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Quando a beleza mata: reflexões sobre a estética do retrocesso


Há quatro anos, li uma reportagem sobre o retorno das calças de cintura baixa, impulsionado pelo revival da estética Y2K. Para muitas de nós, mulheres que cresceram naquela época, esse revival traz à tona um ciclo de padrões antigos que continuam a afetar a forma como somos vistas. 

A obsessão por cabelo liso extremo e um corpo esquelético ainda ressoam como uma ditadura silenciosa, que levou muitas de nós a adoecer na tentativa de atender a esses padrões. O número do manequim, como sempre, continua sendo o critério de aceitação, e isso é preocupante.

Houve uma lufada de esperança com o advento do movimento body positive, que prega a autoaceitação do próprio corpo, nos ajudando a expandir nossas percepções sobre beleza e valor. Parecia que o mundo estava demonstrando uma transformação profunda em relação a isso, que nesses tempos sombrios, a resistência se levantaria em favor de uma realidade mais saudável, onde cada uma seria seu próprio padrão.

A ideia aqui não é demonizar a busca por uma melhor qualidade de vida e bem-estar. É sobre refletir que o retorno da tendência Y2K veio com mais força, trazendo de volta não só as calças de cintura baixa e a ditadura do cabelo liso, mas também uma forma sorrateira de aprisionar a mulher, frear seu empoderamento e minar sua autoestima.

Não é coincidência. Naomi Wolf, em seu livro O Mito da Beleza, já apontava que os padrões de beleza muitas vezes se intensificam justamente quando as mulheres conquistam avanços sociais. Segundo Wolf, quando as mulheres ameaçam romper barreiras e ocupar espaços antes negados, o sistema responde criando novas formas de controle — e a beleza, nesse cenário, se transforma em mais uma prisão.

Até mesmo os critérios para ser considerada magra são mais cruéis do que há duas décadas: hoje, é preciso parecer um cadáver ambulante com shape de academia. Não à toa, a “canetinha mágica” se popularizou mais do que deveria. Embora tenha um propósito legítimo no tratamento do diabetes, seu uso foi banalizado, graças à exposição de artistas que são mais valorizadas na mídia pela "boa forma" do que pela mensagem que deveriam deixar aos fãs.

Para quem viveu aqueles tempos horríveis, tem sido pavoroso estar no meio desse fogo cruzado de cobranças e pressões. Como se ser mulher já não fosse tortuoso o bastante — enfrentando o medo constante de ser violentada e vivendo num mundo feito para os homens —, o controle sobre nossos corpos se mostra um atentado contra a criatividade e a autenticidade.

Ser extremamente magra é promessa de felicidade? Bem, é isso que nos vendem não só nas revistas, mas impõem nas redes sociais, no círculo de amizades, nos produtos midiáticos, silenciando as vozes sensatas que propõem uma reflexão mais séria do retrato de uma sociedade frívola, imediatista e pautada em pilares frágeis.

Sucumbir à moda da magreza extrema é assinar um acordo de rendição, cuja moeda de troca pode ser o próprio sopro de vida.

Clean girls: minimalismo do retrocesso


Essa nova onda não acontece isoladamente. Outra face moderna dessa tentativa de controle é a tendência “clean girl”, que começou a ganhar força nas redes sociais entre 2021 e 2022, especialmente no TikTok. Inspirada na estética minimalista, de aparência “natural” e “perfeita sem esforço”, a clean girl é a mulher de pele impecável, cabelo alinhado, roupas básicas e aparência polida — mas tudo isso exige tempo, dinheiro e, claro, muita disciplina estética para manter o “ar de naturalidade” que, no fundo, é artificial.

A exigência não é só estética: é também comportamental. A clean girl precisa ser discreta, sorridente, elegante, silenciosa. Precisa parecer saudável, mas sem exagero. Sensual, mas jamais vulgar. Uma reconstrução moderna da boa moça dos anos 1950 — que deveria agradar os homens sem jamais ameaçá-los.

Essa estética, aparentemente inofensiva, tem raízes na construção de um padrão inatingível e superficial de perfeição, que mais uma vez coloca as mulheres como objetos a serem admirados por sua aparência, principalmente por seus pares masculinos.

A romantização da "clean girl" reforça um estereótipo de beleza que, como outras tendências anteriores, limita a autonomia da mulher. Embora em tese ela pareça representar empoderamento e autossuficiência, no fundo, carrega consigo a pressão de atender aos padrões de um "modelo" desejado e aceito pela sociedade, em grande parte controlado pelos interesses de consumo e imagem.

Ao se comparar a essas representações midiáticas, as mulheres se veem forçadas a lutar pela aprovação masculina, perpetuando a ideia de que seu valor está atrelado à sua aparência e à sua capacidade de agradar aos outros, um reflexo de como o patriarcado ainda opera nas pequenas e grandes narrativas da cultura contemporânea.

A abordagem crítica dessa tendência não é sobre criticar quem adota esse estilo, mas refletir sobre os efeitos dessa pressão estética que, como afirma Naomi Wolf em O Mito da Beleza, está diretamente ligada ao controle da imagem feminina, algo que nos é imposto desde a adolescência e que, com o tempo, vai se enraizando em nossas mentes como um ideal a ser perseguido a todo custo.

Ao mesmo tempo em que algumas mulheres são seduzidas pela estética clean girl, uma reação conservadora se fortalece, empurrando-as novamente para papéis tradicionais e muitas vezes opressores. Como falado por Susan Faludi em Backlash: The Undeclared War Against American Women, a cada avanço significativo das mulheres, surge uma tentativa de retroceder suas conquistas, disfarçada de escolha e glamour. A tendência clean girl, assim como o culto das 'trad wives', é uma das várias formas de minar a autonomia feminina e a verdadeira liberdade.

Engajamento e irresponsabilidade: quando a desinformação coloca a vida em risco 


A responsabilidade dos influenciadores nas redes sociais é um tópico crucial, especialmente quando consideramos como suas postagens contribuem para a perpetuação de padrões estéticos prejudiciais. Muitos promovem dietas e rotinas de exercícios sem respaldo científico, alimentando a desinformação e colocando os seguidores sob uma pressão desnecessária para atingir o "corpo perfeito". 

Em O Mito da Beleza, Naomi Wolf discute como a mídia e a sociedade impõem padrões inatingíveis às mulheres, sendo esses influenciadores um reflexo disso. As promessas de transformação rápida ignoram as reais necessidades de bem-estar físico e emocional.

Nos Estados Unidos, por exemplo, um estudo realizado pela Pew Research Center em 2019 revelou que apenas 24% das mulheres preferem ser donas de casa em vez de trabalharem fora, o que demonstra que a maioria das mulheres prefere a independência profissional. A visão de uma "trad wife" não só retrocede o papel feminino, mas também nega a ideia de que as mulheres podem, e devem, ter escolhas livres sobre suas vidas e seus destinos.

O retorno da moda Y2K e a nostalgia da magreza extrema


Nos anos 2000, a internet ainda engatinhava, mas já começava a formar comunidades que giravam em torno da glorificação da magreza extrema. Blogs e fóruns “pro-Ana” (anorexia) e “pro-Mia” (bulimia) espalhavam “diários” de dietas absurdamente restritivas e incentivavam jovens a atingir padrões impossíveis. A estética exaltava clavículas saltadas, ossos do quadril aparentes, barriga seca e coxas separadas — como se tudo isso fosse sinônimo de beleza e sucesso. Pior: associava o corpo gordo a ideias de fracasso, preguiça e falta de valor.

Essa mentalidade, ainda que aparentemente esquecida por algum tempo, nunca desapareceu. Apenas mudou de máscara. E agora, com a volta da moda Y2K, vemos ressurreições dessas referências perigosas sob o pretexto da nostalgia: o retorno da calça de cós baixo, da cultura da magreza extrema como um "padrão estético desejável", das roupas feitas para corpos quase infantis.

Hoje, diferentemente dos anos 2000, existem mecanismos nas redes sociais que tentam sinalizar quando alguém procura por termos ligados a transtornos alimentares, sugerindo ajuda profissional. Mas o culto à magreza continua sendo onipresente — só que agora se disfarça no discurso da “vida saudável”. E aí entra outro problema: a avalanche de desinformação propagada por falsos especialistas.

No Brasil, por exemplo, uma pesquisa de 2021 realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou que 48% das mulheres brasileiras têm alguma insatisfação com seu peso. Isso se reflete também em dados alarmantes sobre transtornos alimentares, que afetam especialmente mulheres jovens. 

Segundo o Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, a prevalência de transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, aumentou significativamente nos últimos anos, com a pressão para alcançar um corpo magro sendo um dos fatores de risco.

A cada deslizar de dedo, somos bombardeadas por dicas de nutrição vindas de influenciadores sem qualquer formação séria na área. Pessoas que usam seus seguidores como aval de credibilidade, vendem dietas milagrosas, cursos de emagrecimento duvidosos e se autopromovem como se popularidade fosse sinônimo de competência. Isso não apenas perpetua o ciclo de insatisfação corporal, mas também coloca em risco a saúde de quem, sem saber, confia em promessas sem embasamento.

A escritora Roxane Gay, em seu livro "Fome: Uma autobiografia do meu corpo", traz um relato profundo sobre como a cultura da magreza destrói a autoestima e como a pressão social molda o relacionamento que mulheres têm com seus corpos desde a infância. A obra de Gay serve como alerta: não é sobre "escolha pessoal", é sobre sobrevivência num mundo que, a cada década, inventa novas formas de controlar nossos corpos e nossos sonhos.

O espetáculo do mau-caratismo e a indústria da culpa


Com o crescimento das redes sociais, um novo tipo de mercado floresceu: o da transformação pessoal instantânea. Só que, por trás da promessa de "vida saudável", "autoestima elevada" e "corpo dos sonhos", o que se consolidou foi uma indústria bilionária baseada na culpa feminina.

Influenciadores sem formação adequada — que misturam dicas vagas de nutrição, coaching motivacional e estética — vendem a ideia de que a felicidade e o sucesso são alcançados através do corpo magro, tonificado e “perfeito”. Mas, para isso, é preciso consumir: consumir suplementos, consumir cursos, consumir rotinas extenuantes, consumir a ilusão de que a transformação é uma questão puramente de "força de vontade".

A escritora Bell Hooks, em seu livro "O feminismo é para todo mundo", já alertava que a sociedade capitaliza sobre as inseguranças das mulheres, transformando cada etapa da vida feminina em mais um produto a ser vendido. Segundo Hooks, enquanto a mídia reforça padrões inalcançáveis de beleza e sucesso, cria também uma demanda infindável por soluções mágicas — soluções que, no fundo, alimentam o sistema em vez de libertar quem consome.

O resultado desse espetáculo é perverso: as mulheres são levadas a crer que o problema está nelas — na falta de disciplina, na suposta "preguiça", no "não querer o suficiente" — quando, na verdade, o verdadeiro problema é um sistema inteiro que lucra com a nossa eterna sensação de insuficiência.

A "energia feminina" vendida como mansidão, a "cara de rica" traduzida em cabelos lambidos e peles impecáveis, a ideia de que uma mulher valiosa é a que melhor performa esses padrões: tudo isso não é liberdade de escolha. É marketing.
É capitalismo travestido de autocuidado.

Movimento Body Positive: uma resposta à opressão estética


Diante da pressão incessante para atender a padrões irreais, surgiu uma reação poderosa: o movimento Body Positive. Originado no final dos anos 1990 e fortalecido na década de 2010, o body positive propõe uma visão radical: todo corpo é digno de respeito e representação, independentemente de seu tamanho, forma, cor, idade ou capacidade.

Essa filosofia surge como uma recusa direta à lógica de que a autoestima feminina deve ser condicionada à aceitação ou aprovação alheia. Ao contrário, prega que autoestima é um direito inegociável.

A ativista e escritora Sonya Renee Taylor, autora de "The Body Is Not an Apology" (em tradução livre, "O Corpo Não é um Pedido de Desculpas"), reforça que o amor-próprio não é apenas um ato individual, mas também uma postura política que combate sistemas de opressão que se alimentam da nossa autocrítica.

O movimento body positive não nega a importância de cuidar da saúde. O que ele contesta é a ideia de que saúde tem um padrão estético único, e que a felicidade está condicionada a esse molde.
Amar e respeitar o próprio corpo não significa desistir de si mesma — significa, sim, recusar a narrativa de que apenas um tipo de corpo é válido.

Apesar das tentativas do mercado de esvaziar o movimento e transformá-lo em mais uma vitrine de consumo, sua raiz continua forte: um chamado para que mulheres sejam donas de si, de sua história e de sua própria imagem.

Ter vivido a dor dos transtornos alimentares nos anos 2000 e, agora, ver novas formas de opressão surgirem, só reforça em mim a certeza de que precisamos resistir.
A pressão para nos moldarmos a padrões inatingíveis não traz a felicidade que prometem; apenas esvazia sonhos, silencia revoluções interiores e nos afasta de quem somos.
Cada vez que recusamos essa imposição, reafirmamos que nossa existência vale mais do que caber em moldes sufocantes.
A beleza está em resistir. A liberdade, em ser.

Diante de tantas armadilhas disfarçadas de tendência, é preciso coragem para enxergar além da estética e reivindicar o direito de existir fora das expectativas que nos impõem.

A beleza verdadeira não está em caber nos moldes de cada nova moda, mas em resistir, questionar e cuidar de si com honestidade, sem se render às pressões silenciosas que vendem submissão como escolha. Não devemos mais aceitar que o padrão mude como estratégia de contenção social.

O corpo, a voz e o destino pertencem a quem os habita — e a liberdade nunca esteve na aprovação dos outros, mas na nossa própria aceitação.

No inferno toca sertanejo universitário



Prólogo
Assinado por Nina

Não me pergunte de onde vim, porque a resposta é mais feia do que você suportaria ouvir. Sou o resultado de todos os silêncios engolidos, dos “deixa para lá”, dos “pelo menos você tem um emprego”, das lágrimas que secaram antes de cair porque o tempo não me permitia chorar. Sou filha bastarda do cansaço com a indignação, irmã mais velha da raiva contida e amante fiel da ironia. Nasci do grito que nunca ecoou, das vontades que mofaram no fundo do peito e das humilhações que fincaram raízes no estômago.

Disseram que trabalhar dignifica, mas esqueceram de avisar que, para alguns, trabalhar é ser espancada em parcelas, todo fim de semana, com sorrisos falsos e coletes ridículos. Sou atendente. Uma atendente invisível. Uma peça de reposição em eventos que fingem ser alegria, mas fedem a opressão com cheiro de fritura velha. Sou aquela que não tem nome, só um número no colete, como uma presidiária. Aquela que precisa sorrir enquanto é empurrada, xingada, ignorada, usada. Aquela que “está ali para isso”. Aquela que, se responde, é insolente. Se cala, é fraca.

Para sobreviver, escrevo. E escrevendo, sangro. E sangrando, sigo um dia de cada vez. E ainda bem que é um de cada vez.

Cada palavra minha é uma lasca do que me restou depois de mais uma noite de festival onde o povo pagou um salário mínimo para ostentar. Com os tickets de bebidas caras brandindo entre as unhas de gel que não lavam um copo sequer, o olhar de desprezo pelos subalternos. Enquanto isso, a estrela do palco canta com a bunda, os versos desafinados com autotune, e a plateia aplaude como se fosse arte. Arte é sobreviver sem quebrar tudo ao redor, é segurar o grito quando tudo que você quer é sumir. Não tenho palco, mas tenho dor — e é ela que me traz aqui.

Bem-vindos ao inferno. Lá, a trilha sonora é sertanejo universitário.

😤😤😤

Eu já estava cansada antes mesmo de chegar. O calor escaldante e a multidão já me desgastavam antes de eu sequer ter chance de dar o primeiro passo. Acordei cedo, como de costume, porque meu corpo não consegue mais entender o conceito de descanso. Mais um dia, mais uma obrigação que não posso evitar. Ao me olhar no espelho, vi o reflexo de uma mulher que já não sabia mais como sorrir de verdade. Tudo o que eu queria era fechar os olhos e ignorar o mundo ao meu redor, mas o festival me chamava.

O calor era abafado, misturado com os sons da festa ao longe. O grito das pessoas já me dava calafrios. Acostumei-me a esperar pouco. Parei de brigar com o mundo, aprendi a apanhar sem gritar. A vida me ensinou que as coisas boas são só fachada e minha dor nunca será reconhecida, só ignorada. Quando fui escalada para trabalhar no festival, sabia exatamente o que ia encontrar: mais uma multidão de sorrisos forçados, mais uma fila de olhares que não me enxergam, outro extenso turno em sou apenas aqueles números inscritos no canto direito superior do colete. O festival não era uma exceção, era só mais um dia.

Enquanto vestia o uniforme e tentava comer apressadamente porque o urubu da camiseta azul berrava como se eu fosse um porco virando o cocho, o peso de tudo me caiu sobre os ombros como um bloco de concreto. Já não sabia mais o que era sentir-me em casa em qualquer lugar, mesmo quando os lugares eram familiares. O festival era mais uma extensão de um ciclo vicioso. Como sempre, eu era invisível. Eles me viam como a função que eu tinha, e nada além disso. Tudo o que eu queria era encontrar algum significado, mas, como sempre, o significado me escapa. Eu sou só a atendente que aparece e desaparece, como um fantasma que é útil para os outros e, de algum modo, sempre ignorado.

E ali, no meio daquela confusão, entre risos e conversas que pareciam em outra língua, eu entendi. Não era só o festival, não era só aquele dia. Era tudo. Estava cansada de ser tratada como se minha presença fosse apenas um número em uma fila interminável. Mais um evento, mais uma humilhação que minha alma já conhecia bem. Mas o que me restava? Nenhuma outra escolha além de seguir em frente e aguentar, como sempre fiz. Eu estava enclausurada no cativeiro com pulseira no braço e embrulho no estômago.

Naquele momento, éramos apenas mais um número, um grupo a ser espremer naquelas condições desumanas, sem qualquer espaço para respiração. O barulho das vozes e os gritos dos que estavam ao redor me sufocavam, mas o pior não era isso. O pior era saber que não havia escapatória. As outras mulheres conversavam e riam, lamentavam não estar perto do palco e eu me sentia como uma estranha dentro de um pesadelo que, de tão real, beirava à loucura. A pária.

As horas iam passando, mas o tempo parecia dilatar-se ao meu redor, como se o relógio tivesse sido feito para zombar da minha ansiedade. O cheiro de óleo, fritura e suor tomava conta do lugar. Tudo era imundo, a bancada, as cadeiras, as paredes, e eu me perguntava o que estávamos fazendo ali, como havíamos chegado àquele ponto. O que me incomodava mais não era a sujeira ou a pressão da jornada. Era a música estourando nos alto-falantes, invadindo os ouvidos, insuportável, repetitiva. Uma sucessão de vozes agudas cantando sobre amores perdidos e bebidas baratas, como se tudo aquilo fosse uma espécie de consolo, uma máscara para nossas realidades de cansaço e frustração.

Eu odiava aquela música, odiava o jeito como se infiltrava na minha mente, me fazendo sentir ainda mais aprisionada, ainda mais distante do que poderia ser um escape. As outras mulheres pareciam não ligar. Para elas, o apogeu. felizes por estarem respirando o mesmo ar dos seus ídolos de rima pobre. Alienadas. Dançando ao som de letras que rimam "ama" com "cama", como se fossem poesia. Como se trair, beber, esculachar, fosse liberdade. Como se ser corna fosse arte. Como se só existisse um tipo de Brasil.

Para mim, era um reflexo de algo maior, um sistema que nos empurrava para esse tipo de realidade, sem sequer nos perguntar se estávamos dispostas a aceitar esse papel. E, no fundo, eu sabia que nenhuma de nós tinha escolha.

E enquanto isso, as crianças dançavam. Crianças. Com faixas na cabeça e glitter na cara, rebolando ao som de ‘sentar’ e ‘macetar’. E os pais filmavam. Riam. Aplaudiam. Era arte, né? Era família. Era tradição. Ah, se surgisse um personagem LGBT numa novela ou série, ah, aí era escândalo, perigo para a moral e bons costumes. 'Isso pode tirar a inocência das criancinhas!', diziam os hipócritas. Tudo bem se fosse vulgaridade hétero e camuflada de ‘brasilidade’. Tudo bem se a boiadeira usasse o nome de Deus para dizer que queria transar com os anjos. E as caras nem ardiam nessas horas.

Hipocrisia não cantava, fazia backing vocal nesse festival.

A tal da Cinderela Sertaneja, uma colega com dentes grandes e autoestima inflada, estava ali com sua síndrome de supervisora. Estava puta da vida porque não ficou no campo para curtir o show de perto, então resolveu se pagar de supervisora, doida para mostrar serviço e ser notada por algum agroboy. Tudo para ela parecia diversão. Para mim, não. Puxava saco de todo mundo, tentava se exibir para os agroboy que se achavam riquinhos, com aquele olhar que mandava e desmandava. Tudo era farra para ela, tudo era festa — menos para quem servia.

Porque a gente não é gente. A gente é mão. A gente é bandeja. A gente é colete.

Olhavam-me como se eu tivesse lepra. Como se estar ali, uniformizada, suada e exausta, fosse a assinatura do meu fracasso. E talvez seja mesmo. Talvez fracassar seja isso: sorrir para quem te despreza, trabalhar com dor de cabeça, medo e exaustão, e ainda ter que agradecer. Afinal, "é dinheiro entrando", "melhor essa taxa do que nada" e "ingratidão atrai mais limitação" — mantras de coachs de palco e ex-empresários de pirâmides reciclados em influenciadores. Segundo um desses boçais, bastaria chamar o dinheiro 108 vezes e pensar positivo. Se falhou, é porque você não recitou com fé, não acreditou o suficiente, não fez sua parte.

Enquanto isso, o festival se desenrolava como uma pornografia disfarçada de festa. Não sou puritana, no entanto, senti profundo desconforto mesclado com vergonha alheia por ter de assistir casais quase transando em pé, na frente da lanchonete, como se estivessem num quarto de motel, não num evento público. Vi outro casal se xingando, se ameaçando, se reconciliando — e quase transmitindo o ato final em uma live no Instagram, com filtro de ursinho. 

Algumas atendentes beberam escondido, burlaram as regras, pegaram uns boy e ganharam gorjetas generosas. Outras se tornaram parte do cenário do show, dançando no camarote, cantando junto — como se ali fosse o ápice da liberdade.

Mas eu fui a sorteada. Ou a azarada.

Quando fui atender um dos clientes bêbados de pulseira preta e ego inflado, ele não me entregou o ticket da vodca com energético — que, aliás, custava quase 20% do que eu ganharia na noite. Em vez disso, me puxou pelo braço. Forte. Tão forte que me desequilibrei. Tentou me beijar. Eu congelei.

Se não fosse o amigo dele intervir, sabe-se lá o que teria acontecido. E o pior? Virou piada. Piada. Gargalhada coletiva. Virei a "difícil", a "que se faz", a "sem graça". Não danço, não ouço, não bato palma para macho nojento que ostenta o SUV para compensar o tamanho do pau. Não me deslumbro com cara harmonizada (só que não) e não sorrio para quem me trata como descartável. 

Sou a esquisita. A amarga. A "antipática". A que "não sabe se divertir".

Ora, se divertir para vocês é isso? Se vender por uma taxa irrisória, tolerar assédio como se fosse elogio e ser maltratada por quem se julga superior só por estar do outro lado do balcão? Então eu passo. E faço questão de ser a antipática. A diferentona. Aquela que não se mistura.

Fui tratada como se tivesse um preço. Como se estar ali significasse que meu corpo estava em liquidação, com o combo de batata-frita e refrigerante. A paralisia do medo rouba o tempo, a lucidez e o juízo. A hora não passa. O som ensurdece. E o cheiro de suor e bebida invade tudo. Tudo.

No fundo, esse festival foi um culto ao absurdo. Uma festa para poucos, sustentada por muitos. Um teatro onde as estrelas são feitas de plástico e as palmas abafam os gritos de quem só queria ir embora sem sentir que deixou um pedaço da dignidade para trás.

Vi também o pessoal bêbado, querendo partir para cima dos seguranças, mijando nas calças, enquanto os banheiros se transformavam em dark rooms imundos, onde o respeito e a dignidade eram apenas memórias que evaporavam no ar pesado de álcool e desespero. Ao final, as pernas travaram, caminhar tornou-se penoso, não havia um pedacinho da minha alma que não estivesse destroçado.

E então veio a fila para receber o pagamento em dinheiro. O que deveria ser apenas uma formalidade virou um pandemônio. Um casal, sem a menor cerimônia, furou a fila, avançando com a audácia de quem já sabe que as regras não se aplicam a eles. As pessoas começaram a gritar, e quase rolou pisoteamento. O caos foi absoluto, mas ninguém se importava. Era só mais uma noite.

Eu, ali, parada no meio disso tudo, com as mãos tremendo, me perguntei em que momento aquela adolescente cheia de sonhos grandes e olhos brilhando se perdeu. Em que momento ela aceitou se humilhar por migalhas, trocando o brilho pelo cansaço, a esperança pela exaustão. Onde ela se perdeu? Quando a luta pela sobrevivência se transformou no preço da perda de si mesma? Eu ainda busco a resposta.

Não tem remuneração capaz de ressarcir os danos de uma maratona de abusos, nenhum dinheiro compra a paz de espírito. Pode parecer dramalhão, contudo, continuo tentando juntar os cacos de mim — cacos que ficaram naquela lanchonete minúscula, sob a luz fria de uma festa que nunca fora minha.

Meu braço ficou roxo por dias. Minha alma, por mais tempo ainda.

Dizem que foi um sucesso. Claro, foi. Um espetáculo para a sertaneja esquelética, que cantou sobre estar 'feliz, mas solteira', enquanto o cachê gordinho vai direto para o tratamento com a caneta mágica da moda. Um estouro para a boiadeira, que talvez tenha se formado em marketing, mas em conhecimento geral ainda está a um passo de aprender a ler — tudo isso com fãs que parecem ainda mais desinformados do que as letras repetitivas que celebram. Uma noite encantada para as riquinhas com chapéu de feltro e franja grudada na testa, que garantiram seu lugar no camarote e saíram de carros importados, com sorrisos de selfie e o cheiro inconfundível de um perfume de 700 reais.

Porque nem todo mundo que foi ao festival voltou inteiro. E nem todo mundo que voltou quis lembrar que esteve lá.

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