Amor romântico não é o único tipo de amor do mundo
Dia da Chatice aka Dia dos Namorados
Terças com Tita | A epopeia da garota incompreendida (escrito em 2013)
As palavras já estiveram em lugares onde jamais sonhei em estar
Cinco anos sem você, vó
Não parecia um autêntico sábado de verão. Mal começou e ficou suspenso num tempo indefinido entre tudo que acabou e tudo que jamais voltará ao lugar.
Foi a partir daquele dia que você começou a morrer um pouquinho.
Teve um domingo muito estranho algum tempo depois. Cinzento, frio, longo e suspenso. As paredes frias testemunharam os seus últimos momentos, mas esse trecho da história sofreu diversas alterações, a depender de que o narrava. Porque o desfecho era óbvio, não haveria um último milagre para fazê-la levantar daquela cama e testemunhar uma cura que faria a medicina duvidar das próprias convicções.
Dizem que seu último suspiro foi perto da meia-noite. Suas mãos soltaram a corda esgarçada pela luta desleal contra um inimigo que devorou as páginas em branco restantes no livro da vida e se apresentou num estágio avançado demais para uma remissão. Chegava a hora de dar os primeiros passos rumo a um lugar muito melhor do que aqui, distante da nossa visão, do entendimento e do toque.
Naquela manhã de segunda-feira eu não mensurava a dimensão da sua partida. No fundo, eu ainda esperava por um telefonema que desmentiria a realidade e devolveria aos dias um senso de normalidade.
Foi algum tempo depois que olhei para as fotos que tirei da última vez que a visitei e ficou muito claro o ensaio improvisado de uma despedida não tão anunciada.
A casa ainda era a mesma, mas havia um silêncio dolorido naquele relógio parado às sete horas, no piso frio que cobria os cômodos, no amarelo desbotado das paredes. O último café não parecia o último, a mesa posta tinha gosto de reencontro. Álbuns de fotografias espalhados pelo chão, a voz embargada com uma lembrança que veio de repente, droga de pandemia.
Você acenou para nós até o carro dobrar a esquina, costumava ser o nosso "até sempre". Foi numa madrugada insone que escrevi sobre o assunto pela primeira vez, com um nó na garganta, porque resumiram seu funeral a lavação de roupa suja de quem deixou a mágoa e o rancor falarem mais alto do que a dor que nos igualava a todos.
O inventário mais importante não eram os eletrodomésticos, nem o carro, nem a propriedade, era a sua bondade de ajudar a quem precisasse, a determinação de uma mulher que ficou sozinha no mundo e lutou por tudo que quis, as histórias que cada um viveu ao seu lado e poderá guardar para sempre.
Esse lar ainda existe no mundo dos sonhos. Não tem tumor nenhum, nem joelho estourado, nem coração quebrado, nem protocolos sanitários a impedir visitas e abraços. A saudade acaba assim que avisto o canteiro de flores perto do portão e a rampa que dava na garagem porque sempre tem um abraço cheiroso pedindo desculpas pela bagunça — inexistente — e agradecendo a visita.
Tiraram a plaquinha dos geladinhos que ficava no poste, mudaram a cor do portão, tem outro veículo estacionado na garagem, parece que tantos anos passaram mais rápido do que um suspiro. Tem uma pessoa a menos orando por mim e pelos meus, nunca mais apareceu seu telefone no identificador de chamadas nos aniversários e no Natal.
Reconheço ser tarde para lamentar tudo que não fiz por você, pelas visitas que ficaram na promessa, pelo ponto final que mudou tudo para sempre. Remoer arrependimentos por não ter aproveitado certos momentos ciente da brevidade de nossas existências não acalma meu coração, porque por um bom tempo eu te tinha como uma mulher forte e longeva, que veria meus filhos crescerem, reunindo novamente quatro gerações no mesmo aposento, que nem naquele dia em que estávamos a bisa, você, a minha mãe, a minha irmã e eu.
São cinco anos de muitos outros que ainda virão. O mundo seguiu em frente, nós também seguimos para algum lugar. Com um vazio impossível de preencher com nada que não seja a sua memória e a certeza de que quando eu publicar aquele livro o qual você queria tanto ter lido, o mundo haverá de conhecer o seu nome.
Infelizmente, nem todos os contratos são respeitados e uma editora pegou aquele dinheiro que você com tanto carinho deu para ver o livro ser publicado. Nunca consegui te contar que pessoas inescrupulosas agiram de má-fé, deixando de cumprir o que prometeram até reconhecendo firma, porém a lembrança mais bonita tem a ver com a sua generosidade em acreditar em mim mais do que eu mesma já acreditei.
Talvez você olhe por mim aí do plano superior e a gente se encontre um dia desses, quando a primavera voltar. Enquanto isso, eu escrevo.
Insurgente
Joaninhas e piscinas 🐞
Não era uma tarde comum de outono, nem tão quente, mas a piscina da estância estava cheia de gente. Mergulhar de cabeça é parte da aventura para quem escolhe dar as mãos ao medo e descer o tobogã azul em espiral. Passar vergonha encabeça a lista de coisas que deixo de fazer para não ser assunto pelos motivos "errados".
A vida continua injusta, mas o riso é livre
Tenho um pé atrás com continuações ou reencontros porque quase sempre eles não correspondem às expectativas. Se seu desejo é ler uma resenha acadêmica, técnica, detalhada e repleta de palavras difíceis, esse post não é para você. Quero conversar com aquela jovem que um dia eu fui, sem "higienizar" minha história porque fulana pode ficar chocada com as anedotas de alguns anos atrás, sem me envergonhar das páginas zoadas, dos tombos e até das referências que solidificaram a personalidade.
Depois dos 25 | O oásis não passa de outra ilusão
A ressaca da maturidade
Tenho pensado nesse assunto com uma frequência assustadora. Aprendi a fingir sem nenhum tutorial; nunca pareci estar tão bem. Eles elogiam a postura serena e resignada porque eu já não brigo mais com os fatos. Vivo cada dia na esperança de ser o último.
1000 cartas de amor | Dona do meu coração (março de 2017)
É possível viver sem AMIGOS? (nova versão)
Mesmo que eu já não saiba mais sonhar
Sonhadora era um adjetivo bem comum para as pessoas se referirem a mim no passado. Eu era aquela pessoa que sabia o que queria e conhecia os caminhos para “chegar lá”. Tudo parecia estar escrito. No entanto, essa “certeza” me acomodou e eu não soube encarar as intempéries com a serenidade exigida para padecer, para não me tornar a personificação ambulante da amargura.
a maior liberdade é viver para superar nossos próprios medos, não as expectativas dos outros
Ao longo da vida, aprendi que não devemos viver com o peso de provar quem somos a quem não está disposto a ouvir. Gostos, crenças e preferências são escolhas profundamente pessoais, que não precisam ser validadas ou justificadas. Seja gostar de Chaves, fofurices, usar allstar, preferir rock ao sertanejo, ou mesmo não gostar de algumas coisas. Seja acreditar em Deus sem seguir uma religião ou apreciar a literatura com a liberdade que ela propõe, tudo isso faz parte da autenticidade de cada um.
É curioso como, em tempos de tanta informação, ainda haja indivíduos incomodados com personagens fictícios, submetendo-os a rigorosos julgamentos como se fossem reais, condenando-os segundo os critérios do moralismo de fachada. Segundo Roland Barthes, a literatura nos atribui o privilégio da licença poética, aquele espaço onde os personagens existem além do moralismo da realidade, como espelhos de nossas complexidades. Criticar ou sentir inveja de uma personagem literária é um reflexo de quem observa, não de quem escreve.
Por que, então, continuamos presos à necessidade de agradar ou convencer? A resposta, talvez, esteja no valor que damos à opinião alheia, quando, na verdade, a maior liberdade é viver para superar nossos próprios medos, não as expectativas dos outros.
Aos que ainda gastam energia tentando colocar etiquetas na vida dos outros, um lembrete: viver com autenticidade é um ato revolucionário. E para aqueles que insistem em condenar o que nem existe, talvez seja hora de refletir — não sobre quem apontam o dedo, mas o incômodo projetado no reflexo da ficção.
A vida é curta demais para dar palco ao que não agrega. Que possamos seguir caminhando com nossos próprios sapatos, sem nos preocupar com os calçados dos outros.
Um encontro de almas
O sol batia fraco pela fresta da cortina do quarto dela no findar daquela manhã. A casa mergulhada em silêncio, só não tanto para ela se esquecer de onde estava. Podia sentir o coração bater bem mais alto do que os passos imaginários do lado de fora.
Estrelas na madrugada chuvosa
A escuridão é o papel em branco que segue o instinto da pele. A luz do luar traceja delicadamente os contornos desse movimento gravitacional, invisível aos olhos distraídos, que harmoniza a comunhão de dois mares na eternidade.
A gramática do balde transbordado
Sintonia
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| Após a chuva de verão (Reprodução/Arquivo pessoal da Mary) |
Confissões de Laly | Um minuto: por mim, por favor (2012)
Manifesto de uma nefelibata
"Eu não sou uma fraude por não saber tudo porque tenho a humildade de buscar aprender o que não sei. Minha força não está na perfeição da regra, mas na precisão da minha observação, de rir dos meus erros."
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