"Se olharmos para esse cenário desolador, a maior lição que fica é justamente o valor de proteger a dignidade humana. O maior bem-estar e a maior utilidade que podemos extrair ao entrar em contato com essas dores do passado é usar essa indignação como combustível para blindar o nosso presente contra qualquer intolerância. A memória dessas injustiças serve para que a gente nunca se esqueça de valorizar a vida, a liberdade e o respeito mútuo. Transformar esse ódio pelo que aconteceu em uma determinação firme de espalhar empatia e justiça no mundo de hoje é a melhor forma de gerar o máximo de bem coletivo."
Devo estar a alguns passos de me tornar rabugenta, mas... não me importo. Ou eu morri por dentro, ou estou exigente demais. Faço-me essas indagações sem nenhuma certeza de resposta, porque é bem provável que eu não a encontre.
Geralmente, o Mary Recomenda não indica livros os quais eu não tenha gostado ou pelo menos aproveitado algo de bom neles. Foi movida por esse interesse que iniciei a leitura de Beleza oculta, da saudosa Lucinda Riley.
Esta obra foi publicada originalmente em 1993, quando Lucinda ainda assinava "Edmonds". Muitos anos se passaram, ela faleceu precocemente, e Harry Whittaker, filho dela e mantenedor do legado, publicou o romance com revisões e algumas atualizações.
Por se tratar daquela que já foi uma das minhas autoras favoritas, deixei-a passar na frente de outras leituras e admito que num primeiro momento a narrativa me envolveu bastante, muito embora tenha seguido caminhos bem distintos do que o esperado.
As histórias da Lucinda Riley são intrincadas de segredos familiares que ultrapassam gerações, contextualizando com fatos históricos que afetam as decisões e os destinos dos personagens, tanto no passado quanto no presente. Sem dúvidas, é a característica mais marcante dessa autora.
Recentemente, li Minha amiga Anne Frank, cujo depoimento de Hannah Pick-Goslar me comoveu muito e trouxe uma perspectiva muito dolorosa do martírio que os judeus sofreram nos campos de extermínio, a crueldade em seu estado mais bruto. Em Beleza oculta, somos conduzidos para a Polônia dos anos 1930, onde os pais de David e Rosa Delanski vivem antes da Segunda Guerra.
Tudo mudou em 1⁰ de setembro de 1939, quando o exército alemão invadiu o território polonês. Duas semanas depois, a União Soviética enviou tropas para o leste do país,entrando na disputa por Varsóvia com os nazistas.
O Castelo Real de Varsóvia foi queimado, a Estação Ferroviária Central ficou irreconhecível e o governo polonês exilou-se em Paris. Já em 1940, o então governador-geral, Hans Frank, ordenou que os judeus de Varsóvia fossem isolados ao norte
Já se falava sobre o horror contra os judeus e a "política de evacuação". Esses "guetos" ficaram superlotados, o que culminou na falta de alimentos — muita gente ou literalmente morria de fome, ou gastava o pouco que tinha apelando para o comércio ilegal, que se prevalecia da situação e cobrava preços absurdos.
David e Rosa foram mandados para Treblinka e testemunharam uma verdadeira carnificina, o sadismo incontestável dos nazistas, a profunda indiferença pela vida humana, a falta de empatia num patamar assustador. Não tem inocência que sobreviva nessas circunstâncias, nem otimismo que perdure quando se está a poucos passos da morte.
Lucinda Riley sempre se debruçou em pesquisas para ambientar as narrativas dela — em algumas obras, como A Rosa da Meia Noite, temos a bibliografia para quem quiser se aprofundar na cultura indiana e em como era aquele país quando ainda era colônia britânica.
Insurreição em Treblinka
Treblinka não era apenas um campo de concentração (onde os prisioneiros trabalhavam), mas um campo de extermínio, projetado exclusivamente para aniquilar o maior número de pessoas no menor tempo possível. As condições eram tão precárias que muito poucos sobreviviam mais do que algumas horas após o desembarque de trens.
Porém, um grupo de prisioneiros judeus que eram mantidos vivos temporariamente para realizar os trabalhos forçados (o chamado Sonderkommando) organizou um comitê secreto de resistência. Durante meses, eles planejaram o impossível.
O plano consistia em roubar armas do arsenal dos guardas alemães usando uma chave moldada secretamente, cortar as linhas de telefone, incendiar o campo e abrir os portões para que todos pudessem correr para as florestas.
Foi na tarde de 2 de agosto de 1943, uma quente segunda-feira de verão, que os prisioneiros conseguiram incendiar vários prédios, explodiram um tanque de gasolina e atacaram os guardas com granadas e rifles roubados.
Dos cerca de 850 prisioneiros que tentaram a fuga naquele dia, apenas cerca de 300 conseguiram cruzar os portões e as cercas sob uma chuva de balas de metralhadora. A maioria foi caçada e morta nos dias seguintes pelas tropas nazistas na floresta polonesa. Estima-se que apenas cerca de 60 a 70 pessoas que fugiram de Treblinka naquele dia sobreviveram até o final da guerra. O campo foi tão destruído pela revolta que os nazistas resolveram desativá-lo e plantar fazendas por cima para esconder os crimes.
As sequelas
David e Rosa contrariaram todas as expectativas e sobreviveram, mas não totalmente ilesos do sofrimento. Órfãos e completamente sozinhos no mundo, só tinham um ao outro e o desejo de deixar o passado sombrio para trás, pelo menos dentro do possível, se o passado não continuasse à espreita.
Para não arruinar a experiência de ninguém que ainda pretenda ler, no "presente" da história temos Leah, a jovem e doce camponesa descrita com uma beleza extraordinária, que é descoberta por uma agência de modelos e em poucos anos se torna uma supermodelo internacional, rica e bem-sucedida. Entretanto, o mundo da moda parece guardar segredos obscuros que nos fazem questionar até onde algumas pessoas podem ir em busca de fama, de manter a própria relevância e até a que ponto são capazes de se sacrificar.
Gatilhos indigestos
Eu não gostaria de expor minha vida pessoal porque não é o foco do OCDM, nem tampouco desta indicação, mas para alguém que já sofreu abusos, a leitura pode acionar gatilhos pesados, mesmo que a intenção do livro tenha sido expor uma questão que é tabu, a Síndrome de Estocolmo. Logo, se você já sofreu estupro ou mesmo teve um relacionamento traumático onde claramente havia uma hierarquia de poder, não recomendo.
O desenvolvimento de alguns personagens ficou aquém das expectativas, especialmente se pensarmos que ficaram algumas pontas soltas. Foi por causa dessa discordância ferrenha com o desfecho que me vi questionando se estou morta por dentro ou se romances são previsíveis demais a ponto de parecerem forçados.
O casal principal me pareceu forçado, não consegui torcer por eles, até porque a Leah parecia linda demais, perfeita demais, bondosa demais; boa parte dos personagens masculinos eram apaixonados pela beleza etérea dela, que ofuscava outras mulheres e podia se entupir de batata frita e Coca-Cola e não engordava nem um mísero grama. Não tenho e nunca tive paciência com essa chatice.
Não é que eu não goste de histórias de amor. É claro que meu coração fica aquecido quando vejo duas pessoas felizes, aquele brilho no olhar, mas todos os personagens desses tipos de livros são sempre muito lindos, com pernas longilíneas, olhos azuis, cabelos claros e muitos milhões na conta, então prefiro algo mais realista, que me dê esperança de verdade.
E não foi o caso.
A quem interessar possa, tem outros livros mais interessantes que abordam a temática do Holocausto, como não me canso de recomendar O diario de Anne Frank, A menina que roubava livros e muitos outros.
Espero voltar em breve com uma recomendação mais positiva e edificante.