Terças com Tita | Não sou um cabo-de-guerra

 

Félix e Tita (Arquivo pessoal da Mary)

Existem barreiras invisíveis que ninguém vê, mas todos sentem.


Na última sexta-feira (25), foi o Dia Internacional de Conscientização sobre a Alienação Parental. Celebramos a luta por mais justiça, bem como a necessidade de ouvir as crianças, entender seus silêncios e abraçar seus corações quebrados que, muitas vezes, são confundidos pelos adultos ao redor. Tenho local de fala porque cresci com uma dor difícil de explicar, muito além de não entender por que meu pai não estava por perto quando eu mais precisava.

“Eu só queria que ele me explicasse. Mas ela falava tantas coisas contra ele, e eu... eu ficava perdida. Eu não sabia mais o que acreditar.”
Tita, aos 8 anos

Com tão pouca idade, era realmente difícil de entender. Meu pai, antes tão amigo e protetor, aquele que me buscava toda sexta-feira de tardinha para passar os fins de semana com ele e fazer de mim a princesa da mochilinha azul, levando-me ao parque, ao cinema, ao teatro de bonecos, deixando-me ouvir as músicas de que gostava no rádio, livre para... ser criança...

Para a minha mãe, tudo era "subversão": brincar, perguntar, sorrir, cantar, imaginar, sonhar, escrever, desenhar. A sentença dolorosa de que na minha historinha a princesa não teria um final feliz foi o golpe de misericórdia. Papai encontrou uma namorada. E a história precisava de uma vilã. Tudo se encaixou na minha cabecinha de criança.

Meire tinha plena consciência disso e vingou o próprio orgulho ferido ao incutir a ideia de abandono. Simples, meu pai não se importava comigo, a prova disso era me trocar pela Helena e pelos (supostos) futuros filhos que eles viriam a ter. 

Mesmo assim, eu sentia algo de errado. Meu pai me ligava, me mandava presentes, dizia ter "muita saudade", mas também não queria criar climão me forçando a nada. Não tinha resposta. Nenhuma explicação. Somente saudade misturada com raiva.

Sabe, crescer com essa confusão dentro do peito foi dolorido demais. O amor incondicional tentando sobreviver às manipulações maternais, o ódio por ter de acreditar nela. Não sabia em quem confiar, os instintos talvez não fossem tão assertivos, a verdade doía, ser deixada para trás, ainda mais.

Eu não sabia em quem confiar. Nem em mim mesma.


Foi dessa confusão que Tita nasceu. O tal cabo-de-guerra levado até as últimas consequências por Meire das Neves.

Em Simplesmente Tita, a protagonista é uma criança que cresce imersa nessa confusão. O pai, Félix, ainda é uma lembrança distante, mas um amor constante. Ela o ama, ele está ausente. Não é somente sobre abandono; diz respeito à manipulação de uma mãe que, inconscientemente ou não, faz a filha crescer com um coração partido e uma mente cheia de incertezas.

Essa dor vai crescendo com ela, transformando-se em uma desconfiança profunda, que vai para muito além da relação com seu pai — ela se torna desconfiada das pessoas ao seu redor, desconfiada do que é verdade.


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