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Depois dos 25 | Ponto de não-retorno

 


Se já escrevi, não lembro quando, mas não é a primeira vez que me questiono o porquê de a nostalgia Y2K resgatar e reciclar o que tinha de mais abjeto naquela longa década. Permaneci alguns segundos dramáticos fitando a tela, tentada a apagar essas ideias ridículas e pelo menos tentar seguir o tal fluxo, abraçar a nostalgia e ignorar a podridão varrida para debaixo do tapete.

A ressaca da maturidade

 


Tenho pensado nesse assunto com uma frequência assustadora. Aprendi a fingir sem nenhum tutorial; nunca pareci estar tão bem. Eles elogiam a postura serena e resignada porque eu já não brigo mais com os fatos. Vivo cada dia na esperança de ser o último.

a maior liberdade é viver para superar nossos próprios medos, não as expectativas dos outros


Ao longo da vida, aprendi que não devemos viver com o peso de provar quem somos a quem não está disposto a ouvir. Gostos, crenças e preferências são escolhas profundamente pessoais, que não precisam ser validadas ou justificadas. Seja gostar de Chaves, fofurices, usar allstar, preferir rock ao sertanejo, ou mesmo não gostar de algumas coisas. Seja acreditar em Deus sem seguir uma religião ou apreciar a literatura com a liberdade que ela propõe, tudo isso faz parte da autenticidade de cada um.

É curioso como, em tempos de tanta informação, ainda haja indivíduos incomodados com personagens fictícios, submetendo-os a rigorosos julgamentos como se fossem reais, condenando-os segundo os critérios do moralismo de fachada. Segundo Roland Barthes, a literatura nos atribui o privilégio da licença poética, aquele espaço onde os personagens existem além do moralismo da realidade, como espelhos de nossas complexidades. Criticar ou sentir inveja de uma personagem literária é um reflexo de quem observa, não de quem escreve.

Por que, então, continuamos presos à necessidade de agradar ou convencer? A resposta, talvez, esteja no valor que damos à opinião alheia, quando, na verdade, a maior liberdade é viver para superar nossos próprios medos, não as expectativas dos outros.

Aos que ainda gastam energia tentando colocar etiquetas na vida dos outros, um lembrete: viver com autenticidade é um ato revolucionário. E para aqueles que insistem em condenar o que nem existe, talvez seja hora de refletir — não sobre quem apontam o dedo, mas o incômodo projetado no reflexo da ficção.

A vida é curta demais para dar palco ao que não agrega. Que possamos seguir caminhando com nossos próprios sapatos, sem nos preocupar com os calçados dos outros.

O elefante no casulo



O vento me direcionou para esse caminho outrora familiar. Conheço cada buraco dessa estrada, cada pedra no acostamento, cada grão de poeira que faz os olhos arderem e o ar estar carregado daquele essência de desilusão. Quando me perco nesse afã de encontrar um lugar para de meu chamar, basta fazer o retorno. A escuridão nunca me bombardeia com demasiadas perguntas.

Editorial OCDM | O preconceito de não seguir a onda:

 

Quando Pedro Bial se referia aos participantes do BBB como “nossos heróis”, a pergunta que surgia sempre era: heróis de quê? Eles estavam confinados em uma casa, vivendo suas experiências privadas, enquanto o mundo lá fora precisava de heróis reais: médicos, voluntários, pessoas que enfrentam guerras e desastres naturais. O heroísmo verdadeiro não aparece em reality shows, mas no trabalho invisível de auxiliar o próximo.

Terças com Tita (no domingo, sim) | 2006 já faz 20 anos



Sandy Leah cantou muito bem sobre ter grandes sonhos, as costas doerem, ser jovem demais para ser velha e velha demais para ser jovem. Há anos vivemos nesse limbo paradoxal, mesmo que cada geração vivencie uma época da vida em um contexto bem diferente do que o dos pais e avós.

Com a mesma idade, minha avó tinha uma casa própria. Mamãe tinha uma filha adolescente e um veículo velho na garagem. Eu mal tenho uma casa para chamar de própria. Quanto aos filhos, só os de quatro patas e, olhe lá; não está fácil mimar a cambada.

Parem de nos matar



Eu não sabia a melhor forma de começar, mas optei pela franqueza. O assunto hoje é muito sério e diz respeito a todas nós, pouco importam quais sejam as nossas diferenças. Somos todas mulheres e, portanto, corremos o mesmo risco de perder a vida por sermos quem somos.

Rebelde sem causa?

  

Escrito em março de 2017, este texto nasceu de reflexões profundas sobre autoconhecimento, resiliência e a luta por autenticidade em um mundo que frequentemente impõe padrões inalcançáveis. Hoje, ao revisitar essas palavras, vejo nelas não só um desabafo do passado, mas uma mensagem poderosa e atemporal para quem busca força e liberdade interior.  

Quando a boba alegre dá com o pé na porta

 

Tenho receio de nunca mais sair desse labirinto escuro e espinhoso, onde cada passo tem o peso proporcional ao tamanho da queda do alçapão moral. Uma conquista que deveria ter aberto muitas portas atirou-me no limbo da cova dos leões, onde meus sonhos foram devorados antes do banquete principal. Escolhi não falar sobre isso por muito tempo, como quem esconde uma vergonha insustentável, mas há verdades que não podem ficar encobertas, sobretudo quando elas afetam diretamente a minha existência e colocam-na em risco.

Obstinada a tornar-me invisível aos perseguidores e odiadores de plantão, tentei fugir do meu destino, por isso abandonei a escrita por alguns anos, mesmo que não de todo. Decidi me redimir do passado, voltando ao curso que larguei, tudo para me contentar de que quebrei a cara por sonhar demais, por querer aquilo que poderia jamais estar ao meu alcance… entretanto, minha decisão não tornou a realidade mais fácil de engolir. 

Muito pelo contrário, eu diria.

O silêncio não calou os odiadores, nem tentar ser a versão palatável de mim mesma trouxe a paz e o conforto que eu buscava. Sim, ser a mocinha quietinha, excluída, que não se posiciona, não se respeita, não se prioriza, aceita qualquer migalha de atenção para estar num grupinho onde precisa se podar para caber. 

Não, obrigada. Ser a boba alegre que fala o que os outros querem ouvir não combina comigo, como também não é sair por aí vomitando amargura no colo de quem só está tentando se manter de pé. Existe um meio-termo, estou em busca dele, vocês sabem, ser fiel aos meus valores, aos desejos que ainda me fazem suspirar, dosar benevolência e respeito com a firmeza de caráter, sem ofender nem subjugar ninguém.

O maior crime que cometo, na visão de alguns, é continuar respirando. Ponto. 

Cirúrgica, sim. Direta. Sem mimimi porque não tenho paciência. Passar pano, só se for no chão, para deixar o ambiente mais agradável. Para quem merece, não mais. Porque na hora de me julgar e me ridicularizar, sou atirada ao banco de condenação sem sequer ter a chance de me defender. Não faltam pessoas virando as costas para falar mal, caçoar, arremedar, riscar o fósforo.

Não estou vivendo de passado, somente colocando os pingos nos is. Muita gente em seu devido lugar, bem longe da minha vida. Só me arrependo de não ter entendido muito antes que eu não preciso de quem sempre fez pouco-caso, me deixou chorando e esperando, me chutou quando eu já estava sangrando no chão.

 

O veneno também cura (manifesto de quem cansou de agradar) 🐍 🕷️ 🖋️

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."
— Clarice Lispector 


Essa história não é sobre perdão e superação, tampouco terá frases genéricas para entulhar as redes sociais de falsas pílulas de autoajuda. É sobre uma pessoa disposta a abraçar as próprias sombras, recolher as cinzas das asas quebradas e lembrar de cada pessoa que me empurrou nesse abismo — porque quero ver a queda de um por um, no alto do meu camarote.

Não tenho vocação pra ser boba alegre. Gratiluz é o caralho. Tenho ódio, raiva e mágoa pulsando na mesma frequência do amor. São apenas as duas faces da moeda tomando as rédeas da minha vida, enfim.

O mundo não evoluiu com o silêncio autoimposto. Só ficou carente de uma voz sensata e lúcida, capaz de representar os que ficam à margem da hipocrisia — onde as luzes dos holofotes nunca chegam de verdade, na incômoda penumbra dos desvalidos de popularidade.

Terças com Tita | Quando eu era só semente, ninguém me regou




Não é só tristeza, nem mágoa gratuita, nem vontade de arrumar treta ou fazer acusações. Tem ares daquele cansaço que se instala devagarinho, preenchendo o corredor vazio com um silêncio insuportável, onde consigo ouvir as batidas do meu coração agitado e inquieto.

Terças com Tita | Escola: berço do saber ou palco de sofrimento?


Por Tita | Os Cadernos de Marisol 

Os momentos mais alegres da minha infância e pré-adolescência não aconteceram dentro dos portões da escola. Para muitos, a escola deveria ser o lugar de inclusão, tolerância e aprendizado — não somente acadêmico, mas também social. Um espaço onde crianças e adolescentes aprenderiam a conviver com as diferenças, a respeitá-las e a praticar a tão necessária empatia.

Nina Contra o Mundo | A mulher invisível: quando a inteligência é vista como desvantagem no amor

 


A mulher invisível: quando a inteligência é vista como desvantagem no amor
📌 Por Nina | Os Cadernos de Marisol

Você já se sentiu invisível?

Não por ser tímida. Nem por falta de charme. Mas por ser… inteligente.

Quando a vida nos presenteia com sensibilidade, pensamento crítico, olhar analítico e uma certa acidez bem-humorada, parece que também nos pune com a solidão. Não faltam elogios à nossa “inteligência”, “maturidade”, “brilho próprio”. 

Por que esses elogios vêm sempre de pessoas que nos descartam como opção amorosa?

Não escrevo para agradar, escrevo para existir 📣

 


Por Mary Luz

“Eis o lado ruim de ser escritora: estar vulnerável a todo tipo de leitor, alguns olhares completamente alheios ao que realmente foi dito.”

Barriga negativa e o peso da superficialidade

O intelecto está de barriga vazia, e a obsessão pela estética nos conduz ao ápice da estupidez e intolerância.


Em tempos de onde modismos vêm e vão, a busca pela aparência “perfeita” parece estar conduzindo a sociedade a um ciclo interminável de tendências vazias. Sejam os padrões de barriga negativa, músculos à mostra, ou as dietas extremas que prometem resultados milagrosos, a prioridade da estética sobre o caráter nos desafia a refletir: até onde estamos dispostos a ignorar o essencial por aquilo que é passageiro?

Por que eu não suporto o que todo mundo ouve?


Por que eu não suporto o que todo mundo ouve
(um desabafo em tom menor)

Eu não sou feita de barulho.
Nunca fui.
Enquanto o mundo gira ao som de batidas que mais parecem buzinas emocionais, eu sigo procurando silêncio, pausa e letra que me respeite.

Hamsters: pequenos no tamanho, gigantes no amor 🐹❤️



🖋️ Por Os Cadernos de Marisol

“Pequenos no tamanho, gigantes no amor.”


Muitas vezes, para quem vê de fora, os hamsters parecem bobos, inúteis, criaturas pequenas de vida curta, correndo em suas rodinhas patéticas.

No entanto, para quem compartilhou momentos de carinho e convivência com eles, os hamsters são muito mais do que isso.
Eles são amigos que nos ensinam sobre a fragilidade da vida, o valor dos pequenos momentos e, acima de tudo, sobre o amor incondicional — aquele amor raro que tantas vezes falta nas relações humanas.

Minha jornada com hamsters começou em 2014, com o Matt.
Desde o nosso primeiro encontro, ele me mostrou o que significa dedicar-se ao amor e à amizade de uma forma simples e genuína.
Aquele pequeno roedor, com sua energia tranquila e seu olhar curioso, foi o primeiro a me ensinar que o tempo é um mero detalhe quando se trata de deixar uma marca eterna.

Matt não foi somente um animal de estimação: ele foi um companheiro, um amigo que transformou minha vida de um jeito que eu jamais imaginava.
E a partir dele começou uma jornada de aprendizado e amor com cada hamster que cruzou meu caminho.

Cada um deles trouxe muito mais do que fofura.
Cada hamster, com sua personalidade peculiar — seu jeito de brincar, correr na rodinha, pedir carinho — me ensinou lições valiosas sobre paciência, compaixão e sobre o verdadeiro significado de viver intensamente, mesmo que por pouco tempo.

Sim, essa jornada é feita também de perdas e saudades.
Mas, acima de tudo, é feita de memórias inesquecíveis que jamais serão apagadas.
Matt, Flocão, Cocada, Belê e tantos outros continuam vivos dentro de mim.

Eles não foram apenas pets: foram e parte da minha família.
Cada um, com seu jeitinho único de se entregar à convivência, deixou uma marca profunda em meu coração.


A necessidade de uma nova perspectiva sobre os hamsters

Para muitos, um hamster é apenas um roedor.
Para mim, eles são pequenos seres de luz, com brilho próprio.

Me recuso a vê-los como simples objetos de entretenimento.
Eles nos ensinam o valor da simplicidade, a importância de apreciar o que temos e, sobretudo, a beleza de sermos amados por alguém que só pede nossa presença e cuidado.

Meus hamsters me mostraram que a vida é preciosa e que cada encontro deve ser valorizado.
Eles podem viver pouco, mas a intensidade do amor que oferecem supera qualquer despedida.

Não posso deixar suas memórias se perderem.
Eles merecem ser lembrados com carinho, respeito e gratidão.


Histórias que somam

A cada hamster que cruzou minha vida — e que partiu cedo demais — dedico meu mais profundo amor e eterna saudade.

A perda dói, mas a verdadeira tristeza seria nunca ter vivido esses momentos.
Cada um, com sua personalidade única, fez minha vida mais rica e mais completa.

Foram meus pequenos grandes professores sobre o que é amar, cuidar e valorizar cada instante.

Deixo aqui meu manifesto:
Que todo hamster seja reconhecido como um ser digno de respeito, amor e gratidão.

Eles não são “só roedores”.
São amigos que nos ensinam a ver o mundo de maneira mais bonita, a valorizar a simplicidade e a nos entregarmos sem medo ao amor verdadeiro.

A quem não entende o significado de amor incondicional… sinto muito.
É uma perda muito maior do que parece.

De Matt a Belê e Cocada, vocês estão para sempre vivos no meu coração. 🐹❤️

Crônicas Desbocadas | A escolhida e a esquecida

 Crônicas de uma atendente cansada de ouvir que a vida é justa para quem “merece”.


Tem gente que nasceu com o cabelo certo, a pele lisa, o nome que soa bem até quando o vento sopra. Gente que tem um sorriso no canto da boca, mas um mundo inteiro dobrado aos seus pés. Gente como ela. 

A influencer que minha mãe segue com devoção quase religiosa, a quem chamarei aqui de “a Escolhida”, porque é assim que ela parece se sentir: escolhida por Deus, pelo algoritmo e pelo marido — um sujeito manso, prestativo, que vive se dobrando para atender aos caprichos dela.

A Escolhida é branca, magra, de cabelo escorrido como comercial de xampu. Mora no interior de São Paulo, numa casa que mais parece cenário de novela da Globo, e começa os vlogs dizendo: “Ai, gente, desculpa estar meia desgrenhada hoje” — mesmo com filtro, maquiagem impecável e short de alfaiataria. Diz ser simples, mas não sabe o preço do arroz. Vai ao mercado comprar “besteirinhas” e volta com três tipos de taça, oito coberturas para sorvete e tudo mais que tiver direito.

Ela não lê livros. Não cursou faculdade. Nunca pegou fila no SUS. Nunca apertou o botão errado da catraca do transporte público porque não sabia se a tarifa tinha mudado. Entretanto, é “abençoada” por não se humilhar por uma miséria na escala 6x1, porque tudo que recebe — e que posta — é “Deus honrando” sua fidelidade. Até o fogão novo (porque enjoou da cor do antigo), segundo ela, foi “presente do céu”. Mal sabe a sebosa que seu céu tem o nome do marido e CPF dele na nota fiscal parcelada.

Ela aparece lavando louça, só para fazer charme e se dizer "gente como a gente", e o marido vem por trás, tenta abraçá-la. Ela ri, diz “Ai, sai daqui, seu gordo!” com aquela risadinha sem graça, deixando o coitado constrangido em rede nacional. Ainda assim, ele continua apaixonado. Monta móveis, edita vídeos, embala surpresas de Páscoa e grava com o maior sorriso do mundo quando ela o manda calar a boca. Amor assim só se vê em filmes... de terror psicológico.

Tem dias em que ela chora durante o devocional — não por arrependimento, mas porque ainda não conseguiu a publi de alguma marca renomada. Diz sofrer porque não tinha sequer um frasco de perfume antes do marido. O sofrimento dela é não ser a Virgínia. 

Ela diz que doa amor, mas não doa móveis. Tudo é vendido — até o berço do filho que já não usa. Porque crente que se preza, segundo ela, não se apega. Só fatura.

Enquanto isso, do outro lado da tela, estou eu.  Fardada de colete feio que gonga a aparência, com os pés latejando, a lombar estourada, tentando disfarçar o cansaço, sorrindo para madame véia mal-humorada que desconta em mim se o time perde ou empata, como se fosse culpa minha que o preço dos comes e bebes sofreu reajuste. Na Páscoa, os colaboradores não ganham nem um simples bombom com frase de almanaque. 

A vida, para algumas, é chocolate importado. Para outras, é o amargo da comparação.

Tem gente que sofre e doa o que pode. Que se contenta em ver o outro feliz com o mínimo. E tem quem ostente até a tristeza, ensaiando lágrimas diante da câmera porque não virou capa da VOGUE Evangélica.

E então, como se o altar do consumo precisasse de mais uma oferenda, ela anunciou — com o mesmo tom doce de quem conta uma revelação celestial — que trocou a cama de casal. Não porque quebrou, não porque precisava, mas porque “tava enjoada, gente”. E o maridinho, claro, correu para comprar a mais cara da loja, como um cordeiro devoto a um altar que nem sequer sabe se é amado de volta.

O curioso — ou revoltante, mesmo — é que ela não doa nada. Nada. Tem mães de verdade, com muito menos, que separam os brinquedos das crianças, as roupas que não servem mais, e dão com alegria, com gratidão, com fé em algo maior que o próprio umbigo. 

E o devocional? Continua. Falar o nome de Deus em vão está em alta, dá engajamento. O cabelo, claro, segue escorrido. Porque frizz é pecado. E quem tem não tem cabelo esticado, quem sua, quem engorda, quem tem olheira, quem sofre calada, não tem uma aliança grossa na mão é só mais uma das outras. As esquecidas.

Eu sou uma dessas.

Sou a que vive tentando ver beleza onde o mundo só vê falha.

Sou a que ri sem ter vontade, porque tem gente por perto.

Sou a que se cansa de fingir que está tudo bem, mas finge mesmo assim.

Ela não é simples, e sim o produto final da fábrica de vaidade digital, disfarçada de evangelho, embalada para presente em reels de supermercado com trilha fofa e maridinho acenando no fundo. E enquanto segue vendendo até os cabides da casa para fazer caixa e comprar outra cafeteira “porque agora eu gosto de outra cor”, a gente aqui se pergunta: até quando o mundo vai premiar esse tipo de gente?

E o pior é saber que ela não está sozinha. Que há todo um sistema que alimenta essa farsa, que recompensa o falso brilho, que transforma arrogância em estilo de vida. E a gente, que só quer existir com dignidade, fica no limbo, esperando que um dia vejam valor onde não há filtro. Porque a gente também ora. A gente também ama. No entanto, o que a gente tem não vira publi. Não viraliza.

Ainda tem um pedaço meu que não desiste. Porque, talvez, um dia, Deus olhe para mim com o mesmo filtro que ela usa nas fotos. E diga: “Agora é a sua vez.”

Mas até lá… eu que lute.

— Nina

(a gata borralheira do reino da desarmonização, anti-clean girl)

Cinco anos sem você, vó

Não parecia um autêntico sábado de verão. Mal começou e ficou suspenso num tempo indefinido entre tudo que acabou e tudo que jamais voltará ...