aos sorrisos amarelos de quem elogiava a intenção e, discretamente, empurrava o prato para o lado. Nesse ponto, já não há mais volta: os pés estão grudados no piche. 

Eu era boa o suficiente para ser estimulada, só não para ser reconhecida pelas porcarias que escrevia.

Tá, você escreve, mas qual é o seu trabalho? Escritor nesse país não ganha nem para o sabão!

Não se sabe quando o juízo chega, mas um dia ele dá com o pé na porta e toca o terror. O primeiro impulso foi querer deletar todas aquelas abobrinhas que chamava de livro e aceitar o inferno da vida de CLT, trabalhar para ganhar uma miséria e ver a vida passar como se fosse só uma observadora da própria história, sem forças para redigir uma reviravolta… e sem vontade também!

Os professores da universidade diziam (e ainda dizem) que "tudo já foi escrito". Desconstruir a arrogância juvenil e não meter o louco, chegar a cogitar mudar de área, de ares, de ideia. Se não fosse esse cenário lastimável do cabresto acadêmico que esmurrava a criatividade, ainda teria de lidar com haters.

Haters gonna hate — disse Júlia, lembrando até dos axiomas de Lulu. — Ninguém odeia o feio nem inveja o fraco. Se a sua arte incomoda, você já chegou mais longe do que muita gente. Quem xinga por trás de uma tela não teria coragem de falar nem duas frases se estivesse olhando para você.
 
Recorrendo ao bolinho chamuscado em Comic Sans, os melhores feedbacks reconheciam os aspectos positivos e mostravam os pontos que poderiam (e deveriam) ser trabalhados; ignorá-los implica assinar o atestado de mediocridade. Quem odeia gratuitamente nunca jogou limpo; sempre apelou para a baixaria. Narcisismo literário não disfarça a inexistência do talento.
 
O destino de livros ruins e mal escritos é o esquecimento. Não adianta depositar entulho no quintal alheio porque ele não é aterro. Fica a dica. Seria o bolinho de chuva envenenado a última esperança de uma Rosália já sem paciência de esperar a D. Marisa morrer para passar a mão na grana. Vai falhar miseravelmente; subestimar o faro aguçado da Raquel nunca termina bem.

Para quem não calça as sandálias da humildade e não se dispõe a se reconstruir e viver também o lado B do ofício, o destino é a sombra. Pode culpar a concorrência, o mercado, as sabotagens de inimigos imaginários, o mau-olhado; vai correr em círculos e perder para meus hamsters, que correm por diversão. Vai dar de cara com a parede, Dom Quixote da Shopee. O pior inimigo do progresso é seu próprio orgulho ferido, não sou eu, nem a autora que vende milhões de exemplares.
 
Após o banho de água gelada e a digestão das verdades amargas, sobra o que realmente importa. Menos "chocar a sociedade" e mais "fazer sentido para alguém". Nem que seja meia dúzia. De Comic Sans para Arial, de fúcsia para preto. Podar assusta um bocadinho no começo; depois, acostuma.
 
Escrever é, no fundo, a arte de saber o que jogar fora. E às vezes é preciso sacrificar o próprio ego inflado para se livrar de fardos que só servem para retardar o progresso. E fechar os ouvidos para o que não convém, às vezes é só barulho tentando desconcentrar; não vale a pena.

E daí se eu nunca viver dos royalties da escrita?

Eu já vivo dela.

Desde que me dispus a aprender a contar histórias e combinar versos para estampar sentimentos, ser a desagradável que não segue a manada, a escrita corre pelas minhas veias. Vivo de registrar acontecimentos, observar o mundo, viajar na maionese e sonhar alto, mas agora os passos nas nuvens são mais cautelosos, contados, até um pouco hesitantes, eu me atreveria a dizer.
 
Às vezes, esse pensar demais, a tal mão pesada do perfeccionismo, é uma empata foda literária. Meu eu da terceira idade precisa ter alguma diversão. Preciso de motivação para comprar meu próprio carro e ficar livre de aturar música de qualidade duvidosa quando pego carona.
 
Não sou prato de brigadeiro, nem litrão, tampouco uma porção de batata-frita para lutar pela unanimidade. Atura ou surta, honey. Não nasci para agradar ninguém, só para botar os pingos nos is e fazer as perguntas inconvenientes varridas para debaixo dos tapetes dessa vida.
 
Sinto muito… Não, eu não sinto muito por quebrar as expectativas de ninguém… Assuma a responsabilidade por elas.

Transbordar em piscina rasa é encrenca; preciso desaguar nesse oceano de possibilidades infinitas e lembrar da minha condição de "peixinho" que busca incansavelmente o caminho de casa e não tem saída senão mergulhar.

Insisto que minha versão da terceira idade merece se divertir. E minha versão atual necessita de colo, um copo de café e umas férias.

Mary Recomenda | O diário de Anne Frank - Anne Frank

 

Reler (ou comentar) Anne Frank é sempre um exercício de humildade. Em um mundo onde as pessoas gritam por atenção nas redes sociais, o diário de uma menina escondida em um anexo secreto em Amsterdã continua sendo uma das vozes mais potentes da história. Mas não se engane: o valor deste livro não está apenas na tragédia que o encerra, mas na vida que transborda de cada página.

O que mais me impressiona em Anne não é a sua condição de perseguida, mas a sua qualidade como escritora. Ela não estava apenas relatando fatos; ela estava fazendo literatura de si mesma. Anne era perspicaz, muitas vezes ácida ao descrever os outros moradores do anexo, e tinha uma honestidade cortante sobre as próprias falhas e desejos.

Ao ler Anne, a gente percebe que a maior resistência dela não foi apenas se esconder, mas se recusar a deixar que o medo apagasse sua identidade. Ela escreve sobre o desabrochar do corpo, sobre o conflito com a mãe, sobre as descobertas do amor e, acima de tudo, sobre a sua ambição de ser jornalista e escritora.

É devastador pensar que o mundo perdeu a mulher que Anne se tornaria, mas é reconfortante saber que ela conseguiu o que mais queria: “continuar vivendo depois da morte”. Seu diário é a prova de que a sensibilidade e a verdade são as únicas coisas que o autoritarismo não consegue enterrar.

Minhas impressões: Muitas vezes evitamos o Diário por medo da dor que ele causa, mas a leitura nos entrega algo muito diferente: uma vontade imensa de viver. Anne nos ensina que, mesmo no lugar mais apertado e escuro do mundo, o pensamento pode ser livre. É um livro que exige escuta, entrega, empatia.

🎉 Um dia em 1995 🕹️🍌💿



Você acordou… em fevereiro de 1995. Sei, seu primeiro pensamento foi “deu ruim”. Na verdade, ninguém fala desse jeito. O vocabulário é outro: se algo é legal, dizemos que é “massa”; se alguém é chato, chamamos de “mala”.

No começo, dá um branco. Você pensa que teve um daqueles sonhos estranhos onde não consegue se mexer, no entanto, você nunca esteve tão bem, seus sentidos estão despertos e aguçados e todos os seus brinquedos estão na prateleira ou no baú, ou mesmo espalhados pelo recinto.

SiMpLeSmEnTe TiTa 15 anos | Com ela não tem conversa, só cotovelada no olho

25 de abril de 2002. 

Tudo que poderia dar errado na apresentação, deu. Andréa foi repreendida várias vezes por falar baixo, eu gaguejei olhando para o sargentão de saias, Rodrigo usou gírias para explicar o conteúdo e emitiu juízos de valor, descendo a lenha na Igreja Católica — ainda bem que a D. Arlete não estava lá para ouvir, Júlia se empolgou com o assunto e Priscila não segurou a crise de riso. Resultado: fomos esculachados pela velha coroca e ficamos de castigo até às 13h, que nem naquelas detenções de filmes norte-americanos.

Terças com Tita | A história que sempre se repete (Qual será o próximo alvo?)



20 de março de 2003

O que aconteceu ontem no capítulo da novela ficou em segundo plano por conta do Boletim Extraordinário. A aula era de Biologia e a Arlete nem nos repreendeu por discutir (a possível) guerra. Quem consegue abordar outro assunto?

Perto dos quarenta, longe da tomada

 


Envelheci 20 anos nas duas últimas semanas ou, sem os óculos de sol que as ondas arrastaram, a realidade ganhou contornos de uma nitidez inquestionável? Olha eu tentando falar bonito e me pagar de cronista extraordinária, quando não passo de uma reles escrevinhadora, a apelar sem muita firmeza para a falsa modéstia, quando o que não tenho mais é tempo para depreciações.

Toda essa comoção sobre “2006 já fazer 20 anos” não é só papo de rede social. A Copa na Alemanha, de tão decepcionante desfecho, completa duas décadas. Era o primeiro passo de uma longa e insegura travessia, ninguém de nós sairia ileso dessas porradas que a vida dá, às vezes na surdina, sem motivo, só porque estar na chuva significa se molhar e arriscar perder tudo, até mesmo aquilo que nem se tem.

Que venham os 40

 

Ilustração de Júlia Mirella Menezes Gutierrez Carrasco criada por Inteligência Artificial

Aquele era meu primeiro dia na escola nova. Tudo que eu queria era esquecer o que aconteceu antes, tudo que você soube depois e não soltou a minha mão. Você chegava ao lado da Deh, com os cabelos pretos, longos e esvoaçantes, a bolsa lateral de barbantes balançando junto, parecendo tão animada para começar tudo de novo. Seu sorriso foi a ponte que rompeu quaisquer silêncios que pudessem formar um muro entre nós. Esse é o nosso clichê de amizade, não posso reescrever diferente disso.

A cultura pop nos “ensina” que meninas bonitas com tendência à liderança geralmente são perversas, mas você quebrou todos esses paradigmas, bem como quebrou muitos outros. O mais importante deles inspira esta homenagem. Superamos os tempos de escola, os dramas de jovem adulta, crises políticas, pandemias (desinformação também conta) e rumamos para um jubileu de prata especialíssimo, que será devidamente celebrado em fevereiro próximo.

Mary Recomenda | As Virgens Suicidas - Jeffrey Eugenides


O Mary Recomenda de hoje traz a resenha de um dos romances contemporâneos mais marcantes e melancólicos que já li: As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides. Publicado originalmente em 1993, o livro ganhou adaptação para o cinema em 1999 pelas mãos da estreante (e hoje cultuada) diretora Sofia Coppola.
Falar sobre essa obra é um desafio, não só pelo tema delicado, mas também porque ela deixa uma impressão difícil de descrever, algo entre o desconforto e o fascínio. Ainda assim, vou tentar — porque esse livro merece ser sentido.

26 de Julho | Dia dos Avós 🧓👵

 

🧓👵 Avós são como raízes: firmes, silenciosas e cheias de história. Mesmo quando já não estão, seguem nos sustentando por dentro.

📜 Por que 26 de julho?

A data homenageia Santa Ana e São Joaquim, os avós de Jesus.
Segundo a tradição cristã, eles esperavam há anos por um filho quando Ana recebeu a visita de um anjo anunciando o nascimento de Maria. Com o tempo, seriam também os avós daquele menino que nasceria em uma estrebaria e mudaria o mundo com ternura e resistência.

🎗️ Em países como Portugal e Espanha, o Dia dos Avós também é celebrado nesta data. Já em outras partes do mundo, como os Estados Unidos e o Canadá, há o “Grandparents Day” em setembro, com foco no reconhecimento familiar e comunitário.

Mary Recomenda | Três - Valérie Perrin

 


Sabe aquele tipo de livro que você termina e sente que viveu uma vida inteira com os personagens? É exatamente o que acontece em Três, da Valérie Perrin. Não é apenas uma história sobre amizade; é um mergulho profundo no que o tempo faz conosco — com as promessas que fazemos aos dez anos e com as cicatrizes que acumulamos até os quarenta.

Mary Recomenda | A bela Rosalina - Natasha Solomons

 


Quando ser a “esquecida” salva uma vida inteira

Por Mary Luz

Independentemente de gostar ou não, tenho certeza de que você já ouviu falar da história de amor entre Romeu e Julieta, certo?

Na edição de hoje do Mary Recomenda, não trago a icônica obra de Shakespeare, mas uma releitura de Rosalina, que na peça original é brevemente mencionada como “um amor antigo” do Romeu. Este é o nosso ponto de partida para uma jornada de 360 páginas que nos leva para a Verona medieval, onde Julieta Capuleto vivia seus últimos dias de inocência.

Venha, o cocheiro dos Capuletos nos aguarda. Suba nessa carruagem, Rosalina nos aguarda no verdejante pomar.

Terças com Tita | Escola: berço do saber ou palco de sofrimento?


Por Tita | Os Cadernos de Marisol 

Os momentos mais alegres da minha infância e pré-adolescência não aconteceram dentro dos portões da escola. Para muitos, a escola deveria ser o lugar de inclusão, tolerância e aprendizado — não somente acadêmico, mas também social. Um espaço onde crianças e adolescentes aprenderiam a conviver com as diferenças, a respeitá-las e a praticar a tão necessária empatia.

Mary Recomenda | Minha vida de menina - Helena Morley

Segunda versão da identidade visual do Mary Recomenda

Sexta-feira combina com Mary Recomenda e hoje decidi trazer uma obra que conheci meio ao acaso, anos atrás, e que se tornou um divisor de águas para mim. Já aviso: já sofri hate por defender esse livro, mas não me importo. O ódio alheio geralmente é apenas um espelhamento; a pessoa projeta em nós o que ela não suporta em si.

Mary Recomenda | A Amiga Maldita - Beatrice Salvioni

 📖 A Amiga Maldita, de Beatrice Salvioni

Quando o título engana e a verdade emociona

Autora: Beatrice Salvioni
Gênero: Ficção histórica, drama psicológico
Páginas: 336
Publicação: 2023
Ambientação: Itália fascista sob o regime de Mussolini

Do papel para o digital — mas com o coração no mesmo lugar

 Do papel para o digital — mas com o coração no mesmo lugar

Ilustração baseada em agenda de 2005 com frase sobre o valor do meio da história.
Ilustração da minha agenda de 2005 

Por Mary Luz

Ah, as agendas. A liberdade de escrever nelas tudo que dava vontade. A letra de uma música. Um poema tocante. Frases, sempre elas. Um lampejo de lucidez. Inspiração inesperada. Idéias que jorraram do tubo de caneta para o papel, pedindo licença pela intensidade do fluxo, jamais pelo posicionamento. 

Porque pedir desculpas por ser real é um negócio que não tem fundamento.

Terças com Tita | Quando o Aurélio voou: a vingança ortográfica de Arlete


📎 Nota da narradora:
Desde a publicação do post sobre a famigerada "AUTORIZASSÃO" — que rodou o CEPEM mais rápido que bilhete de sala para sala — fui cobrada a contar o que aconteceu depois.
Afinal, bilhete mal escrito é uma coisa…
Agora, dicionário voando?
Isso foi história.

E como diria D. Arlete: “o castigo vem antes da aula de reforço”.
A seguir, os fatos que abalaram a honra linguística de uma mãe-professora.

Cinco anos sem você, vó

Não parecia um autêntico sábado de verão. Mal começou e ficou suspenso num tempo indefinido entre tudo que acabou e tudo que jamais voltará ...