Tive alguns amigos na faculdade que vinham uma vez na vida e outra na prova; mesmo assim, nunca reprovavam, graças ao milagre da assinatura solidária. Mas vou deixar para detalhar esse famoso esquema noutra oportunidade. Hoje, o assunto é a lista de presença como ferramenta de anarquia. Porque, se na faculdade o pessoal assina pelos outros por sobrevivência, em 2003 a gente fazia isso por puro esporte.
Mais odiada do que a segunda-feira, só a velha Carmen, a pior professora de História que já passou pela face da Terra. Ser alvo daquela mulher era o batismo de fogo do Ensino Médio. Ou você a odiava ou não estudava naquele colégio.
Naquele dia, o sargentão de saias faltou, mas deixou tarefa e uma lista de presença. Assinei meu nome direitinho. Não queria mais problemas, nem visitar a sala da Raimunda tantas vezes. Os meninos, por outro lado, foram ligeiros e avacalharam legal, preencheram a folha de caderno frente e verso.
Quando a gente pegava embalagem velha de desodorante e enchia de água na torneira, o fervo começava. Era jato para tudo quanto é lado. A gente se molhava, mas se divertia pra caramba e ninguém escapava das emboscadas no corredor. Aula vaga, nossa turma solta no quintal, um dia mais quente... Ah, era a combinação perfeita!
Os metaleiros estavam coroando o ogro do grupo e uma galera se amontoou para ver os fortões tomando refrigerante no gargalo para disputar quem tinha o arroto mais estrondoso. Não pensem que o concurso era território estritamente masculino. Júlia, com aquela carinha de anjo que parecia viver à base de luz e orvalho, revelou-se uma competidora de peso, mas o prêmio Barney Gumble ficou com o Leitão.
Teve escalada das grades da cancha. Concurso da careta mais medonha. E outras modalidades igualmente sem noção, como os meninos correrem pela fileira para pegar impulso e chutar a parede. Uma, duas, três vezes... e os tontos continuavam fazendo aquele tum-tum-tum como se as estruturas fossem de isopor.
A última aula da sexta-feira era vaga, mas, quando já fazíamos fila para sair da sala, a Raimunda entrou, fechou a porta e declarou:
— Ninguém sai daqui...
— Ahn?! — Todo mundo se perguntava o que havia dado nela.
— Ninguém sai daqui sem dizer quem foi o culpado.
— Culpado do quê? — perguntavam-se todos ao mesmo tempo.
— Quem aprontou sabe do que eu estou falando. Agora, por favor, voltem aos seus lugares, pois teremos uma conversa bem séria...
Alguns espertinhos bem que tentaram dar o fora, mas a diretora ordenou que retornássemos aos nossos lugares.
— O que vocês estão pensando da vida, hein? Andaram regredindo? Que comportamento mais deplorável, vergonhoso, infantil, selvagem, sem noção, não condizente com o comportamento de jovens da idade de vocês, que deveriam estar pensando em trabalhar, no vestibular...
Raimunda apanhou um toco de giz branco e, em vez do tradicional RESPEITO em letras garrafais, transcreveu o conteúdo de uma folha de caderno na lousa.
— O que vocês fizeram é vandalismo e vocês vão ter que pagar... — murmurou ela, suspirando alto a cada nome escrito.
Um olhava para o outro, ainda meio sem entender a piada. Todos aqueles nomes da tal lista de presença da aula da Carmen estavam destacados.
— Quem é Zeca Ganeira?
Silêncio total.
— Eu fiz uma pergunta. Quem é o Zeca Caganeira?
Raimunda, segurando a lista em mãos, podia berrar o quanto quisesse, mas não podia impedir ninguém de rir daquele absurdo. Uma pedagoga do quilate dela, tratando a brincadeira com tanta seriedade que, se não comovia, traçava uma sombra de vergonha alheia naquele acerto de contas patético, para dizer o mínimo.
— Não vi nada de engraçado nisso, mocinha — ela me repreendia por rir alto.
— Desculpa... — eu pretendia dizer, mas o riso não deixou.
Alguns dos nomes escritos na lousa:
H. Romeu Pinto (sim, ela leu!)
Cuca Beludo
Jacinto Leite Aquino Rego
Giuseppe Camole
Benjamín Arrola
Ana Conda
Eudes Penteado
Alan Bida
— Vocês me dão mais incômodo que a turma da quinta série. O que é isso? Os professores vivem reclamando que a turma de vocês é a pior de toda a escola, que vocês não querem nada com nada, têm o pior desempenho da instituição e ainda desonram o nome do colégio cometendo vandalismo?
Respirei fundo porque a barriga já doía por conta da risada e abaixei a cabeça na mochila, torcendo para não urinar nas calças. Júlia falava baixinho para eu pensar em algo bem triste.
— Alguém, por favor, pode me dizer onde está e quem é o K. Godói? — insistiu a diretora.
Não deu para segurar... nem o riso, nem a bexiga. Eu deveria ter contado antes que, quando rio demais, posso molhar as calças.
— A Tita está quase tendo um troço de tanto rir.
— Não tem motivo para rir! — berrou Raimunda.
Ela gritou mais do que uma maritaca irritada, ameaçou dar suspensão para os fanfarrões, mas não passou disso. Daquela vez seria só uma bronca, porque na próxima...
Com o pouco de dignidade, toda mijada, esperei o povo sair para levantar da carteira. Eu só lembrava daqueles trotes que o Bart Simpson passava para o Bar do Moe, sempre algum trocadilho que deixava o homem puto da cara.
Ainda bem que era sexta-feira e eu não precisaria lavar a calça do uniforme em tempo recorde e torcer para secar logo.