Arquivo Malacubaca | O feriado dos Boletins Extraordinários (1998)


Por: Carmen Angélica Esteves – Noviça, em carne, osso, formosura e muito café na causa 

Para quem gosta de feriados prolongados, abril de 1998 foi um baita mês. Páscoa e Tiradentes. Metade da redação folga, a outra metade opera na capacidade máxima, não contei nenhuma novidade. Não foi diferente naquela ocasião.
Na Páscoa eu comi tanto chocolate que nem podia mais ver na frente, assistindo a todos os filmes que peguei na locadora. Combinei que “pagaria" a troca no feriado seguinte, subestimando a lógica universal dos plantões especiais na redação.
O plantão de Tiradentes começou na sexta-feira (17) e terminou na quarta-feira (22), porém aqueles foram dias intensos que pareceram semanas, mas o clima soube enganar bem. E como enganou.
 
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Sábado à noite, 18 de abril

Apresentei o Vinte Horas, havia acabado de sair do ar e meu turno tecnicamente estava próximo do fim. Eu parecia a Jaqueline contando nos dedos a hora da saída.
Eis que uma produtora irrompeu pela sala:
— Noviça, você pode entrar no ar?
— Agora?
— Nem que seja só um off. Nelson Gonçalves morreu!
— O Nelson…? O BOÊMIO?!
E lá fui eu, correndo para o estúdio, voz embargada e coração no modo cronista de rádio AM. Interrompemos a exibição da novela — tudo bem que estava no intervalo — para noticiar, prometendo retornar “a qualquer momento com mais informações".
Sempre ouvi dos telespectadores que o Boletim Extraordinário faz justiça ao nome e já é assustador por si só, porém ainda mais quando o logotipo fica estático na tela escura.
Enquanto narrava o off, parecia que a voz dele, rouca e potente, ecoava no fundo do estúdio, dando adeus a um Brasil que ainda ouvia rádio de pilha.
Apuradas mais algumas informações, a redação deslocou uma repórter para as externas, sem saber que o pior ainda estava por vir.


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Domingo, 19 de abril

A morte de Linda McCartney, ocorrida dois dias antes, foi confirmada ao público. Adivinhem quem teve de dar as caras no Boletim Extraordinário para anunciar um segundo falecimento em menos de 24 horas…
Liguei para o arquivo, pedi imagens, escrevi a fala no batente e entrei no ar. De novo.
Mal tive tempo de respirar. No final da noite de domingo, quando finalmente peguei no sono, recebi outra ligação da chefia:
— Noviça, você pode vir pra cá?
— Quem morreu agora?
— Sérgio Motta.
— O Sérgio Motta?
— Sim, ele faleceu. Colocamos um off, mas queremos você para a cobertura. Em quanto tempo você consegue chegar?
A confirmação não era nenhuma surpresa, o estado de saúde do ministro deteriorava a cada boletim médico.
Calcei as pantufas, botei um blazer por cima, escovei os dentes, peguei a bolsa e zarpei para a redação, pensando que só gravaria um off, que nada!
— Você está de pijama, Carmen Angélica? — quis saber o cinegrafista.
— Se é em off, quem vai reparar nesse detalhe?
— Não será em off, você vai assumir a cobertura. A morte do Serjão é uma bomba para o presidente.
Sentei na bancada, passei um batom para disfarçar a carinha de sono e fiz pelo menos quatro entradas durante aquela madrugada. Cada uma mais séria que a anterior. Meu rosto parecia um VHS rodado no modo lento.

Segunda-feira, 20 de abril 

O dia amanheceu com gosto de café velho e arrependimento. Para quem estava curtindo a folga, nem tinha cara de segunda-feira.
Eu, por minha vez, virei a porta-voz dos defuntos e fui escalada para cobrir o funeral do Sérgio Motta.
— Sérgio Motta morre no que ele mesmo chamava de 'olho do furacão'. À frente do Ministério das Comunicações, ele foi o arquiteto da privatização do sistema Telebrás, marcada para julho deste ano. Para os defensores, Motta era o homem que ia tirar o telefone da lista de bens de luxo e colocá-lo na casa de cada brasileiro. Para os críticos, ele era o executor de uma entrega apressada do patrimônio nacional. O fato é que o 'leilão do século' perde hoje o seu leiloeiro mais impetuoso.
Foi uma correria daquelas, mas não fiz feio.
— Não se pode falar de Sérgio Motta sem falar da emenda que permitiu a reeleição para cargos executivos no Brasil, aprovada no ano passado. Se o presidente Fernando Henrique Cardoso poderá tentar um novo mandato em outubro, deve muito ao 'estilo trator' de seu ministro. Motta não negociava apenas projetos; ele negociava vontades políticas, muitas vezes sob o fogo cruzado de denúncias de irregularidades no Congresso. Ele sai de cena deixando um governo que agora precisa aprender a caminhar sem o seu principal operador político.
Antes de dormir, desliguei o celular e a tomada do telefone para tentar dormir sem interrupções, mas era preciso ver a situação pelo “lado bom", estávamos entrando na reta final do feriado…

Terça-feira, 21 de abril 

Enquanto Brasília tentava digerir a perda de Serjão, tudo que nossa equipe queria era um dia parado, com matéria de gaveta indo ao ar, quase como uma ressaca após dias de coberturas intensas.
Circulei o dia 30 no calendário de mesa, já me imaginando debaixo do guarda-sol, tirando uma pestana depois do almoço, quando caiu a bomba…
— O deputado Luís Eduardo Magalhães, líder do governo na Câmara, acaba de ser internado no Hospital Santa Lúcia, em Brasília, após sofrer um mal-estar em sua residência.
Minha primeira entrada foi no meio da tarde. Quando o primeiro despacho da agência falou em “indisposição gástrica" de Luís Eduardo Magalhães, não senti cheiro de café; senti cheiro de velório. Em Brasília, 'indisposição' é o codinome para o imprevisto que o governo ainda não sabe como esconder. Um homem de 43 anos, atleta e com o peso do país nos ombros, não vai para o hospital no feriado por causa de uma coxinha mal frita.
Quando um político da estatura do Luís Eduardo — jovem, ativo, o herdeiro do trono — vai para o hospital e a nota fala em 'mal-estar', o jornalista experiente já sabe que a cobertura só tem hora para começar.
Minha suspeita virou certeza quando soube que os cardiologistas de elite não foram apenas consultados, eles foram 'convocados'. Você não chama um cirurgião de renome para tratar uma queimação no diafragma de feriado se não houver um incêndio no peito.
Quando o teletipo confirmou que o ACM (Antônio Carlos Magalhães) tinha decolado da Bahia com destino direto ao Hospital Santa Lúcia, o clima na redação mudou. O silêncio da tarde de Tiradentes ficou pesado. A incerteza do cenário se desenhava em linhas tortas e às 19h05 veio o golpe final.
A prioridade era o furo, tanto que, poucos minutos depois, o primeiro BE interrompeu o próprio jornal local de cada praça que transmitia o sinal da emissora. Quando a luz vermelha da câmera acendeu, engoli o sono, o cansaço e a apreensão para informar o público.
Eu vi o choque nos olhos dos operadores de câmera. Senti o vácuo de poder cruzar os cabos de fibra óptica. 
— Exatos treze anos atrás, neste mesmo 21 de abril, o Brasil perdia Tancredo Neves.
Minhas fontes dispensaram eufemismos e foram bastante enfáticas ao desenhar um cenário que, naquele momento, poderia ameaçar a reeleição do então presidente.
— Brasília amanhece amanhã em pane seca. O presidente Fernando Henrique Cardoso perdeu, em menos de quarenta e oito horas, seu braço direito, Sérgio Motta, e sua voz mais habilidosa no Congresso. Desde o desaparecimento do Dr. Ulysses Guimarães em 92, o Parlamento não sentia um vácuo de liderança tão profundo. 
Eu era uma simples foca quando o Tancredo Neves morreu, mas nunca me esqueço da movimentação da redação lá no rádio. Nem parecia noite de domingo, ninguém tinha hora para sair. 
— Luís Eduardo não era apenas o “Príncipe” da sucessão; ele era a ponte. E hoje, essa ponte ruiu, deixando o Planalto em uma solidão institucional sem precedentes.
Num dos boletins que interromperam a programação, comentei com Osmar, o operador de câmera de plantão:
— Parece que todo mundo resolveu desencarnar justo quando estou de plantão?
Ele deu uma risada baixinha e cúmplice, porém,assim que vi a luz vermelha ligada, me dei conta de que talvez o público de casa tivesse me ouvido resmungar. Se quem está na chuva tem mais é que se molhar, ajeitei o cabelo e ativei o modo profissional, os telespectadores da Malacubaca mereciam esse sacrifício.
— Peço desculpas pela franqueza, mas é o desabafo de quem, como todos vocês em casa, assiste a um dos feriados mais tristes e inacreditáveis da nossa história recente.
Citei o drama de Tancredo e até viajei mais longe na história para exemplificar contextos quase parecidos com aquele, muito embora cada perda sempre fosse única e trouxesse consequências nem sempre tão simples de conjecturar.
Durante toda a noite, estivemos no ar e em contato com nossas fontes, recebendo convidados na bancada, conversando também com médicos e atualizando as informações. 

22 de abril, quarta-feira 

A equipe que voltou do feriado não teve moleza.
Olhei para o mapa-múndi na parede da redação e meu olho parou na Europa. Faltavam poucas semanas para embarcar para a França. A Malacubaca já tinha despachado parte do equipamento. Meu destino era o azul, o branco e o vermelho de Paris. Seria difícil passar tanto tempo longe da Jaqueline, porém, eu deixaria para chorar as pitangas quando chegasse a hora, não antes.
Por outro lado, meu desabafo registrado no BE virou o assunto mais comentado nos bastidores. Muitas pessoas ligaram e mandaram cartas para a emissora, pedindo para me dar alguns dias de folga.
Mesmo tendo sobrevivido a um plantão de feriado para nunca esquecer, aprendi uma lição valiosa: nunca mais trocar uma folga pela outra. 
E tenho dito.



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