Insurgente





Não quero pensar no que será de mim daqui para frente. Os batimentos cardíacos estão voltando ao ritmo habitual. Encontro-me distante do labirinto cinzento e gradeado, o uniforme da despersonalização descansa numa mureta, onde aposento também esse personagem que consente com a própria degradação.
Até nunca mais.
Se pensasse duas vezes, estaria escondida numa cabine qualquer do banheiro feminino, apenas adiando o intolerável. O balde é imenso, mas nunca é bom subestimar a intensidade com que a última gota arrasa o que estiver pela frente. 
Se não havia saída, acabei de encontrar a porta entreaberta, o frio na barriga compensa o "não saber" do meu dia de amanhã. Vi tantos anos se passarem sem sequer me sentir gente, preciso me lembrar que existe algo muito pior do que não realizar um sonho: deixar de lutar por ele em razão do medo ou por acreditar naquela lorota de "não merecer".

Joaninhas e piscinas 🐞

 

Não era uma tarde comum de outono, nem tão quente, mas a piscina da estância estava cheia de gente. Mergulhar de cabeça é parte da aventura para quem escolhe dar as mãos ao medo e descer o tobogã azul em espiral. Passar vergonha encabeça a lista de coisas que deixo de fazer para não ser assunto pelos motivos "errados".

espelho quebrado | o manifesto da dismorfia (2020)

 

Publicado originalmente em 7 de março de 2020, no blog Perguntas, prerrogativas e provocações.

ele nunca foi o algoz

refletiu a representação
sobre a minha pessoa
sem omitir os detalhes
sem filtros de disfarces
por inteiro a me ver

Terças com Tita | A farsa dos 500 anos

 



Isso vai entregar a minha idade, mas não estou nem aí. Parece que foi ontem que eu passava pelo centro da cidade e via aquele relógio de rua que fazia a contagem regressiva para os 500 anos do descobrimento do Brasil. Para quem nasceu depois disso, essas narrativas parecem meio estranhas, pertencentes a outro mundo.

O otimismo quase ingênuo que aquela vibe do ano 2000 trazia era palpável no ar, nos gestos, no sentimento comunitário. Algo muito grandioso estava para acontecer, muito além do nosso modesto entendimento. Essa expectativa só precisava existir para hoje ser palavra — ou muito mais do que palavras.

Coração de leão e sábados preguiçosos



"A culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser" — Homer Simpson 

Tudo começou num dia qualquer, de frente para a televisão de tubo, sem nenhum prenúncio especialmente memorável. Primeiros parágrafos me intimidam, preciso sacudir a cartola de cabeça para baixo na esperança de encontrar algumas ideias razoáveis para não abandonar o texto. Porque é o que acontece quando o medo se torna uma estufa de acrílico e desencoraja riscos, mesmo os calculados. 
Eu teria de reencarnar dezenas de vezes para ser tão inteligente e articulada como a Lisa Simpson é no alto dos seus oito anos, mas a sede de conhecimento é uma constante. Só é sufocante tentar caber em definições tão obtusas; a caixinha não é um lugar legal para se morar. 

Feliz aniversário, Ezi! ✨🎂

 


Que alegria imensa poder comemorar mais um aniversário seu, querida amiga! É sério, parece que foi ontem o seu aniversário passado, que caiu num domingo de Páscoa, e até o retrasado, aquele em que você, a Carolzinha e eu fomos àquela exposição do Monet lá no Mueller, mas cá estamos, um ano de muitos mais que esperamos vê-la celebrar.

A vida adulta pesa consigo. São tantos compromissos, afazeres e prazos que o cansaço responde antes do corpo, porém as verdadeiras amizades não são taças de material frágil, a fortaleza delas é comparável aos troncos dos carvalhos e resistem àquelas fases em que a rotina parece sufocar a criatividade, desbotar as cores e ser cumprida de forma mecânica.

Nossos amigos são esses faróis que nos lembram de quem somos quando a tristeza tenta confundir os sentidos, mesmo quando pensamos estar sós. Cada reunião serve de bálsamo para acalmar o coração a respeito daquilo que não depende somente de nós, recarregar as energias e agradecer pelos momentos em que simplesmente deixamos a seriedade de lado e rir, brincar, sem ouvir as groselhas que a pressa se antecipa em dizer para pesar o clima.

Nunca terminamos um ano do mesmo jeito que começamos. Suas mudanças de visual delimitaram as várias fases de 2025. O resultado fica em segundo plano quando você para e reflete que ao menos você se permitiu mudar, arriscar, não deixou tudo só na promessa, esperando um dia perfeito que pode nunca vir.

Talvez você não sinta isso agora, mas se você olhar para trás, não deixe de sentir orgulho de si pelas inúmeras conquistas. Não abra mão da sua independência por nada, nem por ninguém. Você merece ser feliz e guardar espaço na alma para carregar os seus sonhos, não as críticas alheias, nem os pré-conceitos de ninguém.

Você não é um “tanto faz”, você merece ser amada por alguém que deseje estar ao seu lado, sem desculpas, sem joguinhos. Você merece um brinde no alto de uma cobertura, com alguém que segure na sua mão e veja o fulgor das estrelas no seu olhar, alguém que, ao te abraçar, sinta a responsabilidade de cuidar do seu mundo inteiro. Não aceite menos, nem quando a carência vier com conversinha mole.

Mas hoje o choro só está liberado se for de alegria e emoção. Lute com unhas e dentes pelos seus sonhos, seja uma leoa determinada, seja por você antes de qualquer outra pessoa. Sofrer na vida faz parte, porém, não se torture pelo que não depende de você e tenha a certeza de que o mesmo vento que arrasa tudo que vê pela frente também é aquele abraço gostoso num dia abafado.

Perdoa o textão e se eu viajei muito na maionese tentando “falar bonito”. Não sei me limitar às frases feitas, gosto de não colocar amor em tudo que faço, em cada palavra escolhida e pensada para fazer sentido daqui a muitos anos ou diversas outras versões suas — e não somente neles.

Saúde, alegria, paz, realizações, prosperidade, amor, coragem, determinação… ah, são tantos os pedidos. Que a luz do seu sobrenome te guie a cada escolha e essa mensagem te abrace caso eu não esteja por perto. Obrigada por existir.

Com carinho,

Mary =)

15 de abril | Dia Mundial da Arte


Cada pensador poderá nos apresentar um conceito distinto sobre a percepção de arte nos mais variados tempos históricos, no entanto, este não é um ensaio disposto a aprofundar definições, apenas um convite para celebrarmos o Dia Mundial da Arte, nesta quarta-feira (15). A data foi escolhida por ser o aniversário de Leonardo da Vinci, sem dúvida, um artista multitalentoso, cujas contribuições para a humanidade ainda nos fascinam.

Mas, para além dos gênios de museu, a arte é, sobretudo, a ferramenta que a humanidade encontrou para dar forma ao que não se pode tocar: o sentimento, a dor, o pânico e, por fim, a esperança.

A arte como sobrevivência

Às vezes, pensamos na arte como um luxo, mas para muitos de nós, ela é um item de sobrevivência. É a "tristeza diferente" que a Lisa Simpson expressa no saxofone quando o mundo ao redor parece devolver apenas incompreensão.

A arte está no mural que colore o concreto cinza de Curitiba, mas está principalmente na música que nos salva quando o mundo lá fora está barulhento demais. Está na literatura, onde personagens como encontram o espaço para existir que a realidade insiste em nos negar.

O Sagrado no cotidiano

Neste dia, enaltecemos Da Vinci, que unia ciência e estética com perfeição. Entretanto, eu convido você a olhar para os artistas invisíveis:

Aquele que escreve poesias na gaveta para não esquecer quem é.

O autor independente que luta contra o bloqueio criativo e o calor do dia a dia para publicar na Amazon.

Quem transforma o caos doméstico em crônica para não deixar a alma murchar.

Para mim, escrever é o meu território soberano, com suas Perguntas, prerrogativas e provocações. É o lugar onde o barulho alheio não entra e onde eu mando e desmando no tempo. Escrever vai além de um simples ofício, significa proteger um espaço sagrado onde o grito do mundo não pode me alcançar.

O Convite

A perfeição é uma utopia da arte; acima de tudo, ela precisa de verdade. Por isso, deixo uma provocação: qual foi a última vez que você se permitiu criar algo sem o peso do julgamento alheio?

Hoje, tente algo novo. Rabisque um papel, escreva um verso, ouça uma música que te transporte para longe. Deixe a arte ser o bálsamo para os seus dias tensos. No fim das contas, se a realidade é estreita, a arte é o que nos permite respirar.


Insurgente

Não quero pensar no que será de mim daqui para frente. Os batimentos cardíacos estão voltando ao ritmo habitual. Encontro-me distante do lab...