25 de abril de 2002.
Tudo que poderia dar errado na apresentação, deu. Andréa foi repreendida várias vezes por falar baixo, eu gaguejei olhando para o sargentão de saias, Rodrigo usou gírias para explicar o conteúdo e emitiu juízos de valor, descendo a lenha na Igreja Católica — ainda bem que a D. Arlete não estava lá para ouvir, Júlia se empolgou com o assunto e Priscila não segurou a crise de riso. Resultado: fomos esculachados pela velha coroca e ficamos de castigo até às 13h, que nem naquelas detenções de filmes norte-americanos.
Pri teve dor de barriga no intervalo e pediu-nos para acompanhá-la no banheiro em razão de um trauma: quando estava na 5ª série, precisou fazer o número 2 no colégio. Quando olhou para cima da cabine, viu as meninas da sala dela ao lado, rindo. Foi apelidada de cagona pelos outros colegas e passou por uma barra bem pesada. Desde então, seja para o número 1 ou não, ela convida as amigas para não ir sozinha.
“Sempre que estou nervosa demais, sinto vontade de cagar.”, justificou Pri.
“Ué, todo mundo caga e nem sempre é possível segurar até voltar para casa.”, disse Júlia.
Não há nenhum problema nisso. Evacuar é uma necessidade fisiológica inerente aos humanos e animais e iguala todo mundo. Pessoalmente, não gosto de fazer o número 2 fora de casa, sempre sinto aquela vergonha boba de alguém reclamar da “demora”, do cheiro ou achar que isso me diminui enquanto pessoa.
Por outro lado, apesar do esculacho, estamos aliviados até meados de junho, quando teremos outra pedreira pela frente. Estamos deixando para sofrer quando chegar a hora, não adianta sofrer por antecipação, considerando que não sou o melhor exemplo porque já perco o sono imaginando mil e uma possibilidades de desastres, talvez porque a vida sempre me traz surpresas desagradáveis, como descobrir numa manhã de segunda-feira que a melhor amiga morreu, ficar menstruada pela primeira vez no pior contexto possível, ser expulsa de casa por conta de um boato e sofrer preconceito desnecessário.
Sim, comparado aos últimos anos, este está sendo mais leve, legalzinho, mas o medo ainda mora no meu peito. Medo de que os meus amigos um dia trombem com a Cássia e ela os convença com as calúnias, de eles saírem do colégio, de ser eleita (de novo) a menina mais feia da turma e sentir angústia todo domingo à noite.
Tenho uma relação de amor e ódio com as sextas-feiras: amo acordar mais tarde no fim de semana e odeio passar esses dias em casa porque é impossível prever quando mamãe acordará disposta a implicar comigo por qualquer motivo, por mais estúpido que seja. Na semana passada, saí da aula e fui para a casa do papai, contudo, hoje não deu para fugir porque ela foi me buscar no portão, sendo que meus amigos planejavam almoçar no shopping e pegar um cineminha para desanuviar.
“O que foi, hein?”, gritou Meire quando o carro virou a esquina do colégio. “Esqueceu-se de que tem casa, que tem mãe? Não estou gostando nadinha de você estar largada por aí como se fosse filha de chocadeira. Vive de segredinhos, não me dá satisfação de nada e ainda quer que eu aceite as imundices que você anda fazendo por aí?”
“Dá um tempo, mãe.”
“Quem dá tempo é relógio!”, debochou ela. “Quem não deve, não teme!”
“Para com esse papo baixo astral. Tudo que estou tentando é ser uma adolescente normal. Por acaso isso é pedir muito?”
“Cuidado, pois logo as mães das suas namoradinhas começarão a desconfiar de tanta intimidade e eu serei chamada na diretoria por ter uma filha pervertida. Com que cara eu vou encarar os nossos conhecidos e amigos?”
“Eu sempre soube que você faz mau juízo da minha pessoa, mas às vezes eu me calo porque me faltam argumentos para rebater tanta sandice vinda de uma mulher mais velha. Você fala com tanta propriedade das supostas imundices, por quê? Porque você tinha o costume de ficar trancada com as amiguinhas fazendo troca-troca? Não acredita que meninas possam ser amigas sem segundas intenções?”
Fui respondida com uma cotovelada no olho esquerdo e passei o resto do dia de castigo. Ela trancou a porta do quarto para fora e colocou um cadeado na janela, ameaçando me tirar do colégio para me “disciplinar”. No entanto, quando o Horácio voltou do trabalho, destrancou a porta e eu, chorando, abracei-o.
“É desse jeito que você quer conquistar o amor da sua própria filha, Meire?”, pressionou Horácio, irritadiço. Sinto que ele está prestes a chutar um balde. Não é um palpite bobo, não. Está escrito no olhar dele. Nem posso criticá-lo porque se fosse maior de idade e tivesse para onde ir, faria o mesmo.
“Não se intrometa no jeito que eu crio a Renata.”, devolveu a troglodita.
Meire tentou arrancar o telefone das minhas mãos e, pela primeira vez, sem intenção, reagi. Tudo bem, só empurrei os braços dela, que só faltavam me estrangular e foi o estopim para um dramalhão que deixaria a diva das novelas mexicanas duvidando do próprio talento.
“A partir de hoje vou dormir só de porta trancada…”, escandalizou mamãe. “Tenho uma psicopata em casa, capaz de tudo, até de bater na própria mãe.”
“Eu não te bati, só empurrei seus braços porque você tentou me estrangular. Apesar de você ser a pior mãe do mundo, não jogo o seu jogo. Passar bem!”
Não escapei de uma (nada bela) surra e ainda ouvi que terei de ir à aula amanhã com esse olho roxo e toda machucada para mostrar às “namoradinhas” o que acontece com as “meninas más”.
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