Mary Recomenda | Dentro da noite veloz - Ferreira Gullar


O Mary Recomenda de hoje vem com o pé na porta, mas por uma boa razão: a indicação de hoje, definitivamente, não é para os fracos.


Para ler Ferreira Gullar, é preciso primeiro abandonar a ideia de que a poesia serve para nos ninar. Gullar não escrevia em torres de marfim. Em “Dentro da Noite Veloz”, ele nos mostra a transição dolorosa de um artista que saiu do rigor da forma para deixar a realidade brasileira, com toda a sua “sujeira” e urgência, invadir os seus versos.

Este livro é um diário da nossa história. Nele, acompanhamos o Gullar que era o rosto do CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE em 1963, acreditando piamente que a arte poderia salvar o povo, sendo bruscamente interrompido pela noite da ditadura. Ao ler a obra na sequência, a gente sente o choque: passamos do entusiasmo revolucionário para a perplexidade do golpe e, finalmente, para a melancolia reflexiva do exílio.

A Bomba Suja e o fim das metáforas delicadas

Gullar faz algo corajoso aqui: ele “pega Drummond pelo braço” e diz que a flor de 1945 já não basta para o Brasil de 1970. Se Drummond via uma flor nascer no asfalto, Gullar vê a fome. Quando ele escreve “A Bomba Suja”, ele está avisando: o mundo é urgente demais para metáforas bonitinhas.

Bebendo da fonte de Maiakóvski e Augusto dos Anjos, Gullar assume que a poesia deve falar do que é concreto — inclusive das fezes, do lixo e da miséria. Como ele mesmo sugere: se a realidade está suja, a poesia não pode fingir que é um jardim.

O “Poema Brasileiro” e o soco no estômago

Um dos momentos mais devastadores do livro é o “Poema Brasileiro”. Sem usar adjetivos rebuscados, Gullar apenas repete a estatística: a mortalidade infantil. Ele obriga o leitor a ler o dado duas vezes para que a tragédia não passe batida. É a poesia usada como alto-falante social, denunciando que a identidade do Brasil, naquele momento, era a desigualdade pura e dura.

Minhas impressões: “Dentro da Noite Veloz” é um livro que exige coragem. Ele nos tira o conforto e nos joga no epicentro de um Brasil que muitos preferem esquecer. Para quem, como eu, busca uma literatura que agregue e que tenha “pé no chão”, Gullar é fundamental. Ele prova que a maior vitória de um escritor não é a perfeição da rima, mas a capacidade de não se calar diante da noite.

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