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Insurgente





Não quero pensar no que será de mim daqui para frente. Os batimentos cardíacos estão voltando ao ritmo habitual. Encontro-me distante do labirinto cinzento e gradeado, o uniforme da despersonalização descansa numa mureta, onde aposento também esse personagem que consente com a própria degradação.
Até nunca mais.
Se pensasse duas vezes, estaria escondida numa cabine qualquer do banheiro feminino, apenas adiando o intolerável. O balde é imenso, mas nunca é bom subestimar a intensidade com que a última gota arrasa o que estiver pela frente. 
Se não havia saída, acabei de encontrar a porta entreaberta, o frio na barriga compensa o "não saber" do meu dia de amanhã. Vi tantos anos se passarem sem sequer me sentir gente, preciso me lembrar que existe algo muito pior do que não realizar um sonho: deixar de lutar por ele em razão do medo ou por acreditar naquela lorota de "não merecer".

Terças com Tita | A farsa dos 500 anos

 



Isso vai entregar a minha idade, mas não estou nem aí. Parece que foi ontem que eu passava pelo centro da cidade e via aquele relógio de rua que fazia a contagem regressiva para os 500 anos do descobrimento do Brasil. Para quem nasceu depois disso, essas narrativas parecem meio estranhas, pertencentes a outro mundo.

O otimismo quase ingênuo que aquela vibe do ano 2000 trazia era palpável no ar, nos gestos, no sentimento comunitário. Algo muito grandioso estava para acontecer, muito além do nosso modesto entendimento. Essa expectativa só precisava existir para hoje ser palavra — ou muito mais do que palavras.

Depois dos 25 | Ponto de não-retorno

 


Se já escrevi, não lembro quando, mas não é a primeira vez que me questiono o porquê de a nostalgia Y2K resgatar e reciclar o que tinha de mais abjeto naquela longa década. Permaneci alguns segundos dramáticos fitando a tela, tentada a apagar essas ideias ridículas e pelo menos tentar seguir o tal fluxo, abraçar a nostalgia e ignorar a podridão varrida para debaixo do tapete.

cada um por si e o tempo contra todos nós

somos as peças que ficam de fora 
no limiar da invisibilidade 
nós sempre damos conta do recado 
precisamos olhar para o lado
tanto egoísmo não leva a nada

corra uma maratona com a perna engessada
você pode ir mais depressa
desculpas não justificam derrotas
você nem sequer se esforça 
a vida é difícil para todo mundo 

cada um por si e o tempo contra todos nós 

eles vêem o sorriso resignado,
palavras trancadas no alto da garganta 
concessões feitas sem resistência 
o lobo rasga a pele do cordeiro 
quando o sim não vem de primeira 

o cansaço crônico parece ócio
de quem vive um não-lugar no mundo 
pensado para suprimir divergências

corporais 
mentais 
comportamentais 

lugar de fala, qual deles?

porque quem tenta falar por nós 
se esquece de nos consultar.




refluxo urbano

os ventos sopravam ao sul
ondas revoltas inundavam as cercanias dos castelos
erguidos na firmeza de uma promessa vazia 
apesar da escuridão, ainda era dia 
e o lugar seguro dispensava a tradicional rigidez
nem perto do mar, nem na capital 

pombos encharcados no telhado 
a sacola plástica, marionete de mãos invisíveis, voava sem freios
da janela, a imagem embaçada
ondas se formando no asfalto 
impacientes faróis amarelados preenchiam a avenida
um por um a entrar nessa dança funesta
no sentido antihorário 
contabilizados nas estatísticas 
bueiros regurgitavam as velhas queixas de verões passados 
transbordando o que sempre foi ignorado.



Mary Recomenda | Nós, Mulheres - Rosa Montero

 


Hoje o post é diferente. Neste 8 de março, decidi trazer uma obra que não apenas se lê, mas se sente como um ato de justiça. Se você, assim como eu, acredita que a história é feita de muitas vozes (e que muitas delas foram caladas), a recomendação de hoje é obrigatória: Nós, Mulheres, da brilhante Rosa Montero.

Sintonia

 

Após a chuva de verão (Reprodução/Arquivo pessoal da Mary)

Escrito em janeiro de 2018, “Sintonia” nasceu de reflexões sobre as nuances das conexões humanas. Esses encontros — uns superficiais, outros profundos — carregam consigo uma beleza e complexidade que permanecem tão atuais quanto naquela época. Hoje, compartilho este texto com a esperança de que ele possa inspirar você a valorizar os instantes de verdadeira sintonia que encontramos ao longo da vida.

Manifesto de uma nefelibata

 


"Eu não sou uma fraude por não saber tudo porque tenho a humildade de buscar aprender o que não sei. Minha força não está na perfeição da regra, mas na precisão da minha observação, de rir dos meus erros."

Editorial OCDM | O preconceito de não seguir a onda:

 

Quando Pedro Bial se referia aos participantes do BBB como “nossos heróis”, a pergunta que surgia sempre era: heróis de quê? Eles estavam confinados em uma casa, vivendo suas experiências privadas, enquanto o mundo lá fora precisava de heróis reais: médicos, voluntários, pessoas que enfrentam guerras e desastres naturais. O heroísmo verdadeiro não aparece em reality shows, mas no trabalho invisível de auxiliar o próximo.

Mary Recomenda | Dentro da noite veloz - Ferreira Gullar


O Mary Recomenda de hoje vem com o pé na porta, mas por uma boa razão: a indicação de hoje, definitivamente, não é para os fracos.

Terças com Tita (no domingo, sim) | 2006 já faz 20 anos



Sandy Leah cantou muito bem sobre ter grandes sonhos, as costas doerem, ser jovem demais para ser velha e velha demais para ser jovem. Há anos vivemos nesse limbo paradoxal, mesmo que cada geração vivencie uma época da vida em um contexto bem diferente do que o dos pais e avós.

Com a mesma idade, minha avó tinha uma casa própria. Mamãe tinha uma filha adolescente e um veículo velho na garagem. Eu mal tenho uma casa para chamar de própria. Quanto aos filhos, só os de quatro patas e, olhe lá; não está fácil mimar a cambada.

Parem de nos matar



Eu não sabia a melhor forma de começar, mas optei pela franqueza. O assunto hoje é muito sério e diz respeito a todas nós, pouco importam quais sejam as nossas diferenças. Somos todas mulheres e, portanto, corremos o mesmo risco de perder a vida por sermos quem somos.

Mary Recomenda | A voz que ninguém escutou - Renan Silva

 

Alguns livros nos arrebatam de maneira silenciosa, mas profunda. A voz que ninguém escutou é um desses casos. Trata-se de uma narrativa densa e pungente, que atravessa décadas de história brasileira — do Estado Novo à Ditadura Militar — com coragem e sensibilidade. Mais do que uma ficção, é uma memória coletiva transfigurada em arte.

Crítica ou insulto? A linha tênue entre a análise e o ataque

Nem toda opinião é crítica. E nem toda crítica é construtiva. Vivemos tempos em que a fronteira entre reflexão e hostilidade parece ter se dissolvido nas redes sociais, transformando o debate sobre arte e cultura em um campo minado de ataques pessoais.

💌 Carta a quem acha que não é bom o bastante


Às vezes, eu me sento diante da tela e penso: para que escrever, se há tanta gente melhor?
Tanta gente com mais técnica, mais vocabulário, mais confiança, mais seguidores. Sou assaltada por aquele velho pensamento que sussurra que nada do que eu diga tocará ninguém, ou que seja algo além de bobagens jogadas num limbo qualquer da internet (e mesmo fora dela).
Ainda assim, escrevo. Porque preciso. Porque é meu respirar, mesmo quando as mãos do mundo tentam empurrar minha cabeça para debaixo d'água.
Não quero ser genial nem inventar roda nenhuma, só quero ser sincera, que se algum dia alguém me ler, sinta haver uma pessoa real por trás das palavras, alguém que tem dúvida, teme e se levanta mesmo com a voz hesitante e o choro preso na garganta. 
Se escrevo bem?
Já ouvi que sim. Outros tentaram e ainda tentam me convencer do contrário. Entretanto, o que me move é a vontade de externar tudo que o silêncio não consegue nem faz questão de segurar. 
No fundo, não almejo ser a melhor, nem a mais popular, nem desbancar ninguém, só ser sentida… é por isso que mesmo com todas as mordaças invisíveis, o peso do grafite sobrevive e desenha aquele amanhã que ainda vive só no plano das ideias, mas vívido o suficiente para me manter de pé.
Se eu não arriscar, como vou querer dar meu salto de fé, evoluir, algum dia ser o farol de alguém?
Lógico que hoje eu ainda estou a mil anos-luz da perfeição, de escrever com a maestria desejada, mas desistir só prolonga o processo. E ninguém tem tanta certeza assim, a eternidade não está em jogo.
Talvez a perfeição seja um fantasma que me impede de abraçar a verdadeira essência e aceitar que o feito é perfeito não pela ausência de erros, mas sim porque se permitiu existir. Foi o suficiente, mesmo quando tentem dizer que não.


— Mary Luz ✨

O ofício de permanecer

Nem sempre uma editora grande vai apostar em quem está começando. Não porque falte talento, mas porque publicar também é um negócio, e negócios vivem de previsões seguras.

Reflexões sobre autenticidade: protegendo meu espaço criativo



Ao longo dos anos, meu blog tem sido mais do que um simples lugar para escrever. Ele é meu espaço de expressão criativa, onde ideias ganham vida e sentimentos encontram palavras. Não é um muro das lamentações, nem um palco para alimentar dramas alheios, mas sim um refúgio para quem deseja refletir e encontrar inspiração. Afinal, o que realmente importa é a liberdade de criar sem amarras.

Não ser como elas não é tragédia, é livramento



Você foi rejeitada porque o mundo é cruel com mulheres que não cabem no padrão e, pior ainda, com mulheres que ousam ter brilho próprio fora das vitrines.

Você foi rejeitada porque é intensa, esperta, sensível, crítica, criativa — e isso assusta quem vive numa bolha rasa.
Você foi rejeitada por ser verdadeira num mundo de pose.
Você foi rejeitada por ser mulher de verdade, e não personagem de comercial de iogurte.

Tem gente que nunca vai enxergar o valor de uma mulher que não se dobra, que não se molda para agradar, que não está à venda, mas isso não é culpa sua, é limitação deles.

às vezes a gente precisa parar de procurar o amor nos lugares onde ele nunca morou

“Às vezes a gente precisa parar de procurar o amor nos lugares onde ele nunca morou.
Nem nos homens com nojo de mulher real, nem nos que te diminuem para se sentirem grandes.”

Terças com Tita | Quando eu era só semente, ninguém me regou




Não é só tristeza, nem mágoa gratuita, nem vontade de arrumar treta ou fazer acusações. Tem ares daquele cansaço que se instala devagarinho, preenchendo o corredor vazio com um silêncio insuportável, onde consigo ouvir as batidas do meu coração agitado e inquieto.

Cinco anos sem você, vó

Não parecia um autêntico sábado de verão. Mal começou e ficou suspenso num tempo indefinido entre tudo que acabou e tudo que jamais voltará ...