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Joaninhas e piscinas 🐞

 

Não era uma tarde comum de outono, nem tão quente, mas a piscina da estância estava cheia de gente. Mergulhar de cabeça é parte da aventura para quem escolhe dar as mãos ao medo e descer o tobogã azul em espiral. Passar vergonha encabeça a lista de coisas que deixo de fazer para não ser assunto pelos motivos "errados".

Coração de leão e sábados preguiçosos



"A culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser" — Homer Simpson 

Tudo começou num dia qualquer, de frente para a televisão de tubo, sem nenhum prenúncio especialmente memorável. Primeiros parágrafos me intimidam, preciso sacudir a cartola de cabeça para baixo na esperança de encontrar algumas ideias razoáveis para não abandonar o texto. Porque é o que acontece quando o medo se torna uma estufa de acrílico e desencoraja riscos, mesmo os calculados. 
Eu teria de reencarnar dezenas de vezes para ser tão inteligente e articulada como a Lisa Simpson é no alto dos seus oito anos, mas a sede de conhecimento é uma constante. Só é sufocante tentar caber em definições tão obtusas; a caixinha não é um lugar legal para se morar. 

Terças com Tita | Quem roubou pão na casa do João?

"O Miguel roubou pão na casa do João (2x)
Se não foi você, então quem foi?

O Bernardo roubou pão na casa do João (2x)
Se não foi você, então quem foi?

(e os versos são repetidos por 44 vezes — ou até o fim da excursão ou, em último caso, até o motorista abandonar o posto)" 

Exageros à parte, quem já participou de uma excursão escolar lembra que reunir a criançada é sinônimo de cantoria, batucada e adultos irritados até chegar ao destino. 

Mudam os celulares, os ônibus e as mochilas, mas a cantoria continua a mesma. Criança é uma espécie que atravessa gerações intacta.

Ouvi uma cantoria dentro de casa e, por desencargo de consciência, fui dar uma olhadinha na janela. Dei de cara com aquele ônibus da prefeitura apinhado de criança fazendo fervo com aquela musiquinha que a galera cantava na minha época.

Miguel disse não ter roubado o pão na casa do João; o Bernardo também não. O sinal ficou verde, o ônibus dobrou a esquina e eu fiquei sem saber se essa parte da musiquinha também foi cantada:

Não sabe, não sabe,
vai ter que aprender.
Orelha de burro,
cabeça de ET…

Quando eu digo ‘na minha época’, já me imagino virando o Abe Simpson sentado debaixo do limoeiro, contando histórias para as crianças... ou muitos leitores podem pensar que eu nasci "dez mil anos atrás". Brincadeiras à parte, "o tempo passou e eu sofri calado, não deu pra tirar ela do pensamento"... Vai falar sério ou não vai, Tita? 

Quando relembro minha vida de menina, pareço viajar para outro mundo, onde volto a me ver sentada em algum canto pertinho da janela, só observando os colegas cantarem e a inspetora Jane, colérica, intervir de cinco em cinco minutos, iludida de que sua gritaria surtiria algum efeito.

Ou o motorista tinha uma paciência de longe tibetana, ou já havia desenvolvido certa tolerância à algazarra porque a Jane, ah, aquela lá não via a hora de que a gente crescesse, muito embora todo ano viesse uma turma novinha em folha e disposta a honrar esse legado passado de geração para geração como que instintivamente.

Um belo dia (ou não tão belo assim, culpa da enxaqueca), a gente também experimenta o papel da Jane. A gente refuta tudo que soa "infantil" para sustentar um simulacro de maturidade, enterrando a autenticidade em troca de uma máscara social "aceitável".

Esse dia chega para todos, mas, depois de certa idade, a gente se cansa de carregar o peso dessas máscaras e precisa fazer as pazes com aquela criança sapeca cantando alto na excursão. A vida pede um pouco dessa leveza.

Alguns de nós deixam a amargura tomar as rédeas e refutam as próprias raízes. Querem que crianças sejam "miniadultos" e criam uma versão idealizada do próprio passado, mas sentir medo do bicho-papão, cantarolar no ônibus e fazer um milhão de perguntas está no roteiro. Criança tem que brincar, voar com as asas emprestadas pela imaginação, só se preocupando mesmo em não pegar recuperação nem tirar nota vermelha.

A gente vai ter muito tempo (e muitos motivos) para reclamar...



Malacubaca | Em time que está ganhando não se mexe?

 

Ilustração autoral do Zecão, o mascote futebolístico da Malacubaca (Reprodução/Arquivo pessoal da Mary)

A quem interessar possa, este texto foi avaliado com rigor técnico pela equipe da Malacubaca/OCDM. Não foram encontrados indícios de Inteligência Artificial. Edu Meirelles também afirma não ter um ghostwriter. Enquanto isso, divirtam-se... ou revoltem-se!

Deveria ser uma verdade autoevidente e possível de ser comprovada mediante retrospecto. Entretanto, na calada da noite, não só os gatos são pardos, como também existe uma teimosia em subverter o axioma por certo deleite na própria estupidez.

Perto dos quarenta, longe da tomada

 


Envelheci 20 anos nas duas últimas semanas ou, sem os óculos de sol que as ondas arrastaram, a realidade ganhou contornos de uma nitidez inquestionável? Olha eu tentando falar bonito e me pagar de cronista extraordinária, quando não passo de uma reles escrevinhadora, a apelar sem muita firmeza para a falsa modéstia, quando o que não tenho mais é tempo para depreciações.

Toda essa comoção sobre “2006 já fazer 20 anos” não é só papo de rede social. A Copa na Alemanha, de tão decepcionante desfecho, completa duas décadas. Era o primeiro passo de uma longa e insegura travessia, ninguém de nós sairia ileso dessas porradas que a vida dá, às vezes na surdina, sem motivo, só porque estar na chuva significa se molhar e arriscar perder tudo, até mesmo aquilo que nem se tem.

Malacubaca | Edu Meirelles fala sobre o tetracampeonato do Flamengo na Libertadores


 

Por Edu Meirelles

(ele garante que mesmo sem ser um cronista de mão cheia, não utilizou nenhum software de Inteligência Artificial para redigir este modesto texto)

🐞 O jardim de Buba e as estações do silêncio




🐞 O Jardim de Buba e as Estações do Silêncio

(Uma fábula sobre florir apesar das pragas invisíveis)

Por Mary Luz | Os Cadernos de Marisol


Havia um jardim escondido atrás da neblina, onde nem todo mundo conseguia chegar. Era lá onde as flores nasciam de palavras e as árvores escutavam antes de responder. Nesse pedacinho de mundo vivia Buba, a joaninha dona de um coração que escrevia antes mesmo de bater.

Como nasce um post dos Cadernos de Marisol ✍️

 


✍️ Como nasce um post dos Cadernos de Marisol

Nem tudo o que você lê aqui começou com uma ideia perfeita.
Às vezes, começou com uma lembrança. Um ruído. Uma injustiça que não me desceu. Uma saudade que me cutucou. Ou um vento estranho que soprou mais forte do que devia.

Do papel para o digital — mas com o coração no mesmo lugar

 Do papel para o digital — mas com o coração no mesmo lugar

Ilustração baseada em agenda de 2005 com frase sobre o valor do meio da história.
Ilustração da minha agenda de 2005 

Por Mary Luz

Ah, as agendas. A liberdade de escrever nelas tudo que dava vontade. A letra de uma música. Um poema tocante. Frases, sempre elas. Um lampejo de lucidez. Inspiração inesperada. Idéias que jorraram do tubo de caneta para o papel, pedindo licença pela intensidade do fluxo, jamais pelo posicionamento. 

Porque pedir desculpas por ser real é um negócio que não tem fundamento.

E se não for como antes?

 📌 Introdução

Uma cena inédita, entre o medo de amar e a coragem de tentar.
Um diálogo que talvez já tenha acontecido com você — ou dentro de você.
Às vezes, a história começa mesmo antes do primeiro beijo.


 A chuva havia parado, mas o cheiro de terra molhada ainda flutuava no ar.

Brilho no olhar também é nota

 

O dia em que me disseram: você tem perfil para ser jornalista

Comecei o curso com medo. Medo de repetir o que vivi na outra instituição. Dos zeros. Do assédio moral, do silêncio, da pressão, do julgamento. A fama do professor não ajudava: diziam que era marrento, carrasco, que detonava os trabalhos e não poupava nada nem ninguém nos feedbacks.

Editorial OCDM | Infância com cheiro de sofá e pipoca doce: quando a TV era um mundo inteiro


 

Houve um tempo em que a infância cabia num sofá. Num copo de Toddy gelado, numa coberta remendada, num controle remoto brigado entre irmãos. E a televisão não era só ruído — era refúgio, era alegria, era companhia.

No auge dos anos 90, ainda era possível sonhar acordada com uma nave que levava a Xuxa para o espaço, ou com uma redação comandada por cães jornalistas — a lendária TV Colosso. E se você cresceu ali, entre a programação infantil da Globo, SBT, Cultura e Manchete, você sabe do que estou falando. Tínhamos opções.

Crônicas Desbocadas | A escolhida e a esquecida

 Crônicas de uma atendente cansada de ouvir que a vida é justa para quem “merece”.


Tem gente que nasceu com o cabelo certo, a pele lisa, o nome que soa bem até quando o vento sopra. Gente que tem um sorriso no canto da boca, mas um mundo inteiro dobrado aos seus pés. Gente como ela. 

A influencer que minha mãe segue com devoção quase religiosa, a quem chamarei aqui de “a Escolhida”, porque é assim que ela parece se sentir: escolhida por Deus, pelo algoritmo e pelo marido — um sujeito manso, prestativo, que vive se dobrando para atender aos caprichos dela.

A Escolhida é branca, magra, de cabelo escorrido como comercial de xampu. Mora no interior de São Paulo, numa casa que mais parece cenário de novela da Globo, e começa os vlogs dizendo: “Ai, gente, desculpa estar meia desgrenhada hoje” — mesmo com filtro, maquiagem impecável e short de alfaiataria. Diz ser simples, mas não sabe o preço do arroz. Vai ao mercado comprar “besteirinhas” e volta com três tipos de taça, oito coberturas para sorvete e tudo mais que tiver direito.

Ela não lê livros. Não cursou faculdade. Nunca pegou fila no SUS. Nunca apertou o botão errado da catraca do transporte público porque não sabia se a tarifa tinha mudado. Entretanto, é “abençoada” por não se humilhar por uma miséria na escala 6x1, porque tudo que recebe — e que posta — é “Deus honrando” sua fidelidade. Até o fogão novo (porque enjoou da cor do antigo), segundo ela, foi “presente do céu”. Mal sabe a sebosa que seu céu tem o nome do marido e CPF dele na nota fiscal parcelada.

Ela aparece lavando louça, só para fazer charme e se dizer "gente como a gente", e o marido vem por trás, tenta abraçá-la. Ela ri, diz “Ai, sai daqui, seu gordo!” com aquela risadinha sem graça, deixando o coitado constrangido em rede nacional. Ainda assim, ele continua apaixonado. Monta móveis, edita vídeos, embala surpresas de Páscoa e grava com o maior sorriso do mundo quando ela o manda calar a boca. Amor assim só se vê em filmes... de terror psicológico.

Tem dias em que ela chora durante o devocional — não por arrependimento, mas porque ainda não conseguiu a publi de alguma marca renomada. Diz sofrer porque não tinha sequer um frasco de perfume antes do marido. O sofrimento dela é não ser a Virgínia. 

Ela diz que doa amor, mas não doa móveis. Tudo é vendido — até o berço do filho que já não usa. Porque crente que se preza, segundo ela, não se apega. Só fatura.

Enquanto isso, do outro lado da tela, estou eu.  Fardada de colete feio que gonga a aparência, com os pés latejando, a lombar estourada, tentando disfarçar o cansaço, sorrindo para madame véia mal-humorada que desconta em mim se o time perde ou empata, como se fosse culpa minha que o preço dos comes e bebes sofreu reajuste. Na Páscoa, os colaboradores não ganham nem um simples bombom com frase de almanaque. 

A vida, para algumas, é chocolate importado. Para outras, é o amargo da comparação.

Tem gente que sofre e doa o que pode. Que se contenta em ver o outro feliz com o mínimo. E tem quem ostente até a tristeza, ensaiando lágrimas diante da câmera porque não virou capa da VOGUE Evangélica.

E então, como se o altar do consumo precisasse de mais uma oferenda, ela anunciou — com o mesmo tom doce de quem conta uma revelação celestial — que trocou a cama de casal. Não porque quebrou, não porque precisava, mas porque “tava enjoada, gente”. E o maridinho, claro, correu para comprar a mais cara da loja, como um cordeiro devoto a um altar que nem sequer sabe se é amado de volta.

O curioso — ou revoltante, mesmo — é que ela não doa nada. Nada. Tem mães de verdade, com muito menos, que separam os brinquedos das crianças, as roupas que não servem mais, e dão com alegria, com gratidão, com fé em algo maior que o próprio umbigo. 

E o devocional? Continua. Falar o nome de Deus em vão está em alta, dá engajamento. O cabelo, claro, segue escorrido. Porque frizz é pecado. E quem tem não tem cabelo esticado, quem sua, quem engorda, quem tem olheira, quem sofre calada, não tem uma aliança grossa na mão é só mais uma das outras. As esquecidas.

Eu sou uma dessas.

Sou a que vive tentando ver beleza onde o mundo só vê falha.

Sou a que ri sem ter vontade, porque tem gente por perto.

Sou a que se cansa de fingir que está tudo bem, mas finge mesmo assim.

Ela não é simples, e sim o produto final da fábrica de vaidade digital, disfarçada de evangelho, embalada para presente em reels de supermercado com trilha fofa e maridinho acenando no fundo. E enquanto segue vendendo até os cabides da casa para fazer caixa e comprar outra cafeteira “porque agora eu gosto de outra cor”, a gente aqui se pergunta: até quando o mundo vai premiar esse tipo de gente?

E o pior é saber que ela não está sozinha. Que há todo um sistema que alimenta essa farsa, que recompensa o falso brilho, que transforma arrogância em estilo de vida. E a gente, que só quer existir com dignidade, fica no limbo, esperando que um dia vejam valor onde não há filtro. Porque a gente também ora. A gente também ama. No entanto, o que a gente tem não vira publi. Não viraliza.

Ainda tem um pedaço meu que não desiste. Porque, talvez, um dia, Deus olhe para mim com o mesmo filtro que ela usa nas fotos. E diga: “Agora é a sua vez.”

Mas até lá… eu que lute.

— Nina

(a gata borralheira do reino da desarmonização, anti-clean girl)

As cicatrizes




A simples ação de fazer login naquele aplicativo remetia ao ato desmedido de embriagar-se de veneno à medida que o feed mostrava as atualizações. Cada linha lida insuflava a torrente de lágrimas, que molhavam as costas da mão, a tela do celular, a visão, mais facas imaginárias terminavam de estraçalhá-la, ateando fogo àquela alegria de menina. 

Crônicas da leoa - A demissão do sagui

Boa noite, amigos e amigas! Aguentem as pontas porque ainda faltam alguns meses para Confissões de Laly voltar. Hoje vou apresentar uma crônica, como as que fazem justiça ao título. Para todos os efeitos, Abel Santiago é um personagem de suma importância. Jornalista de grande envergadura, ao ser censurado na televisão, faz um protesto bem-humorado contra o “jornalismo chapa-branca” da emissora. Ele pode até ter sido demitido, mas a admiração do público cresceu.

O que diz um beijo no olho?


"Os cílios dedilhados aceitam a aproximação dos lábios inspirados. Os olhinhos estão fechados, mas as sinestesias estão mais intensas do que nunca. A revolução se dá na direção certa: atingir o coração de quem se ama." 
— Mary  🪻

Cinco anos sem você, vó

Não parecia um autêntico sábado de verão. Mal começou e ficou suspenso num tempo indefinido entre tudo que acabou e tudo que jamais voltará ...