Caderneta de um quase-cisne 🔮


O vento soprava forte naquele final de tarde de nuvens cinzentas e pesadas como toneladas incontáveis de chumbo. Os punhos da jaqueta preta cheiravam a costela assada, os dedos trêmulos deslizavam pela tela do celular, o corpo soluçava de tanto frio. 
Um dia inteirinho condenada a enrolar bolinhos de costela, um por um, pesar na balança e colocar noutra cuba. Na câmara fria. Sozinha. Por longas horas, alheia ao mundo, as mãos já não aguentavam mais executar aqueles movimentos repetitivos.
Quatro camadas de cobertor ainda seriam insuficientes para aquietar a aridez de uma alma desconectada de si. Os goles de chá quente tentavam o aterramento; o pior já havia passado. Diziam-lhe que aquele momento de sua vida era só uma travessia, não a jornada inteira.
Seu erro tinha sido desacreditar de seus sonhos ou ter acreditado cegamente nas emendas do impossível?
Quaisquer interpretações serviriam apenas para atormentá-la ainda mais. A história parecia estar presa a um capítulo interminável, mas ainda havia muitas folhas em branco que a escuridão a impedia de ver. Numa madrugada de inverno, com poucas perspectivas, escondida sob quatro camadas quentes de solidão, seria até estranho fingir normalidade, nem teria motivos para tal, não seria justo...
A saída mais imediatista era aquela, que não vinha antes de uma conclusão dolorosa. Quem dera conseguisse chorar, expurgar a raiva, o desgosto, esboçar alguma reação humana que não fosse o catatonismo embaraçoso de quem parecia não se importar com nada.
Era uma dor diferente, carregava consigo o cansaço de tentar mudar o próprio destino e ser traída por ele, trazida de volta para a roda-gigante que sempre insistia em parar por baixo. Não podia ser resignação, não quando a poesia ignorada ainda hesitava ao toque carinhoso da ponta dos dedos. 
Aqueles trocados custavam caro para a dignidade, mas não havia nem uma outra porta aberta para debandar; precisava disciplinar o olhar para não focar na imensidão, na derradeira queda livre... Já havia desistido demais... e de si.
Os olhos pesavam na penumbra... ah, eles ainda sabem falar... e gostariam de contar segredos que não cabem naquela letra espirrada numa caderneta escondida dentro da pochete preta, entre contagens de bebidas e o desejo de reencontrar a inspiração...

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