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Manifesto de uma nefelibata #2

Nem todas as boas histórias começam com "era uma vez", suspeito que as primeiras páginas contem sobre paredes rabiscadas e bichos de pelúcia brilhando sob os holofotes imaginários de novelas improvisadas pela imaginação quase infinita de uma criança solitária e incompreendida.
Ideias pedem morada e vão florescendo até que as pétalas preencham dezenas de folhas de papel, tudo muito poético e até certo ponto romântico... ninguém descreve a angústia de segurar a caneta e a página em branco encarar de volta, um pouco impaciente, adepta da praticidade acima de tudo. O perfeccionismo ajeita o capuz na cabeça e murmura trêmulo atrás das cortinas que seria melhor nem começar. Por outro lado, as primeiras palavras vão ganhando corpo e assumindo o compromisso de reproduzir esse desabrochar de sonhos grandes demais para serem guardados junto com os brinquedos, os velhos e fiéis companheiros de aventuras. 
Os grandes um dia foram pequenos, não há nada de vergonhoso em partir de algum lugar, com o que se tem e o que se sabe. As bruxas são inofensivas diante da punhalada vinda de quem diz amar, pelas costas, para não deixar dúvidas, para não haver chance de defesa. Os mentirosos bem-intencionados inventam uma narrativa convincente e as folhas desaparecem, sentimentos não passam de arremedos e uma criança amedrontada chora até adormecer, no peso da injúria e da desmedida reação de quem sequer ouve outra versão. 
Mesmo assim, ela insiste. Ainda não sabe bem no que vai dar, o quebra-cabeça ficou todo irregular, mas existe um lugarzinho onde o ódio e a maldade não podem invadir, pelo menos não enquanto a esperança for sua sentinela. A rotina é pequena, sufocante e limitadora, porém, as palavras constroem pontes e refúgios seguros, as primeiras estruturas de histórias que ainda haverão de ser escritas. 
Cada divisória colorida desse caderno argolado do Mickey Mouse conta uma perspectiva da mesma noite — e tantas outras —, sempre em busca do aprimoramento, da versão definitiva, por mais penoso que seja reconstruir uma edificação lembrada pelas ausências. É tudo que tem. Cabe dentro da mochila, viaja por toda parte, considerando que a privacidade tem o mesmo peso de uma moeda sem valor. 
O desejo de transcrever o florescer com a mesma riqueza de detalhes da imaginação segue nesse embate passional com todos os entraves. A inocência fenece, de estilhaços sobrevive a confiança. São muitos dizendo o que fazer, poucos para entender. Todos pensam saber o que é melhor para ela, são boas as intenções descritas num tom paternal ou maternal de quem no fundo fala consigo mesmo. 
O bater das teclas tenta acompanhar o ritmo voraz dos pensamentos, aquela sintonia meio fora da caixa que parece dar muito certo. Não adianta seguir uma "receita de bolo" se o seu paladar se afina mais com uma boa macarronada ou uma pizza com camadas de queijo derretido e tomates. Muito além da boa gastronomia, é questão de lealdade aos próprios valores, vender mentiras cobra juros impagáveis.
Quem cobra perfeição não é exemplo de nada. Quem julga com rigor religioso tem um teto de vidro disfarçado. Quem despreza só escancara o despeito escorrendo pelo canto da boca. Quem escolhe o caminho do ódio não pode reclamar das tempestades no trajeto de volta, as coisas são como são. 
Ela é bombardeada diariamente com milhares de cobranças em todas as áreas da vida. Faça isso, não aquilo. Pense assim e não assado. A arte precisa de culhão. Quem não viraliza não existe.
Será que não existe uma incoerência em todos esses lugares-comuns?
A menina que rabiscava parede não pensava em ranking nenhum, só gostava da sensação de segurar uma caneta e brincar com palavras soltas. Os bichinhos de pelúcia eram as grandes estrelas das novelas faladas, não tinham fãs nem milhares de visualizações, não colecionavam medalhas, nem tampouco tinham a necessidade de validação externa ou de agradar uma cartilha de costumes cujos critérios são muito ambíguos.
Foi essa menina de coração quebrado que saiu de cena e aprendeu a gostar de passar despercebida, de não ter que dar opinião sobre tudo, nem se cobrar a perseguir um ideal que mais contribuiu para aprisionar a criatividade e roubar o prazer de escrever por escrever.
Se ela não viraliza não existe para o senso comum iludido por mentiras bem editadas e ilusões filtradas. Ademais, enquanto o amor pela arte se sobrepõe aos interesses mundanos, as palavras se amontoam, ávidas por redigir não um final feliz repleto de efeitos especiais, mas o grande momento em que o perfeccionismo é deixado de lado e arriscar é o verbo de ação que liga dedicação, intenção e satisfação. 

Terças com Tita | A epopeia da garota incompreendida (escrito em 2013)

 

Ela era a adolescente desengonçada que lhes falava. Ninguém a ouvia por não querer. Vaiada ao apresentar os trabalhos em classe. A última do time. A fileira isolada. O ruidoso silêncio.

Aquela que chorou a perda da única amiga. Ninguém nunca soube decifrar o quanto ela poderia ser uma boa companheira.

Era mais fácil atirar pedras no cachorro sarnento do que oferecer-lhe alguns miolos de pão e um pouquinho de água.

Estrelas na madrugada chuvosa



A escuridão é o papel em branco que segue o instinto da pele. A luz do luar traceja delicadamente os contornos desse movimento gravitacional, invisível aos olhos distraídos, que harmoniza a comunhão de dois mares na eternidade. 

🌸 Até a última gota de esperança

 Subtítulo: Um texto inédito de 2012 que reafirma a força de sonhar e escrever com o coração

Introdução:

Nem sempre conseguimos nomear a força que nos move. Às vezes, ela escorre pela ponta da caneta sem pedir licença, vestida de esperança, de saudade ou de coragem. Esse texto foi escrito em 16 de outubro de 2012, numa época em que eu não tinha todas as respostas — mas já carregava comigo a certeza de que a escrita seria meu refúgio e minha salvação. Guardei esse desabafo com carinho, e agora ele encontra seu lugar no tempo: para florescer, enfim, em forma de post.

Sala de travessia


Não estou mais no começo, mas também não cheguei ao fim. Vivo nesse meio-termo onde nada é definitivo e tudo ainda pode mudar.

O ofício de permanecer

Nem sempre uma editora grande vai apostar em quem está começando. Não porque falte talento, mas porque publicar também é um negócio, e negócios vivem de previsões seguras.

Por trás das pausas


Sinto as pontas dos dedos entrando em contato com as teclas, a melodia escondida entre uma palavra e outra, nos espaços para o indizível, nos arranjos que permitem a iniciativa tantas vezes reprimida.

Do lado de dentro do silêncio 🔇

Joaninha no fim de tarde (Reprodução/Arquivo pessoal da Mary)


Toda vez que abro o rascunho é a mesma história: a folha em branco me encara, exige respostas que não posso oferecer. 
Há tantas linhas vazias atordoando a visão, culpas somatizadas nas horas mais escuras... vejo o tempo passar e as palavras amordaçadas desaparecerem no horizonte das ideias.

🌧️ O medo do medo

 

🌧️ O Medo do Medo

"Tenho medo de me apaixonar porque sempre que isso acontece, a pessoa vai embora..." 💔

Há marcas em meu passado que eu gostaria de apagar, mas não posso, porque, gostando ou não das disformes cicatrizes, elas contam a minha história num ritmo até poético — onde houve (e ainda há) tanta dor, tanta dor que às vezes no peito cabe e precisa ser verso para transbordar rima. Para ser mais do que um amontoado de insônias sem propósito senão ouvir o tum tum tum descompassado do coração que sustenta a mente inquieta, também sonhadora, um pouquinho teimosa e rabugenta, mas nunca indiferente. Porque, quando atinjo o patamar da indiferença, nada mais pode ser feito.

O medo de amar nunca foi, nem será, o problema. Embora tímida e relutante, nunca deixei de sentir. E se assim fosse, nem essas simples digressões existiriam. Quem sabe eu somasse menos dores? Saber, eu nunca saberei. Mas também não saberia metade do que hoje creio saber.

Amor em meu peito há de sobra. Tenho vontade de compartilhar. Preencher com todas as cores do arco-íris os muros tristonhos desta cidade. Desenhar corações em espelhos embaçados. Porque a fonte onde brota amor nunca deixa de jorrá-lo — mesmo quando o mundo parece seco.

Já ouviu falar do medo do medo?

Pode soar estranho admitir em voz alta que se tem medo... de ter medo.

Ter medo faz parte de girar na roda da vida, e até certo ponto, é um escudo protetor. Mas em demasia, ele vira um cárcere invisível que retarda a evolução. Se essa palavrinha tão pequenininha já embrulha o estômago, imagine então o que é... ter medo do medo.

O medo do medo é o ponto de partida para uma reflexão onde o amor o encontra numa encruzilhada. De mãos dadas, caminham rumo ao precipício, de onde se atiram. E ao cair, trazem à tona uma dor que talvez nunca viesse a ser sentida — mas que, agora exposta, talvez também seja a chave para a libertação.


📌 Texto de autoria própria. Esta é uma obra literária e subjetiva, protegida pelas garantias constitucionais de liberdade de expressão artística (art. 5º, CF/88), sem menção a terceiros identificáveis.

O preço de escrever com a alma



Apagando, escrevendo, apagando de novo.

Um monte de ideias e colocações embaralhadas. Um pouco de sol entre nuvens lá fora, e aqui dentro, uma inquietação silenciosa entre ser verdadeiramente quem se é — independentemente das críticas — ou se sufocar mais um pouco, como em tantos outros momentos da vida. 

Talvez seja isso que aconteça quando se abre o coração: o hábito de guardar tudo, dos sentimentos bons aos ruins, começa a se desfazer. E ao dividir um fragmento de dor, percebe-se que ela ecoa em outras pessoas — umas sentem, outras ignoram. E isso faz parte.

A escrita, no fundo, é um ato solitário. Nunca foi sobre aplausos ou seguidores, e sim sobre ter companhia nas próprias ideias. Nunca pareceu crível imaginar fãs, até porque nunca houve pretensão de ser exemplo para ninguém. Escreve-se por necessidade, por vontade de criar um mundo mais leve, um cantinho especial onde a realidade doa um pouco menos.

Ser chamada de escritora ainda soa como algo grande demais. Um título que parece pressupor uma maturidade que talvez ainda esteja sendo construída, uma responsabilidade artística que exige mais do que se pode dar agora. E mesmo assim, continua-se. Com a certeza de que nem todos vão gostar, de que o caminho é longo, de que há muito a aprender — e de que a excelência ainda está distante, mas não fora de alcance.

Se pudesse escolher um legado, seria o de contar histórias que acolham, emocionem, divirtam. Às vezes bate o medo de perder a imaginação, de não ter mais nada de bom a oferecer. Mas enquanto houver alma, haverá palavras. E com elas, o desejo de seguir criando.

Curitiba, 31 de janeiro de 2015.

Lavanda e fúria 🪻 👁️

 



Olhos que sabem demais. Escuros. Profundos. Parecem guardar noites insones inteirinhas. Escudo de uma alma que já viu de mais e falou de menos.

Olhos que brilham sem cílio postiço que a deixariam com cara de ressaca. Desviam da multidão sem um tiquinho de aflição e desejo de “agradar”, embora não tenha sido sempre assim.

Caderneta de um quase-cisne 🔮


O vento soprava forte naquele final de tarde de nuvens cinzentas e pesadas como toneladas incontáveis de chumbo. Os punhos da jaqueta preta cheiravam a costela assada, os dedos trêmulos deslizavam pela tela do celular, o corpo soluçava de tanto frio. 
Um dia inteirinho condenada a enrolar bolinhos de costela, um por um, pesar na balança e colocar noutra cuba. Na câmara fria. Sozinha. Por longas horas, alheia ao mundo, as mãos já não aguentavam mais executar aqueles movimentos repetitivos.
Quatro camadas de cobertor ainda seriam insuficientes para aquietar a aridez de uma alma desconectada de si. Os goles de chá quente tentavam o aterramento; o pior já havia passado. Diziam-lhe que aquele momento de sua vida era só uma travessia, não a jornada inteira.
Seu erro tinha sido desacreditar de seus sonhos ou ter acreditado cegamente nas emendas do impossível?
Quaisquer interpretações serviriam apenas para atormentá-la ainda mais. A história parecia estar presa a um capítulo interminável, mas ainda havia muitas folhas em branco que a escuridão a impedia de ver. Numa madrugada de inverno, com poucas perspectivas, escondida sob quatro camadas quentes de solidão, seria até estranho fingir normalidade, nem teria motivos para tal, não seria justo...
A saída mais imediatista era aquela, que não vinha antes de uma conclusão dolorosa. Quem dera conseguisse chorar, expurgar a raiva, o desgosto, esboçar alguma reação humana que não fosse o catatonismo embaraçoso de quem parecia não se importar com nada.
Era uma dor diferente, carregava consigo o cansaço de tentar mudar o próprio destino e ser traída por ele, trazida de volta para a roda-gigante que sempre insistia em parar por baixo. Não podia ser resignação, não quando a poesia ignorada ainda hesitava ao toque carinhoso da ponta dos dedos. 
Aqueles trocados custavam caro para a dignidade, mas não havia nem uma outra porta aberta para debandar; precisava disciplinar o olhar para não focar na imensidão, na derradeira queda livre... Já havia desistido demais... e de si.
Os olhos pesavam na penumbra... ah, eles ainda sabem falar... e gostariam de contar segredos que não cabem naquela letra espirrada numa caderneta escondida dentro da pochete preta, entre contagens de bebidas e o desejo de reencontrar a inspiração...

De você


Escrito em um momento de grande introspecção e transformação, este texto reflete sobre os desafios de lidar com mudanças, superar traumas e escolher o amor e a empatia como caminhos para crescer.

Inadequada, autêntica e indomável

A menina com pulseirinha de ábaco


Era uma terça-feira amena quando Clara completou 10 primaveras. Ganhou da mãe um caderno de recordações, onde foi chamada de “menina-moça” — uma expressão que parecia capturar aquele momento de transição, entre a infância e algo que ela ainda não compreendia bem. 

Clara adorava brincar de boneca, de bola, de pique-esconde. Explorava territórios imaginários, onde era uma condessa acompanhada de um cachorrinho fiel, e se deliciava com bolachas recheadas, sorvetes, bombons e pizzas. Ela amava ganhar brinquedos e, mais do que tudo, criar histórias.

Rabiscado a lápis

 

Muitas vezes repeti a mim mesma não me importar com os pensamentos alheios a meu respeito, acreditava lidar bem com meus próprios medos. A estratégia defensiva visava escapar de um inoportuno sofrimento.
Quem nunca tentou?
Quem nunca precisou ser forte?
Sem olhar para trás, disse adeus e ninguém me respondeu, ninguém sentiria a minha ausência.
Cansada de ser julgada, difamada, maltratada.
De ser o melhor que cabia ser e não bastar.
Implorar pelo amor alheio e estar sempre em último plano.
Cansada de entrar na vida dos outros “tarde demais”, ser lembrada por dar um ombro amigo nas adversidades e, em contrapartida, aprender a chorar sozinha.
De ser apenas mais um número em muitas contas.
Cansada de mim.
O fardo era maior do que a resistência. Ainda assim, segui. Impus-me a um ritmo mais lento, apenas desejava chegar a algum lugar, encontrar um cantinho confortável para permanecer o maior tempo que pudesse, sem levar minhas culpas junto, fruto de escolhas impensadas, impulsivas, originadas em um profundo sentimento de carência.
Eu precisava de mim mesma.
Ao meu lado, um caderno e dúvidas à parte. Rabisco a lápis para não ter medo de corrigir.
Faz parte do jogo.
Eis que falei sobre você, inadvertidamente, tentando não deixar claro que tudo mudou antes que pudesse haver rendição ou qualquer gesto semelhante.
Não sobrou tempo.
O caminho era aquele.
Era você.
A presença que me preenchia.
A ausência que secretamente eu dava pela falta.
Um nítido verso reescrito para caber em um tímido olhar.
Depois de tudo.
Logo após jurar que manteria distância de problemas.
Pois bem, havia um inconveniente, uma curva. Eu não podia controlar a velocidade com que os pensamentos se propagaram. 
Não tive o mínimo de chance para dizer não.
Sempre foi sim.
Foi você.
Em negrito ou sublinhado para reforçar a importância.
Sei lá.
Desordenando os parágrafos, remontando teorias, desmontando outras, disfarçando o pulsar de um coração partido com as responsabilidades, dividindo minha dor com um público que não conhece o seu nome, mas tem ciência da sua relevância nas linhas tortas as quais o dom se aprimora, seja para passar despercebido ou não, seja para nunca te entregar o meu coração, embora não me reste outra alternativa a não ser colocar em pratos limpos, com franqueza aceitar ou pelo menos mentir um pouquinho mais dizendo que confio nas artimanhas do destino e pacientemente me servir de mais esperança, nem que seja para seguir fisicamente viva.
Quem nunca desejou apagar essa encruzilhada?
Respostas, meu reino por apenas uma.
Preciso aprender a perguntar.
Nas minhas notas mentais lembrar-me sem falta de mandar o orgulho se catar e parar de bancar o sabido.
E escrever uma nova história, se preciso for. 
O final feliz é opcional. 
Se há final, feliz não é.
A alegria é urgente e imediata.
O amanhã tem preocupação e ela não divide espaço com mais ninguém.
Sim ou sim, ela admira os determinados, anseia pela coragem dos desavisados e vibra na direção dos indecisos para que eles deixem de sê-lo ou abram uma pequena concessão para não perderem o senso de humor.
Depois de te conhecer, meus versos não querem fazer sentido, querem a chance de existirem.
É esse o caminho.
Tragá-los.
À revelia.
Sem amarras.
Inflados.
Recortados.
Recontados.
Discordáveis.
Subentendidos.
Intimamente universais.
Secretos por serem seus, sensíveis sem perderem a conexão com a inspiração.
Equivalentes ao beijo de amor ainda não beijado, no entanto, o vento soprou e trouxe-me a saudade de um sonho que não sei se foi ou algum dia será a minha realidade.

Curitiba, 30 de outubro de 2014.

Destrinchando a Letra | Moments of Love — Cathy Dennis

Depois de revisitar uma das músicas mais marcantes de Confissões de Laly na última edição do Destrinchando a Letra , resolvi aproveitar o e...