A maioria dos meus dias é comum. Sigo a rotina no “piloto automático”, às vezes nem paro para prestar atenção no céu, na constante batalha para não ser engolida pelos compromissos. E à meia-noite a contagem regressiva é zerada… e por consideráveis décadas o que muda é a disposição, que vai diminuindo quando o peso da idade é mais do que uma piadinha para quebrar silêncios.
Alguns dias a gente gostaria de suplicar ao tempo que passe mais devagarinho. Em outros, porém, a gente gostaria de arrancar do livro da vida. Vivemos ambos, mas nunca estamos verdadeiramente preparados para eles. 2 de março de 1996 é esse capítulo rasgado na minha história pessoal, mas também na de muitas outras pessoas.
Era mais um daqueles domingos em que eu pousava na casa do meu pai. Nossa relação estava um pouco difícil agora que ele havia assumido namoro com Helena e eu tinha de dividir a atenção com ela. Mesmo assim, passar o fim de semana ao lado dele era melhor do que estar em casa, aguentando o mau humor crônico da minha mãe.
Naquela madrugada de sábado para domingo, meu pai ainda estava alegre com a vitória acachapante da nossa seleção contra a Venezuela, pelo Torneio Pré-Olímpico para Atlanta. Ele adora (até hoje) acompanhar qualquer modalidade esportiva, não importa a hora. Quando tinha boxe, madrugava, idem com o basquete. Olimpíadas eram sagradas, Copa do Mundo, o santo graal.
O 5 a 0 da noite anterior ainda ecoava na sala. Papai me deu uma fita dos Mamonas e eu a escondia bem; era um tesouro proibido que eu só ouvia no carro dele ou quando estava pousando na casa dele. A sós, ele imitava o Dinho e me fazia rir. Félix gostava de ouvir a minha risada, e aquele era o nosso código secreto contra o silêncio imposto pela Meire.
Quando a terceira série começou, um detalhe igualou aquela turma: todas as crianças gostavam de Mamonas Assassinas. Desde a Cássia Reis até o saco de pancadas ambulante que eu era. Do educandário até o sobrado com suíte. A cada ida ao Programa do Rubão, o sucesso era tamanho que pediam bis e na plateia ninguém ficava parado. Até o tímido Uirapuru, assistente do comunicador, dançava descompassado e descoordenado, todo encurvado. Era alegria pura.
Dormi no sofá, acordei no quarto. Fazia um friozinho naquela manhã e o cheirinho de café passado me convidou a cruzar o corredor. Mas o som que veio da sala não era a risada do meu pai imitando o Dinho…
Tan-tan-tan-tan!
Estava tocando a vinheta do Boletim Extraordinário. Eu tremia da cabeça aos pés. Naquela época, a gente aprendia cedo: ninguém interrompia a programação normal para dar boas notícias (salvo raras exceções que não vinham ao caso). O BE era o arauto da desgraça, um intruso que chutava a porta da nossa sala sem pedir licença.
Cheguei à sala e vi o vulto de Félix Linhares parado diante da TV. A caneca de café na mão, esquecida, fumegando um vapor que se misturava à luz azulada da tela. O entusiasmo da noite anterior, daquela vitória acachapante de 5 a 0, tinha evaporado. No lugar dos gols, imagens granuladas de uma serra coberta de neblina.
— Caiu um avião? — perguntei.
— Senta aí, filha!
Sentei-me no sofá, me preparando para outra tarde fatídica na companhia de Helena, não para o que estava por vir. Eu já a amaldiçoava em pensamento, culpando a presença dela por qualquer mal-estar que pairasse na sala, quando aquelas palavras me acertaram em cheio:
— Os Mamonas Assassinas morreram!
— Mentira! — Disparei.
Minha voz saiu mais alta que o barulho da TV. No meu mundo de oito anos, ídolos eram de borracha, eram feitos da mesma matéria indestrutível dos heróis da Marvel ou dos craques que meu pai idolatrava. Eles não podiam sumir. Não no auge da carreira. Não quando ainda tinham tanta alegria para oferecer ao mundo. O personagem na novela morria, mas o ator estava vivinho da silva.
Félix segurou meus ombros. O toque dele era firme, mas os olhos… os olhos dele, que costumavam brilhar quando o Flamengo entrava em campo, estavam opacos. Ele contou o que havia acontecido, as palavras saindo devagar, como se estivesse narrando uma derrota inaceitável. Na tevê, imagens de destroços se misturavam a clipes coloridos de Brasília amarela.
Uma repórter — cujo nome o tempo apagou, mas cuja voz grave ainda ecoa nos meus pesadelos — narrava a trajetória meteórica do grupo. Contra fatos não havia argumentos. A Brasília havia batido na montanha.
Naquela manhã, o café esfriou na mão do meu pai e o “piloto automático” da minha infância tinha sofrido uma pane definitiva. Eu ainda não sabia, mas aquele era o último dia em que eu acreditaria que a alegria era um território seguro.
Como era de se esperar de Meire, ela desceu a lenha na imprensa. Não se mostrava nem um pouco afetada pela tragédia que tocava outros pais e que era o único assunto de todos os noticiários. Para ela, o luto nacional era uma “histeria coletiva”, uma perda de tempo que atrapalhava a ordem prática das coisas. O desprezo dela era o gelo que eu precisava engolir antes de sair de casa.
A segunda-feira amanheceu tipicamente curitibana: fria, nublada e chorosa. O céu parecia mimetizar o rosto de cada criança (e de muitos adultos) que cruzava o portão da escola.
A Prof.ª Dulce estava de licença, e em seu lugar surgiu a Prof.ª Rosângela, uma mulher pequena, magricela, com óculos de armação e roupas estampadas que contrastavam com o cinza lá fora. Ela tinha algo que Meire jamais compreenderia: traquejo emocional. Percebeu, logo no primeiro sinal, que o clima de chororô era infinitamente maior do que a disposição para aprender matemática. As frações podiam esperar; a dor, não.
— Vamos fazer um círculo aqui no chão, ela disse, com uma voz que não pedia ordem, mas oferecia abrigo.
Nós nos sentamos ao redor dela. Ali, no chão frio da sala, a Prof.ª Rosângela deu colo para quem precisava e palavras para quem não as tinha. Ela nos disse que chorar era normal, aceitável e que fazia parte de viver tanto quanto a morte.
Naquele momento, enquanto eu via meus colegas soluçando e sentia o peso da perda dos Mamonas, entendi o que era a verdadeira sobrevivência. Não era o endurecimento cínico da minha mãe, nem o entusiasmo ferido do meu pai. Era aquele círculo. Era saber que, mesmo quando os aviões caem e os ídolos morrem, a gente ainda pode sentar no chão e segurar a mão de alguém.
A matemática ficou para depois. Naquela segunda-feira, a aula foi sobre como não deixar o coração morrer enquanto a gente ainda está vivo.
Trinta anos depois, no chão da sala, entre memórias, reflito sobre esses dias que gostaria de arrancar do livro da vida e os sonhos que precisei deixar para trás em algum momento da caminhada. Mesmo assim, meus sonhos ainda procuram por mim, mesmo quando o “meu antigo eu” — aquele que acreditava na invencibilidade da alegria e em finais felizes — tivesse morrido na Serra da Cantareira com os meus ídolos ou, anos depois, na estrada de Alexandra.
Os jovens de Guarulhos viveram muito pouco, fato incontestável, mas não caíram no esquecimento. As músicas foram a herança deixada para aqueles que precisam de um farol para acreditar nos (e lutar pelos) sonhos mais loucos. Confabular o que teria acontecido com eles se aquele acidente jamais tivesse acontecido é quase como reescrever uma história banida do livro da vida.
No entanto, ao contrário dos livros que escrevo, o livro da vida pode ser um sacana e terminar a história “sem mais nem menos”. Esse “não saber” pode ser o tempero que precisamos para fazer algo mais do que viver no “piloto automático”. Temos contas a pagar, mas ainda temos um impossível para desafiar.

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