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o tempo me mostrou que a gente só escreve em linhas tortas quando teima em continuar uma história que já acabou

 

Estou puta da cara. Estranho seria se eu não estivesse. Inserir símbolos seria suavizar demais; me falta disposição para mais autocensura. Algumas mensagens precisam da literalidade inegociável para serem entendidas. Pode ser que ainda restem dúvidas, considerando que o velho hábito de me subestimar continua tão latente... 

Não há sorriso capaz de disfarçar a percepção cínica de quem me quer no chão.

1000 cartas de amor | Sonhar também é uma maneira de continuar olhando para cima

 

Talvez o amor esteja mesmo longe no momento.
Isso não quer dizer que ele seja impossível ou inalcançável.
Você não é invisível, nem está errada por querer amor bom, pele com pele, olhar com verdade, cheiro com memória.

E, mesmo se o mundo inteiro disser o contrário, você ainda pode sonhar com a lua.
Sonhar também é uma maneira de continuar olhando para cima.

A lua entende silêncios, ilumina noites escuras e não exige que você saiba agora o que virá depois. Talvez um dia a vida te responda de um jeito que hoje você ainda não consegue imaginar.

Você não deveria precisar provar que venceu todas as dificuldades para que alguém reconheça que elas existiram

 


As condições para florescer nunca foram iguais, mas a cobrança pelo resultado é a mesma. E, a despeito dessas diferenças, todos esperam que eu performe perfeição e realização. Como se duas pessoas pudessem percorrer caminhos completamente diferentes e fossem obrigadas a chegar ao mesmo lugar, no mesmo tempo.

Mais doloroso do que conviver com a sensação de fracasso é tentar explicar meus motivos e essas justificativas serem tratadas como meras "desculpas". No entanto, reconhecer os obstáculos não significa negar a própria responsabilidade em decisões que ainda podem (e devem) ser tomadas. Significaria compreender por que determinadas mudanças exigem de mim um esforço que as outras pessoas não conseguem enxergar.

Existe uma diferença importante entre responsabilidade e culpa.

Você não deveria precisar provar que venceu todas as dificuldades para que alguém reconheça que elas existiram. Porque eu também não devo.

Não vou romantizar a resistência. O sofrimento não me tornou uma fortaleza inquebrável. Algumas experiências simplesmente machucam, atrasam projetos, destroem a confiança, detonam o amor-próprio e deixam consequências, por vezes, insuperáveis.

Para mim, essa imagem de florescer é significativa.

Uma planta que recebeu luz, água e proteção não pode ser usada como parâmetro para condenar outra que cresceu em um ambiente muito mais hostil. Isso não significa que a segunda esteja condenada a nunca florescer, apenas que ela precisava de condições melhores e mais justas, não de cobranças.

Sofrimento e falta de esforço não são sinônimos por definição, nem deveriam ser pauta para acusações. Quando uma dor não machuca o seu peito, é muito fácil tratá-la com pouco caso.


Desaparecer... para caber

 


A palavra de ordem do momento é encolher. 

Com a insatisfação no centro das atenções, cresce a ânsia doentia de se apequenar para caber num molde cujos critérios podem mudar já na próxima temporada. E o medo de ficar de fora parece acelerar a queda dos grãos da ampulheta. Mesmo com todos os esforços, pertencer não é uma garantia concreta.

17 anos e contando

 

Quarta-feira, 14 de outubro de 2009. 


Hoje pode ser só um dia comum, como a maioria dos dias é, porém, você faz parte do mundo, mesmo se sentindo sempre do lado de fora dessa festa. Se a aceitação implica abrir mão da essência e do caráter, talvez não seja tão ruim assim dar as costas. 

Deixe a música tocar. Caminhar só nem sempre significa estar perdida. Quando a chuva passar, você irá florescer de novo. Foi assim das outras vezes também.

Ninguém nasce sabendo tudo, mas ter alguma noção do que se quer já significa não estar mais parada no mesmo lugar. Pensar é importante, não nego, mas se você esperar as condições mais adequadas, a vida vai passar e o rascunho vai continuar sendo só um vazio incômodo.

Pode dar certo. Ou não. Pode ser que você não chegue a realizar todos os seus sonhos. Agora, no entanto, não se preocupe em atingir a perfeição. Ela é uma linha de chegada que sempre some da vista. Lembra aquela história de ficar pele e osso e ainda se sentir três vezes maior.

Ouça o seu coração, não os seus medos. Deixe as marcas de batom nessas páginas, ria alto, escreva o que está engasgado, não tente se encolher por receio de ser insuficiente. Insisto: saiba dar as costas como eles te deram também. Saiba dizer não e nem pense em se corrigir na primeira chantagem, pois eles sabem dizer não e não perdem o sono preocupados por a magoarem.

Você vai quebrar a cara, infelizmente. Mas vai sobreviver. Não sem chorar antes todas as lágrimas do mundo e amargar indagações sem respostas porque, afinal, você é a rainha do drama. Só prometa que não vai chorar pra sempre, nem se enxergar sob os olhos dos monstros no meio do caminho. Vai ter muita pedra para tropeçar, muita torcida contrária, um pouco de autossabotagem também, como haverá joaninhas e vagalumes, a luz da lua e as borboletas no estômago.

O mundo ainda é uma paleta policromática; o bege e o cinza ainda não tomaram conta de tudo. A esperança não está fora de vista, nem mesmo agora. Você possui a capacidade de remendar as linhas tortas e reconhecer caminhos menos óbvios para se reconectar com tudo aquilo que importa. E é por isso que ainda sonha e escreve - quase sem pretensão, só sabe que não tem coragem de jogar tudo pro alto porque ainda acredita...

Tem uma vida esperando por você. Seus sonhos estão esperando por você. 

(tudo precisa ter um começo, menina)

Quando o desamor vem antes do amor


Como reconhecer carinho, respeito e interesse genuíno depois de uma experiência que nos ensinou a ter medo?

Quando a gente experimenta um desamor antes de um amor, nossa percepção fica toda distorcida. Depois de um abuso, a gente tenta internalizar a culpa porque parece bem mais "fácil" do que aceitar que uma pessoa escolheu machucar a gente.

No fundo, aquela alegria de viver vai desaparecendo, até que a gente se pega só sobrevivendo, escondendo partes da gente para não ser machucada de novo, talvez escondendo a feminilidade, se protegendo sempre de qualquer investida.

A gente fica pensando se existe homem apaixonado capaz de aceitar a gente ou se não passa de uma lenda... mesmo já sendo grande demais para acreditar em Papai Noel.

Mesmo que um est#pr0 tenha acontecido há onze anos, as marcas no corpo e na alma foram profundas e reais porque afetaram minha forma de enxergar o amor e o mundo. 

Não é vitimismo, é a minha realidade. Eu não quero acreditar que só existe Jurandir escroto e que os possíveis caras legais já estão comprometidos, então escrevi essa lista idiota para tentar internalizar que, sim, um homem pode gostar de uma mulher e, talvez, só talvez, exista uma chance de gostar de mim... sem me estuprar e me jogar no lixo.

Performática

eu sei, você sabe...
parecer ser,
mesmo sem ser,
sem convicção,
porque é assim que deve ser
para aparecer,
porque é esse o segredo:
um cabide de plástico
pendurando falsas ideologias,
observação feroz e detalhista,
porque sei que ser
é mais importante
do que só ser.

para quem?
e para quê?
por que ser
o que não se é,
o que se vende,
se até esse sorriso
não passa de mera conveniência,
se a verdade é só um espelho quebrado?

Pode não parecer hoje, mas tudo vai ficar bem

 


Não gosto muito dessas frases genéricas de autoajuda, mas hoje decidi fazer um contraponto respeitoso sobre a ideia de que o amor romântico é o único válido e existente, só isso. Viver algo bonito e correspondido, quem não quer?

Amor romântico não é o único tipo de amor do mundo



Essa história de "o amor vem para os distraídos" me faz revirar os olhos. Mais distraída do que eu — e por natureza, a ponto de colecionar manchas roxas na perna e não saber por que — duvido que haja alguém.
A bem da verdade, hoje é uma sexta-feira comum, a exemplo de tantas outras sextas-feiras do ano. Passar o Dia dos Namorados sozinha é perfeitamente possível, bem como me divertir mesmo sem um namorado também é. 

Dia da Chatice aka Dia dos Namorados


Eis que chegou o Dia da Chatice, aka Dia dos Namorados. Sou do time que odeia a data e cutuco a ferida da hipocrisia comercial. Temos outros 364 dias no ano para demonstrar amor, não somente em 12 de junho e fomentado pelo exibicionismo barato em troca de algumas curtidas.

As palavras já estiveram em lugares onde jamais sonhei em estar


Há fases em que a ausência é necessidade de primeira ordem. A pausa vem da paralisia moral entranhada nas noites em claro, acompanhada pela insegurança e um medo quase infantil de não dizer nada que agregue.

Às vezes, o problema não é o livro

Há uma grande probabilidade de você já ter vivido essa situação de encontrar um livro que te arrebata porque a capa é muito chamativa, a sinopse desperta curiosidade e a própria narrativa te prende de um jeito tão intenso que você hesita entre devorar as páginas de uma vez ou ir devagar para prolongar aquela companhia. 
A combinação harmônica desses elementos geralmente prenuncia uma ressaca literária das bravas, cinco estrelas (talvez), concordâncias, discordâncias, dúvidas sobre continuações ou a coerência do final. Entretanto, nem todo encontro deixa aquela saudade boa e a promessa de um reencontro. 

Mary Recomenda | Minha amiga Anne Frank — Hannah Pick-Goslar

Capa da edição brasileira de Minha amiga Anne Frank, publicado pela Buzz Editora 


Livros necessários nem sempre são fáceis de serem digeridos, sobretudo quando eles nos mostram uma realidade dura, penosa e inimaginável para nós, uma história que não devemos nos esquecer para não repeti-la. O Mary Recomenda de hoje é dedicado a discorrer sobre Minha amiga Anne Frank, de Hanna Pick-Goslar, a querida Hanneli, mencionada no diário de Anne Frank.

espelho quebrado | o manifesto da dismorfia (2020)

 

Publicado originalmente em 7 de março de 2020, no blog Perguntas, prerrogativas e provocações.

ele nunca foi o algoz

refletiu a representação
sobre a minha pessoa
sem omitir os detalhes
sem filtros de disfarces
por inteiro a me ver

Terças com Tita | A farsa dos 500 anos

 



Isso vai entregar a minha idade, mas não estou nem aí. Parece que foi ontem que eu passava pelo centro da cidade e via aquele relógio de rua que fazia a contagem regressiva para os 500 anos do descobrimento do Brasil. Para quem nasceu depois disso, essas narrativas parecem meio estranhas, pertencentes a outro mundo.

O otimismo quase ingênuo que aquela vibe do ano 2000 trazia era palpável no ar, nos gestos, no sentimento comunitário. Algo muito grandioso estava para acontecer, muito além do nosso modesto entendimento. Essa expectativa só precisava existir para hoje ser palavra — ou muito mais do que palavras.

A vida continua injusta, mas o riso é livre



Tenho um pé atrás com continuações ou reencontros porque quase sempre eles não correspondem às expectativas. Se seu desejo é ler uma resenha acadêmica, técnica, detalhada e repleta de palavras difíceis, esse post não é para você. Quero conversar com aquela jovem que um dia eu fui, sem "higienizar" minha história porque fulana pode ficar chocada com as anedotas de alguns anos atrás, sem me envergonhar das páginas zoadas, dos tombos e até das referências que solidificaram a personalidade.

Depois dos 25 | O oásis não passa de outra ilusão



Ninguém conta o quão devastador é ser gatilhada por estímulos que me querem adestrada, encolhida na caixinha, consentindo com as falácias vendidas num belo embrulho. O medo de ficar de fora coloca todas as convicções em prova. 
Padeço às pedras de granizo atravessadas no peito, consequência de todos aqueles "tudo bem" que venho dizendo há muito tempo. Deito para esquecer, acostumada a ser compreensiva, a tantas portas fechadas, a abdicar em nome dessa tal resiliência.
Sou muito consciente da realidade, estou e sempre estive sozinha. E esse peso testa a resistência aos mais árduos trechos nesse solo árido e pedregoso. Caminho devagarinho, prefiro assim. O oásis não passa de outra ilusão. 

Depois dos 25 | Ponto de não-retorno

 


Se já escrevi, não lembro quando, mas não é a primeira vez que me questiono o porquê de a nostalgia Y2K resgatar e reciclar o que tinha de mais abjeto naquela longa década. Permaneci alguns segundos dramáticos fitando a tela, tentada a apagar essas ideias ridículas e pelo menos tentar seguir o tal fluxo, abraçar a nostalgia e ignorar a podridão varrida para debaixo do tapete.

refluxo urbano

os ventos sopravam ao sul
ondas revoltas inundavam as cercanias dos castelos
erguidos na firmeza de uma promessa vazia 
apesar da escuridão, ainda era dia 
e o lugar seguro dispensava a tradicional rigidez
nem perto do mar, nem na capital 

pombos encharcados no telhado 
a sacola plástica, marionete de mãos invisíveis, voava sem freios
da janela, a imagem embaçada
ondas se formando no asfalto 
impacientes faróis amarelados preenchiam a avenida
um por um a entrar nessa dança funesta
no sentido antihorário 
contabilizados nas estatísticas 
bueiros regurgitavam as velhas queixas de verões passados 
transbordando o que sempre foi ignorado.



A estrela para sempre brilhará

  Foram três semanas muito difíceis, marcadas por uma tensão muito grande, um medo profundo de ser engolida pela onda do retrocesso. Passei ...