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Terças com Tita | A farsa dos 500 anos

 



Isso vai entregar a minha idade, mas não estou nem aí. Parece que foi ontem que eu passava pelo centro da cidade e via aquele relógio de rua que fazia a contagem regressiva para os 500 anos do descobrimento do Brasil. Para quem nasceu depois disso, essas narrativas parecem meio estranhas, pertencentes a outro mundo.

O otimismo quase ingênuo que aquela vibe do ano 2000 trazia era palpável no ar, nos gestos, no sentimento comunitário. Algo muito grandioso estava para acontecer, muito além do nosso modesto entendimento. Essa expectativa só precisava existir para hoje ser palavra — ou muito mais do que palavras.

Terças com Tita | O refresco do algoritmo

 

Sabe por que o mundo se tornou tão careta?

Porque foi o preço a ser pago para entrar na caixinha, apesar de sempre termos escutado aquela máxima sobre pensar fora dela, ousar, abraçar a coragem, celebrar as diferenças e saber quando e como discordar. Uma leitura maniqueísta e tendenciosa poderia incorrer numa captura de tela distorcida e replicada à exaustão, colocando na minha boca palavras que eu nunca falei, ignorando o contexto e o chamado à autocrítica que tanto faz bem à sociedade e nunca cai de moda.

Terças com Tita | Simplesmente Tita, simplesmente emo

 

Quis ser muitas coisas nesta vida. Entre elas, ser cantora e líder de uma banda de rock. Como desafino cantando até "Parabéns a você", tentei escrever boas letras, as quais admito serem melhores do que muita coisa que toca nos top 50 dos aplicativos de streaming musical, mas isso é conversa para outro dia. 

Nunca consegui reunir pessoas suficientes para formar um grupo musical, como também nunca fundei um clubinho lá na tenra infância, porém, a inteligência artificial me permitiu realizar esse desejo de ver minhas letras transformadas em canções. 

Terças com Tita | Quem roubou pão na casa do João?

"O Miguel roubou pão na casa do João (2x)
Se não foi você, então quem foi?

O Bernardo roubou pão na casa do João (2x)
Se não foi você, então quem foi?

(e os versos são repetidos por 44 vezes — ou até o fim da excursão ou, em último caso, até o motorista abandonar o posto)" 

Exageros à parte, quem já participou de uma excursão escolar lembra que reunir a criançada é sinônimo de cantoria, batucada e adultos irritados até chegar ao destino. 

Mudam os celulares, os ônibus e as mochilas, mas a cantoria continua a mesma. Criança é uma espécie que atravessa gerações intacta.

Ouvi uma cantoria dentro de casa e, por desencargo de consciência, fui dar uma olhadinha na janela. Dei de cara com aquele ônibus da prefeitura apinhado de criança fazendo fervo com aquela musiquinha que a galera cantava na minha época.

Miguel disse não ter roubado o pão na casa do João; o Bernardo também não. O sinal ficou verde, o ônibus dobrou a esquina e eu fiquei sem saber se essa parte da musiquinha também foi cantada:

Não sabe, não sabe,
vai ter que aprender.
Orelha de burro,
cabeça de ET…

Quando eu digo ‘na minha época’, já me imagino virando o Abe Simpson sentado debaixo do limoeiro, contando histórias para as crianças... ou muitos leitores podem pensar que eu nasci "dez mil anos atrás". Brincadeiras à parte, "o tempo passou e eu sofri calado, não deu pra tirar ela do pensamento"... Vai falar sério ou não vai, Tita? 

Quando relembro minha vida de menina, pareço viajar para outro mundo, onde volto a me ver sentada em algum canto pertinho da janela, só observando os colegas cantarem e a inspetora Jane, colérica, intervir de cinco em cinco minutos, iludida de que sua gritaria surtiria algum efeito.

Ou o motorista tinha uma paciência de longe tibetana, ou já havia desenvolvido certa tolerância à algazarra porque a Jane, ah, aquela lá não via a hora de que a gente crescesse, muito embora todo ano viesse uma turma novinha em folha e disposta a honrar esse legado passado de geração para geração como que instintivamente.

Um belo dia (ou não tão belo assim, culpa da enxaqueca), a gente também experimenta o papel da Jane. A gente refuta tudo que soa "infantil" para sustentar um simulacro de maturidade, enterrando a autenticidade em troca de uma máscara social "aceitável".

Esse dia chega para todos, mas, depois de certa idade, a gente se cansa de carregar o peso dessas máscaras e precisa fazer as pazes com aquela criança sapeca cantando alto na excursão. A vida pede um pouco dessa leveza.

Alguns de nós deixam a amargura tomar as rédeas e refutam as próprias raízes. Querem que crianças sejam "miniadultos" e criam uma versão idealizada do próprio passado, mas sentir medo do bicho-papão, cantarolar no ônibus e fazer um milhão de perguntas está no roteiro. Criança tem que brincar, voar com as asas emprestadas pela imaginação, só se preocupando mesmo em não pegar recuperação nem tirar nota vermelha.

A gente vai ter muito tempo (e muitos motivos) para reclamar...



Terças com Tita | O dia em que achei que tinha escrito um clássico

 

Ah, a pretensão juvenil. Mudar o mundo, uma missão quase messiânica. Sou a mensageira da sociedade. Pare e preste atenção na minha arte. 




Tenho mais fases do que a Lua. Era uma das inúmeras comunidades nas quais eu participava no tempo do Orkut. Sinto já ter escrito algo nessa mesma linha, mas precisava de um ponto de partida. No fundo, escrever é um método mais sofisticado de viajar na maionese e cai como uma luva para recordar aquela época da vida em que mudar o mundo é o sacerdócio da jovem e soberba alma.

Senta que lá vem a história, mas não é aquela do Rá Tim Bum. Seria melhor se fosse, insisto. Os leitores mais jovens provavelmente não entenderão a referência — e não tem problema; eu também não manjo das gírias dos tempos dos meus pais e está tudo bem. Porque o que vai sair daqui é um arremedo de escrevinhadora da mais reles estirpe, inclinada a encher linguiça porque não gosto de poupar palavras, a menos que o dever me obrigue.

Escrever diários sempre foi um hábito essencial e inquebrável desde a infância, mesmo precisando armar um esquema de guerra para proteger a integridade dos cacarecos dos olhos de coruja que mantinham o DOPS familiar mais vivo do que nunca.

Com 16 primaveras e milhares de registros, tive uma epifania durante uma sessão de terapia. O psicólogo fez as perguntas de um milhão de dólares e eu só na defensiva, tentando mudar de assunto, porque não queria tocar em certas feridas. Ele não se intimidou nem com meu ataque de choro, que não demorou a vir.

Eu não precisava falar nada se não quisesse. O silêncio também tinha seu simbolismo, tanto quanto aquelas lágrimas que os lenços de papel não deram conta de estancar. Parecia patético chorar por “dó de mim mesma”, mas eu já falava como se estivesse no corredor da morte, com as oportunidades zeradas, esgotadas, apenas no aguardo da execução.

Por muitos anos, palavras foram munições nas bocas daqueles que sentiam prazer em me causar dor. Os rastros permaneceram no ar, na alma, reverberando ainda hoje naquele pensamento grudento sobre incapacidade. A psicologia chama esse comportamento de síndrome da impostora.

O psicólogo me deu uma "lição de casa" e eu quase pensei em não fazer, muito embora essa mentira fosse só uma cortina de fumaça para encobrir aquele anseio juvenil de ser ouvida. Abrir o documento em branco deveria contar como tentativa, mas não bastaria. Arrisquei algumas palavras e apaguei tudo com a rapidez de um temporal.

Levantei-me da cadeira, fui olhar pela janela, coloquei uma música para tocar, voltei e pensei em perguntar se todos os escritores do passado tinham problemas para começar a joça do texto. Havia horas que eu estava naquela lenga-lenga e não saía uma só frase, nem um parágrafo todo truncado e desconexo para eu rir de mim mesma na posteridade. Eles faziam parecer tudo tão fácil.

Cricri dormia todo esparramado em cima da cama, barriguinha para cima, tão lindinho. Aquele sono pesado e despreocupado era de quem não se ocupava de pensar no passado nem no futuro. Choramingava quando tinha um pesadelo, abanava o rabinho quando tinha um sonho bom. Não se importava se os pinschers eram mais esguios, nem por que um labrador tinha o dobro do tamanho dele, nem se algum yorkshire de madame ostentava um guarda-roupa cheio de roupinhas e uma extensa coleção de brinquedos. Sentia prazer com coisinhas tão simples como furtar pão da mesa, morder calçados, latir nas horas mais inapropriadas e praticamente me enxotar da minha própria cama para ficar com o maior espaço.

Meu sonho sempre foi ter um cachorrinho. E eu realizei. Agora, que outros sonhos tenho para colocar no lugar?



Eu também sonhei em ter uma melhor amiga, ser mocinha do tempo e passar as férias em outro planeta. Fiquei por um triz de ser levada pela morte, mas escolhi a vida e ela me escolheu também. Estando naquela fase de querer mudar o mundo, uma coisa levou à outra... e o que era para ser só um "dever de casa" para o psicólogo se tornou questão de honra.

O mundo precisava conhecer a minha história.

Fonte Comic Sans, tamanho 14, cor fúcsia e muitas boas intenções. A joça não tinha nome e eu ia contando a história da minha vida até o presente momento. Parecia vida pra caramba e o tempo para contar tudo, quase insuficiente. Essa dedicação ostensiva rendeu frutos, ou melhor, mais de 400 páginas.

Era de madrugada e não dava para eu abrir a janela e sair gritando que terminei um livro…

Não um livro qualquer… era o livro da minha vida.

Foi inevitável não rir de nervoso quando vi aquele meme do Derp rabiscando aleatoriedades no Paint e olhando orgulhoso para a tela como se fosse o próprio Picasso contemporâneo. Gastei uma nota imprimindo aquele calhamaço cujo texto nem sequer estava justificado, imaginando que a Academia Brasileira de Letras ainda me coroaria com uma cadeira.

Júlia disse que eu escrevia melhor do que o Machado de Assis, mas foi só para me motivar. Ele sempre foi o "cara" para mim. Se algum dia eu escrevesse sobre a natureza humana com tanta riqueza de detalhes e criasse personagens memoráveis que ultrapassassem gerações, seria uma honra.

— Como vai ser o nome do livro? — Quis saber a Júlia.
— Eu… não sei.
— Você não pensou em nenhum nome?
Tita. Por mim mesma.
— Você está tirando onda? — Júlia me encarou, séria.
— Não gostou?
— Não...
— Esse negócio de inventar título é um problema. Já pensei em vários, mas não gosto de nenhum.

Simplesmente Tita, dentre todos os títulos pensados, foi o que mais agradou. Parecia até nome de novela mexicana antiga, daquelas que a gente ama e revê milhões de vezes: com uma protagonista sofredora, que se lasca do primeiro ao último capítulo, e a promessa de um final feliz.

Concluir o primeiro livro deveria ser o final da história, certo?

Errado, muito errado.

A primeira versão difere do rascunho por deixar o anonimato. E tão somente. Ela foi o primeiro passo de uma jornada interminável de releituras, revisões, reedições, reescritas e polimento.

O perfeccionismo também pesa a mão de vez em quando, mas um dia eu hei de driblar essa tal impostora que habita em mim e publicar essa história, nem que seja para meu eu da terceira idade cair na gargalhada.

O sentimento de ter dado com o pé na porta do sistema, chocado a sociedade e abalado as estruturas da família tradicional brasileira (atenção: contém ironia!) me levava às nuvens. Como a menina prodigiosa que, no meu íntimo, eu queria ser conhecida e validada.

Querer nem sempre é poder, sussurrou o bom senso. Bem menos, Tita

Parece até um esquete do Joselito: você está de braços abertos, dando bobeira, e o fanfarrão te surpreende com um balde de água gelada que desmancha o sorriso, o penteado e até o rebolado. Sem noção, Joselito. Nesse caso, a realidade assume a bronca. 

Que jovem escritor nunca se sentiu vivendo na época errada e amargou incompreensão em algum momento da vida?
 
Faz parte do processo. Uma crítica enviesada dói tanto quanto um tiro à queima-roupa. Não morri de tuberculose, embora tenha amargado umas desilusões bem indigestas. Ninguém cria uma boa casquinha de proteção sem sair da redoma, primeiro a gente quebra a cara para depois rir da cacetada.
 
Na prática, isso quer dizer que, quando a gente tropeça nas nuvens e para no chão, o desalento é o advogado do diabo, todo cheio de vir com aquela história de "jogar pérolas aos porcos" e criticar a tendência do momento, procurando alguma desculpa esfarrapada para fugir da autocrítica.

Quem lia aquele pergaminho de cores berrantes e pretensões astronômicas dizia "gostar", isso quando eu tinha resposta. Porque quando cheguei à fase adulta, com o rei na barriga, não entendi o motivo de levar um balde de água gelada atrás do outro; não sei como não morri de pneumonia moral.

É inevitável não recordar aquela cena de A Governanta em que a Rosália aparece na casa da D. Marisa, com uma travessa cheia de bolinhos de chuva chamuscados, e a vó da Raquel, diplomática, enrola a vilã para não precisar comer bolinho nenhum feito por quem amava a cozinha na mesma proporção da caridade.

A verdade é que fui pretensiosa como a Rosália. Apresentei meu trabalho para o mundo como se fosse a reencarnação da Clarice Lispector, a promessa da literatura brasileira, indiferente num primeiro momento aos sorrisos amarelos de quem elogiava a intenção e, discretamente, empurrava o prato para o lado. Nesse ponto, já não há mais volta: os pés estão grudados no piche. 

Eu era boa o suficiente para ser estimulada, só não para ser reconhecida pelas porcarias que escrevia.

Tá, você escreve, mas qual é o seu trabalho? Escritor nesse país não ganha nem para o sabão!

Não se sabe quando o juízo chega, mas um dia ele dá com o pé na porta e toca o terror. O primeiro impulso foi querer deletar todas aquelas abobrinhas que chamava de livro e aceitar o inferno da vida de CLT, trabalhar para ganhar uma miséria e ver a vida passar como se fosse só uma observadora da própria história, sem forças para redigir uma reviravolta… e sem vontade também!

Os professores da universidade diziam (e ainda dizem) que "tudo já foi escrito". Desconstruir a arrogância juvenil e não meter o louco, chegar a cogitar mudar de área, de ares, de ideia. Se não fosse esse cenário lastimável do cabresto acadêmico que esmurrava a criatividade, ainda teria de lidar com haters.

Haters gonna hate — disse Júlia, lembrando até dos axiomas de Lulu. — Ninguém odeia o feio nem inveja o fraco. Se a sua arte incomoda, você já chegou mais longe do que muita gente. Quem xinga por trás de uma tela não teria coragem de falar nem duas frases se estivesse olhando para você.
 
Recorrendo ao bolinho chamuscado em Comic Sans, os melhores feedbacks reconheciam os aspectos positivos e mostravam os pontos que poderiam (e deveriam) ser trabalhados; ignorá-los implica assinar o atestado de mediocridade. Quem odeia gratuitamente nunca jogou limpo; sempre apelou para a baixaria. Narcisismo literário não disfarça a inexistência do talento.
 
O destino de livros ruins e mal escritos é o esquecimento. Não adianta depositar entulho no quintal alheio porque ele não é aterro. Fica a dica. Seria o bolinho de chuva envenenado a última esperança de uma Rosália já sem paciência de esperar a D. Marisa morrer para passar a mão na grana. Vai falhar miseravelmente; subestimar o faro aguçado da Raquel nunca termina bem.

Para quem não calça as sandálias da humildade e não se dispõe a se reconstruir e viver também o lado B do ofício, o destino é a sombra. Pode culpar a concorrência, o mercado, as sabotagens de inimigos imaginários, o mau-olhado; vai correr em círculos e perder para meus hamsters, que correm por diversão. Vai dar de cara com a parede, Dom Quixote da Shopee. O pior inimigo do progresso é seu próprio orgulho ferido, não sou eu, nem a autora que vende milhões de exemplares.
 
Após o banho de água gelada e a digestão das verdades amargas, sobra o que realmente importa. Menos "chocar a sociedade" e mais "fazer sentido para alguém". Nem que seja meia dúzia. De Comic Sans para Arial, de fúcsia para preto. Podar assusta um bocadinho no começo; depois, acostuma.
 
Escrever é, no fundo, a arte de saber o que jogar fora. E às vezes é preciso sacrificar o próprio ego inflado para se livrar de fardos que só servem para retardar o progresso. E fechar os ouvidos para o que não convém, às vezes é só barulho tentando desconcentrar; não vale a pena.

E daí se eu nunca viver dos royalties da escrita?

Eu já vivo dela.

Desde que me dispus a aprender a contar histórias e combinar versos para estampar sentimentos, ser a desagradável que não segue a manada, a escrita corre pelas minhas veias. Vivo de registrar acontecimentos, observar o mundo, viajar na maionese e sonhar alto, mas agora os passos nas nuvens são mais cautelosos, contados, até um pouco hesitantes, eu me atreveria a dizer.
 
Às vezes, esse pensar demais, a tal mão pesada do perfeccionismo, é uma empata foda literária. Meu eu da terceira idade precisa ter alguma diversão. Preciso de motivação para comprar meu próprio carro e ficar livre de aturar música de qualidade duvidosa quando pego carona.
 
Não sou prato de brigadeiro, nem litrão, tampouco uma porção de batata-frita para lutar pela unanimidade. Atura ou surta, honey. Não nasci para agradar ninguém, só para botar os pingos nos is e fazer as perguntas inconvenientes varridas para debaixo dos tapetes dessa vida.
 
Sinto muito… Não, eu não sinto muito por quebrar as expectativas de ninguém… Assuma a responsabilidade por elas.

Transbordar em piscina rasa é encrenca; preciso desaguar nesse oceano de possibilidades infinitas e lembrar da minha condição de "peixinho" que busca incansavelmente o caminho de casa e não tem saída senão mergulhar.

Insisto que minha versão da terceira idade merece se divertir. E minha versão atual necessita de colo, um copo de café e umas férias.

Terças com Tita (sim, na segunda!) | O farol dos sonhos loucos e uma página rasgada no livro da vida

 



A maioria dos meus dias é comum. Sigo a rotina no “piloto automático”, às vezes nem paro para prestar atenção no céu, na constante batalha para não ser engolida pelos compromissos. E à meia-noite a contagem regressiva é zerada… e por consideráveis décadas o que muda é a disposição, que vai diminuindo quando o peso da idade é mais do que uma piadinha para quebrar silêncios.

Simplesmente Tita | Teasers de músicas

Decidi compartilhar com vocês alguns testes que fiz com o novo recurso do Gemini,que permite criar músicas. Na versão grátis, os créditos são poucos e o tempo de duração também é curtinho, 30 segundos. Na versão pró talvez seja possível explorar melhor a sonoridade, porém esses vídeos são algumas das tentativas de versos que são de minha autoria, mas ganharam uma sonoridade toda especial.


Terças com Tita | Liberdade, Carnaval e o Fim da Intolerância Digital

 

Já fui hater do Carnaval a ponto de passar mal quando essa época do ano chegava, mas minha percepção modificou-se completamente depois da pandemia. Naquele fevereiro de 2021, cheio de restrições sanitárias e algum rastro de esperança com a chegada das vacinas, senti falta da “normalidade” de antes, de ver as pessoas se divertindo, usando só as máscaras coloridas para entrar na folia, não aquela que escondia o sorriso da gente.

Depois disso, nunca mais falei mal do Carnaval. Não me tornei a maior adoradora desse evento, confesso, no entanto, tento aproveitar o feriado, seja trabalhando, cuidando da casa, saindo com os amigos, me distraindo… e os quatro dias passam tão depressa que, quando dou por mim, já estou na Quarta-feira de Cinzas e pensando no próximo feriado.

Gostar ou não é uma questão mais pessoal, mas é importante que os argumentos sejam fundamentados com respeito e decência. Quem gosta de bloquinhos deve ir a bloquinhos e só não ir se não tiver e se não quiser; quem gosta dos desfiles das escolas de samba que assista, quem prefere trio elétrico e micareta, idem; quem prefere retirar-se e tratar como um momento de reflexão, retire-se. 

Se o seu bloquinho é de quem maratona série de pijama, saia para a avenida da alegria e seja feliz, não deixe que ninguém invalide a sua diversão se ela não prejudica ninguém.

O Carnaval fala de liberdade. De ser quem somos. De aceitar e abraçar quem queremos ser. Isso é viver. 

Agora, um recado: já está fora de moda há muito tempo esse negócio de ficar enchendo o saco na internet para ganhar biscoito. Já tem muita intolerância no mundo, nem sempre sou obrigada a opinar sobre tudo de tudo, mas não contem comigo para propagar discórdia e baixaria a troco de nada.

Quando eu era adolescente, tinha aquela liberdade poética para falar groselhas e esbravejar, contudo, agora sou uma mulher feita. Espera-se que eu já tenha desenvolvido a capacidade de gerenciar certas emoções mais “primitivas” e saiba conduzir uma discussão na condição de uma pessoa disposta a ouvir ambos ou mais lados da questão no lugar de impor meu ponto de vista como uma verdade inquestionável.

Às vezes, sinto que o mundo exige que tenhamos um veredito instantâneo sobre tudo. Mas aprendi que não saber, ou não ter uma opinião formada, não é sinal de ignorância — é sinal de respeito pelo tempo das coisas. Hoje, prefiro o silêncio da observação à pressa do julgamento. E está tudo bem não ser a “dona da verdade”; ser dona da própria trajetória já dá trabalho suficiente.

Terças com Tita | O preço da estabilidade

 


A cura é uma promessa que vende. Um salto de fé para os joelhos amortecidos, um caminho para o céu, para encarar a escuridão sem sentir que se está prendendo o ar, o choro e algumas respostas indecorosas. Ninguém conta que, às vezes, esse salto é um abismo traiçoeiro. 

SiMpLeSmEnTe TiTa 15 anos | A fuga

 26 de abril de 2002.

As costas estão em carne viva, nem maquiagem disfarça esse olho roxo, mas para colocar em prática meu plano de última hora, precisei ter sangue-frio (quase congelado) para aturar as provocações da minha mãe. Meus amigos ficaram em choque ao me verem com a cara de quem chorou a noite toda.

Que foi isso no seu olho, Tita?”, quis saber Rodrigo. “Até parece que levou um soco!

Júlia deu um puxão no capuz da jaqueta dele, que se calou de imediato.

Poxa, Tita. Cadê o seu pai nessas horas?

SiMpLeSmEnTe TiTa 15 anos | Com ela não tem conversa, só cotovelada no olho

25 de abril de 2002. 

Tudo que poderia dar errado na apresentação, deu. Andréa foi repreendida várias vezes por falar baixo, eu gaguejei olhando para o sargentão de saias, Rodrigo usou gírias para explicar o conteúdo e emitiu juízos de valor, descendo a lenha na Igreja Católica — ainda bem que a D. Arlete não estava lá para ouvir, Júlia se empolgou com o assunto e Priscila não segurou a crise de riso. Resultado: fomos esculachados pela velha coroca e ficamos de castigo até às 13h, que nem naquelas detenções de filmes norte-americanos.

Terças com Tita | A história que sempre se repete (Qual será o próximo alvo?)



20 de março de 2003

O que aconteceu ontem no capítulo da novela ficou em segundo plano por conta do Boletim Extraordinário. A aula era de Biologia e a Arlete nem nos repreendeu por discutir (a possível) guerra. Quem consegue abordar outro assunto?

Perto dos quarenta, longe da tomada

 


Envelheci 20 anos nas duas últimas semanas ou, sem os óculos de sol que as ondas arrastaram, a realidade ganhou contornos de uma nitidez inquestionável? Olha eu tentando falar bonito e me pagar de cronista extraordinária, quando não passo de uma reles escrevinhadora, a apelar sem muita firmeza para a falsa modéstia, quando o que não tenho mais é tempo para depreciações.

Toda essa comoção sobre “2006 já fazer 20 anos” não é só papo de rede social. A Copa na Alemanha, de tão decepcionante desfecho, completa duas décadas. Era o primeiro passo de uma longa e insegura travessia, ninguém de nós sairia ileso dessas porradas que a vida dá, às vezes na surdina, sem motivo, só porque estar na chuva significa se molhar e arriscar perder tudo, até mesmo aquilo que nem se tem.

Que venham os 40

 

Ilustração de Júlia Mirella Menezes Gutierrez Carrasco criada por Inteligência Artificial

Aquele era meu primeiro dia na escola nova. Tudo que eu queria era esquecer o que aconteceu antes, tudo que você soube depois e não soltou a minha mão. Você chegava ao lado da Deh, com os cabelos pretos, longos e esvoaçantes, a bolsa lateral de barbantes balançando junto, parecendo tão animada para começar tudo de novo. Seu sorriso foi a ponte que rompeu quaisquer silêncios que pudessem formar um muro entre nós. Esse é o nosso clichê de amizade, não posso reescrever diferente disso.

A cultura pop nos “ensina” que meninas bonitas com tendência à liderança geralmente são perversas, mas você quebrou todos esses paradigmas, bem como quebrou muitos outros. O mais importante deles inspira esta homenagem. Superamos os tempos de escola, os dramas de jovem adulta, crises políticas, pandemias (desinformação também conta) e rumamos para um jubileu de prata especialíssimo, que será devidamente celebrado em fevereiro próximo.

Terças com Tita | Quando eu era só semente, ninguém me regou




Não é só tristeza, nem mágoa gratuita, nem vontade de arrumar treta ou fazer acusações. Tem ares daquele cansaço que se instala devagarinho, preenchendo o corredor vazio com um silêncio insuportável, onde consigo ouvir as batidas do meu coração agitado e inquieto.

Terças com Tita | De bolha em bolha


Por Tita | Os Cadernos de Marisol

Às vezes me questiono se o mundo não passa de uma bolha. Se de bolhas em bolhas vamos deixando nossas antigas peles, bem como antigos sonhos, nossa inocência e nossas lentes cor-de-rosa.

Terças com Tita | A cobra, o vagalume e a garota que só queria viver em paz

Por Tita | Os Cadernos de Marisol 




Se você nunca foi odiada só pelo fato de existir, considere-se uma pessoa abençoada. Boa parte das pessoas, dentre as quais me incluo, nunca teve o direito de viver em paz.

Terças com Tita | Manifesto de uma mulher que se recusa a se encaixar

 


Manifesto de uma mulher que se recusa a se encaixar
Por Tita | Os Cadernos de Marisol


Sinto, dia após dia, o olhar enviesado de quem espera que eu me encaixe.

Porque não suporto blazer que me aperta, salto que me cala, nem a obrigação de parecer adulta para satisfazer expectativas alheias. Gosto de roupas que contam quem sou, não desses figurinos pensados para agradar o LinkedIn dos outros. Julgar meu profissionalismo pelo que visto é uma das formas mais escancaradas de misoginia estrutural.

A régua da maturidade é torta. E pesa só para um lado.

Terças com Tita | Quando o Aurélio voou: a vingança ortográfica de Arlete


📎 Nota da narradora:
Desde a publicação do post sobre a famigerada "AUTORIZASSÃO" — que rodou o CEPEM mais rápido que bilhete de sala para sala — fui cobrada a contar o que aconteceu depois.
Afinal, bilhete mal escrito é uma coisa…
Agora, dicionário voando?
Isso foi história.

E como diria D. Arlete: “o castigo vem antes da aula de reforço”.
A seguir, os fatos que abalaram a honra linguística de uma mãe-professora.

Terças com Tita | O dia em que ‘AUTORIZASSÃO’ quase virou caso de polícia


 

O dia em que ‘AUTORIZASSÃO’ quase virou caso de polícia 

Por Tita


O ano era 2003, o segundo do Ensino Médio. Fevereiro, o pior mês para uma roqueira no auge da adolescência (ou aborrecência para os pais) viver em solos tupiniquins, mesmo que Curitiba nunca tenha sido um dos points para quem curte folia. Todo ano a lesma lerda, enquanto no Dia Mundial do Rock, nada de atenção. Eu não aguentava mais.

Quando o Carnaval cai em março, o primeiro feriado para valer fica para abril, cujos nativos talvez vivam o mesmo dilema da galera nascida em dezembro, ganhar um presente de aniversário + [data comemorativa da vez], no caso, Páscoa e Natal, respectivamente.

Com 15 intragáveis anos nas costas e uma licença poética silenciosa para fazer cagadas, meu mau-humor afugentava até o capiroto. Eu já acordava soltando os cachorros e queria trucidar o primeiro que me aparecesse com um sorrisinho no rosto às sete e tantas da manhã.

Tudo bem que ninguém tinha culpa se minha vida era uma sucessão de provações (leia-se provocações), mas eu estava para o crime naquele dia. Guilherme, meu então namorado, deve ter percebido. Como diz o ditado: uma coisa leva à outra.

Cinco anos sem você, vó

Não parecia um autêntico sábado de verão. Mal começou e ficou suspenso num tempo indefinido entre tudo que acabou e tudo que jamais voltará ...