Terças com Tita | Tita e a Páscoa de 1998: Titanic, sonhos e expectativas perdidas

 

Ilustração de Tita feita pelo Chat GPT (Reprodução/Arquivo pessoal da Mary)

A Páscoa de 1998 foi marcada por sonhos, nostalgia e grandes expectativas. E alguns traumas também. Do contrário, estaríamos em outra história.
Titanic era a coqueluche do momento, campeão de bilheteria, pauta de conversas e, sem dúvida, era difícil encontrar alguém que não estivesse envolvido com o filme de alguma forma, mesmo que fosse para detestar. 

Eu ouvia tanta gente falar da história que aquela curiosidade crescia dentro de mim. Mariana Franco estava apaixonada pelo filme e já havia ido duas vezes ao cinema, contando que não conseguia não chorar no final, porém não me dava spoiler nenhum. (Simplesmente Tita, capítulo "Se meu chicote falasse")

Mari Franco me convidou para ir ao cinema no feriado. Dona Neide, a mãe dela, nos levaria ao famigerado Estação Plaza Show, praticamente recém-inaugurado. 

Tita criada para o The Sims 4 (Reprodução/Electronic Arts/Arquivo pessoal da Mary)

Nunca fui muito de frequentar shoppings na infância, exceto por algumas visitas esparsas ao Shopping Mueller e ao Curitiba. No Estação Plaza Show, aquele, sim, tinha algo de especial na minha cabeça de criança. As cores vibrantes, as opções de entretenimento, as salas de cinema, detalhes que pareciam ter sido feitos sob medida para encantar a gente.

Quando fui pela última vez, para assistir ao filme do Pokémon, ainda era aquele espaço mágico, colorido, cheio de vida, com a famosa loja da Kodak naquela entrada da Sete de Setembro, onde hoje fica uma franquia da Starbucks. Meses depois, já em 2001, tudo estava diferente. O Parque da Mônica tinha desaparecido e a estrutura do local estava em construção, adaptando-se a uma nova realidade que parecia maior, mas, ao mesmo tempo, menos especial.

Essa mudança me entristeceu porque vi as cores da infância se apagarem aos poucos. Era difícil aceitar que os lugares que um dia me trouxeram tanta alegria estavam mudando, se acinzentando, se esvaziando...

Cada detalhe da preparação carregava um simbolismo especial. Os trocados eram mais do que simples moedas, representavam o esforço e a determinação de tornar aquele momento real. Pagar pelo meu próprio ingresso. A bolsinha do Aladdin, guardando cuidadosamente o ingresso e a carteirinha de estudante, parecia conter também os sonhos que eu estava pronta para viver. E a escolha da roupa, pensada com tanto cuidado, refletia não só o desejo de estar à altura da ocasião, mas também a esperança de sentir, por algumas horas, a magia que a tela do cinema prometia.

O Estação Plaza Show, com sua fachada cheia de cores e energia, era um símbolo do otimismo dos anos 90, da promessa de um futuro onde tudo parecia possível. Porém, sonhar alto sempre foi um entrave para mim, tropeçava nas nuvens e tombava numa calçada áspera e dura. Quando tudo parecia destinado a dar certo, algo acontecia para me provar o contrário. Mesmo assim, naquela Sexta-feira Santa, eu ainda acreditava que, por um dia, poderia deixar para trás as dificuldades e mergulhar em um mundo onde tudo parecia mais leve.



— Está febril a coitadinha? — Murmurou a D. Neide.

Meu coração quase parou por alguns segundos.

— Noutra oportunidade Renata as acompanhará. — garantiu Meire, cínica, dispensando Neide. — O médico recomendou que Renata ficasse de repouso absoluto e você sabe que gripe é um negócio que passa, ela está com a garganta inflamada, passou a noite toda com febre e eu não seria negligente de deixar a minha filha sair por aí para piorar e ainda por cima contaminar a senhora e a sua filha.
— Eu que o diga. Mariana quando pega gripe fica um farrapo. É uma pena, ela vai ficar muito triste, mas também sou mãe e entendo a sua preocupação... Que a Tita se recupere bem...

A vontade era aparecer no meio da sala e desmentir mamãe, contudo, senti as forças se esvaindo e mais uma vez a frustração abraçando-me pelas costas.

Toda criança, em alguma altura da infância, já amargou o papel do Bart Simpson no episódio Comichão e Coçadinha, O Filme. Não entro no mérito das travessuras do personagem, nem pretendo dar spoiler a quem nunca assistiu, só usá-lo como exemplo de frustração infantil. Titanic foi o meu "filme proibido".

Contudo, as opções nas telas no ano de 1998 iam além do trágico romance entre Jack e Rose. O Resgate do Soldado Ryan trazia uma narrativa de guerra intensa e inesquecível, enquanto Mulan encantava as crianças com coragem e determinação. E nas produções nacionais, Central do Brasil conquistava corações, levando o Brasil a brilhar nas telonas e rendendo a icônica indicação da majestosa Fernanda Montenegro, que foi a primeira atriz latino-americana a ser indicada ao Oscar. Aliás, a segunda indicada ao prêmio de Melhor Atriz foi ninguém menos do que Fernanda Torres, que pode até não ter recebido a estatueta, no entanto, foi vencedora em todos os sentidos.

― Por que a senhorita está toda arrumada? ― Meire olhou para mim da cabeça aos pés.
— Eu… eu…
— Eu o quê, mocinha?
— Eu ia ao cinema.
— Disse muito bem… — Meire me aplaudiu com sarcasmo. — Ia. Você ia ao cinema. Não vai mais.


Se minha família fosse praticante fiel do catolicismo, a negativa de minha mãe teria coerência. No entanto, não frequentávamos nenhuma igreja, não tínhamos restrições religiosas, nada que justificasse a implicância dela pelo fillme e a reação beligerante contra uma criança de 10 anos que mal tinha condições de se defender. 

A história de amor e tragédia parecia, de alguma forma, refletir os sonhos interrompidos pelos icebergs da vida.

Na hierarquia das surras, as cintadas e chineladas doíam menos, não tanto quanto ser deitada de bruços na cama, ter a calcinha abaixada e levar tanta chinelada que o calçado arrebentava.

Da próxima vez que a senhorita sair marcando passeio sem me consultar, o papo vai ser com a titia vara!

A cada obstáculo, uma parte de meus sonhos parecia se desvanecer, substituída por uma realidade mais dura, amarga. Porque na ocasião eu desejei que Meire das Neves morresse. Não foi a primeira nem a última vez. Embora seja algo muito vergonhoso de contar, não posso mentir que perdoei os abusos e maus-tratos que moldaram (destruíram) minha infância e adolescência. 

"(...) a tristeza que eu sentia nem mil coelhinhos de chocolate curariam."

Essa frase poderosa reflete não só os sentimentos de uma criança ferida em sua dignidade, mas também a nostalgia que muitos de nós sentimos por uma época que já não existe mais. O luto por tudo que poderia ter sido. Pela pessoa que eu poderia ter sido. Pelo amor que tanto me fez falta e ninguém no mundo jamais poderá suprir. Porque existe — e sempre existirá — um buraco negro dentro do meu peito, onde moram a rejeição, a solidão, os traumas e medos enterrados para debaixo de um tapete que sempre me puxa de volta para ele.

Box informativo sobre o antigo Estação Plaza Show (Reprodução/Canva)


Impacto cultural do Titanic

Para quem nasceu depois e não teve a chance de viver o fenômeno que foi Titanic, é difícil imaginar o tamanho do impacto que o filme teve em 1998. Era uma coqueluche cultural. My Heart Will Go On* de Celine Dion, tocou nos rádios até enjoar. Foi trilha sonora de casamentos, festas de debutante, telemensagem e as famosas mensagens ao vivo. 

Estabelecimentos comerciais vendiam pôsteres, revistas com reportagens sobre os bastidores e até cadernos escolares estampados com Jack e Rose. As conversas nas escolas giravam em torno da história de amor impossível e do final emocionante que parecia inevitável. A escola não ficou de fora, a história do naufrágio chegou até a prova de matemática. 

Era a minha chance de pertencer àquele universo grandioso e viver, nem que fosse por algumas horas, a magia que transcendia as dificuldades do dia a dia, mesmo que o final fosse agridoce e questionável. 

Cores que permanecem: entre doces memórias e amargos contrastes

Relembrar o passado é abrir um antigo baú de lembranças, nem todas são boas. Dentro dele, há coisas que aquecem o coração e reacendem a saudade, como quando o chocolate era chocolate e não apenas "sabor chocolate", das cores vivas que perderam espaço para o cinza e o bege, de quando a imaginação era um escudo onde eu descansava de um mundo que nunca foi gentil comigo. São exemplos simples, mas palpáveis.

Embora o presente possa parecer mais padronizado, dinâmico e impessoal, escolho carregar as cores que ainda encontro, as provas de que "a vida presta", as demonstrações de carinho das pessoas queridas, a gentileza que surge quando menos se espera, os pequenos sonhos realizados e a resistência em continuar tocando, como os violinistas do Titanic, mesmo quando tudo ao redor naufraga. É nessa mistura de memórias e aprendizados que descubro minha força e encontro uma maneira de manter a magia viva no mundo de hoje.

Olho para o ovo de Páscoa sobre a mesa e sinto um misto de saudade e aprendizado. O chocolate já não tem mais o mesmo sabor de antes, pode ser que meu paladar tenha mudado com o passar dos anos, numa dessas. No entanto, há algo na magia da Páscoa - na expectativa de desembrulhar aquele papel brilhate e colorido para descobrir o que há dentro - que ainda me faz acreditar em pequenas alegrias e grandes sonhos.

Para mim, a Páscoa nunca foi apenas sobre chocolates ou presentes. Sempre foi sobre redescobrir, ano após ano, as cores que permanecem, mesmo quando o mundo insiste em rebocar nossas paredes com aquele cinza medonho e frio. Sobre acreditar no florescer da esperança, mesmo quando sinto estar tocando violino para uma plateia que me ignora.

Nota da Mary: E enquanto os sabores e os shoppings mudam, há algo que nunca se perde: a capacidade de sonhar, de celebrar os pequenos momentos e de continuar tocando a própria música, como os violinistas do Titanic, independentemente do que estiver por vir.

Se você se interessou em conhecer ou até reler Simplesmente Tita, clique aqui. Tita aguarda a todos com os braços bem abertos.

Referências 

CURITIBA CULT. Relembre o Parque da Mônica, que fez história em Curitiba. Disponível em: <https://curitibacult.com.br/relembre-o-parque-da-monica-que-fez-historia-em-curitiba/>. Acesso em: 14 abr. 2025.

FOLHA DE LONDRINA. Polloshop compra Estação Plaza Show. Disponível em: <https://www.folhadelondrina.com.br/economia/polloshop-compra-estacao-plaza-show-294682.html>. Acesso em: 14 abr. 2025.

WIKIPÉDIA. Shopping Estação. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Shopping_Esta%C3%A7%C3%A3o>. Acesso em: 14 abr. 2025.


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