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| Capa da edição brasileira de Minha amiga Anne Frank, publicado pela Buzz Editora |
Livros necessários nem sempre são fáceis de serem digeridos, sobretudo quando eles nos mostram uma realidade dura, penosa e inimaginável para nós, uma história que não devemos nos esquecer para não repeti-la. O Mary Recomenda de hoje é dedicado a discorrer sobre Minha amiga Anne Frank, de Hanna Pick-Goslar, a querida Hanneli, mencionada no diário de Anne Frank.
Mesmo sabendo que vou ficar destruída porque não há como mudar o final da história, tudo que eu possa saber sobre a família Frank me interessa. Esta obra nos apresenta não apenas a eles sob uma perspectiva diferente, mas também à outra família, os Goslar, cujo brio é inquestionável.
Hanneli ambienta o depoimento onde tudo começou, na Berlim da República de Weimar (1919-1933), quando seus pais, Hans Goslar e Ruth Klee se conheceram. Eles pertenciam à elite intelectual alemã, acreditavam nos ideais democráticos e amavam profundamente aquele lugar.
Entretanto, com a ascensão de Hitler ao poder, Hans perdeu o emprego no governo e as Leis de Nuremberg (1935) caçaram os direitos dos cidadãos judeus, tornando-os apátridas. Professores foram demitidos, comerciantes tiveram seus estabelecimentos fechados, atores banidos dos palcos, até casamentos interraciais passaram a ser ilegais.
Hans e Ruth, cientes de que a situação só iria piorar, mudaram-se de Berlim para Amsterdã, considerada um país neutro e pacífico naquela época. Foi nessa cidade que os destinos dos Frank e dos Goslar se cruzaram e teve início uma bela e duradoura amizade.
Hannah nos transporta para aqueles anos anteriores à Segunda Guerra, para a infância dela e da Anne Frank, quando nem lhes ocorria que tantas tragédias ocorreriam. Para as meninas foi mais "fácil" se adaptar porque elas venceram a barreira do idioma e se integraram na escola, levavam uma vida comum, enquanto, não tão longe dali, a situação dos judeus em solos alemães só se deteriorava.
"Na escola, Anne ainda era um furacão com energia infinita, que sempre encontrava maneiras criativas de conseguir atenção, incluindo exibir um de seus truques — desencaixar o ombro. Mas havia um lugar no qual ela não queria atenção: qualquer pessoa lendo o que escrevia. Nos intervalos, ela carregava um caderno por toda parte, anotando histórias ou pensamentos que só ela podia ter. Recusava-se a mostrar a qualquer pessoa o que estivesse escrevendo, até mesmo a mim, segurando o caderno junto ao peito se alguém se aproximasse. Os adultos normalmente pareciam ficar impressionados, meio incomodados com ela."
As políticas de imigração nos Países Baixos eram restritas porque a estadia dos judeus-alemães era para ser "temporária". Foi em 10 de maio de 1940 que o terror ficou mais palpável para os Frank, os Goslar e tantas outras famílias judias que viviam em Amsterdã: a Alemanha invadiu a Holanda, que se rendeu em cinco dias.
"Não havia maneira de sair da Holanda. Não para os Frank, nem para nós. Nem para nenhum dos nossos amigos e vizinhos judeus."
Nesse mesmo ano de 1940, um pequeno alento enterneceu os corações dos Goslar: a pequena Gabi chegou ao mundo no outono.
De fato, até o final de 1941, a Alemanha parecia invencível na Europa, até o ataque do Japão à base aérea de Pearl Harbor, que marcou a entrada dos Estados Unidos na guerra, trazendo toneladas de tanques, aviões, alimentos e soldados. A partir desse ponto, sim, o conflito tornou-se "mundial".
Os judeus-alemães que viviam na Holanda já sentiam o peso das restrições severas contra seus conhecidos, amigos e vizinhos, muitos sendo mandados para os temidos campos de concentração, prática que foi se intensificando a partir de 1942, justamente no ponto em que começa o diário da Anne Frank.
Num primeiro momento, quando a família Frank repentinamente desapareceu, Hanneli acreditava de todo o coração que a melhor amiga havia conseguido partir para a Suíça. E, como a personagem principal deste livro nos conta, foram tempos sombrios, em que não se estava segura em parte alguma; respirava-se o medo, o desespero e a incerteza.
"Ficar escondido não era só uma proposta perigosa, era caro também. E, para famílias com crianças, normalmente significava separar a família em mais de um esconderijo — um dilema impossível. Para sequer considerar fazer isso, era preciso ter sorte o bastante para conhecer alguém que pudesse esconder você, mas também dinheiro suficiente para cobrir despesas com alimentação. Na minha família, não tínhamos conexões com holandeses não judeus que pudessem nos ajudar, tampouco reservas financeiras."
Marcada também por grandes perdas pessoais, Hanneli precisou amadurecer muito antes do que imaginava para ser o porto-seguro da pequena irmã e sobreviver ao verdadeiro inferno na terra. A primeira parada foi Westerbork, estabelecido originalmente pelos holandeses antes da ocupação alemã como um centro de detenção para refugiados judeus vindos da Alemanha que tivessem cruzado a fronteira para os Países Baixos após o episódio conhecido como Noite dos Cristais. Em julho de 1942, os alemães assumiram o controle do campo, que era uma "transição" para quem seria mandado para a Polônia.
Toda segunda-feira saía a "lista" com os nomes que seriam enviados para os campos de trabalho nos vagões de gado, sob condições precárias. Uma enorme tensão se abatia sobre todos os prisioneiros; quem era "sorteado" não tinha escolha.
Hanneli e Gabi foram mandadas para Bergen-Belsen, onde testemunharam um cenário catastrófico da degradação humana que, provavelmente, teria modificado (e muito!) a percepção da Anne Frank sobre a "bondade das pessoas". A morte era co-protagonista naquele barracão triste, onde tantos corpos ocupavam o mesmo espaço e padeciam, sem forças para esperar e sonhar com a liberdade, com dias melhores.
Mesmo num purgatório com cercas de arame farpado, a bondade e a empatia existem. E as verdadeiras amizades desafiam as fronteiras impostas por monstros opressores. É muito difícil não ir às lágrimas ao ver a Anne Frank destruída, abatida pelo tifo, sozinha no mundo, a menina expansiva e sonhadora, com tanto talento e potencial, ser enterrada praticamente como uma indigente. E, com ela, os sonhos de menina que ficaram para trás, a inocência perdida.
Anne Frank é uma das seis milhões de vidas que o nazismo ceifou; porém, Hanneli, contrariando todas as possibilidades — e que não foram poucas, já que ela ficou muito perto da morte —, resistiu às tormentas e provações, tendo na fé um alicerce quando parecia improvável acreditar que tudo aquilo teria um fim. E é por essa razão que precisamos ler, para que ninguém nunca mais precise passar por tudo que essas pessoas passaram, porque a História já nos mostrou que as consequências do extremismo podem ser (e geralmente são) catastróficas.

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