Já fui hater do Carnaval a ponto de passar mal quando essa época do ano chegava, mas minha percepção modificou-se completamente depois da pandemia. Naquele fevereiro de 2021, cheio de restrições sanitárias e algum rastro de esperança com a chegada das vacinas, senti falta da “normalidade” de antes, de ver as pessoas se divertindo, usando só as máscaras coloridas para entrar na folia, não aquela que escondia o sorriso da gente.
Depois disso, nunca mais falei mal do Carnaval. Não me tornei a maior adoradora desse evento, confesso, no entanto, tento aproveitar o feriado, seja trabalhando, cuidando da casa, saindo com os amigos, me distraindo… e os quatro dias passam tão depressa que, quando dou por mim, já estou na Quarta-feira de Cinzas e pensando no próximo feriado.
Gostar ou não é uma questão mais pessoal, mas é importante que os argumentos sejam fundamentados com respeito e decência. Quem gosta de bloquinhos deve ir a bloquinhos e só não ir se não tiver e se não quiser; quem gosta dos desfiles das escolas de samba que assista, quem prefere trio elétrico e micareta, idem; quem prefere retirar-se e tratar como um momento de reflexão, retire-se.
Se o seu bloquinho é de quem maratona série de pijama, saia para a avenida da alegria e seja feliz, não deixe que ninguém invalide a sua diversão se ela não prejudica ninguém.
O Carnaval fala de liberdade. De ser quem somos. De aceitar e abraçar quem queremos ser. Isso é viver.
Agora, um recado: já está fora de moda há muito tempo esse negócio de ficar enchendo o saco na internet para ganhar biscoito. Já tem muita intolerância no mundo, nem sempre sou obrigada a opinar sobre tudo de tudo, mas não contem comigo para propagar discórdia e baixaria a troco de nada.
Quando eu era adolescente, tinha aquela liberdade poética para falar groselhas e esbravejar, contudo, agora sou uma mulher feita. Espera-se que eu já tenha desenvolvido a capacidade de gerenciar certas emoções mais “primitivas” e saiba conduzir uma discussão na condição de uma pessoa disposta a ouvir ambos ou mais lados da questão no lugar de impor meu ponto de vista como uma verdade inquestionável.
Às vezes, sinto que o mundo exige que tenhamos um veredito instantâneo sobre tudo. Mas aprendi que não saber, ou não ter uma opinião formada, não é sinal de ignorância — é sinal de respeito pelo tempo das coisas. Hoje, prefiro o silêncio da observação à pressa do julgamento. E está tudo bem não ser a “dona da verdade”; ser dona da própria trajetória já dá trabalho suficiente.

