Mary Recomenda | Nós, Mulheres - Rosa Montero

 


Hoje o post é diferente. Neste 8 de março, decidi trazer uma obra que não apenas se lê, mas se sente como um ato de justiça. Se você, assim como eu, acredita que a história é feita de muitas vozes (e que muitas delas foram caladas), a recomendação de hoje é obrigatória: Nós, Mulheres, da brilhante Rosa Montero.

Nesta obra, Montero não faz uma biografia comum. Ela faz uma reparação histórica, mergulhando no passado para resgatar mulheres que foram apagadas, diminuídas ou rotuladas como “loucas” apenas porque ousaram ser brilhantes, independentes ou geniais em tempos que exigiam delas o silêncio.

Um detalhe que me impressionou muito foi comparar a força das histórias. Embora a edição mais recente (de 2017/2018) traga novos nomes e biografias atualizadas, confesso que as histórias da edição original de 1995 ainda são as que mais ecoam na minha cabeça. Há algo naquela primeira seleção que parece um grito contido por tempo demais. Rosa Montero não estava apenas escrevendo um livro; ela estava abrindo feridas para que elas pudessem finalmente cicatrizar sob a luz da verdade.

Escrita como lupa e escudo

Rosa Montero tem uma escrita apaixonada e, por vezes, furiosa. Ela não é uma observadora neutra; uma defensora dessas trajetórias. Ao ler, percebemos que o livro funciona como um inventário de batalhas que nos mostram que, por séculos, a narrativa feminina foi contada por vozes externas que as viam apenas como “musas”, “esposas” ou “fardos”.

A história das mulheres é a história do silenciamento, mas também da resistência subterrânea. Rosa Montero nos devolve esses nomes com a humanidade que lhes foi roubada.

O preço de ser livre

Uma das histórias que mais me deixou em choque foi a de Hildegart Rodríguez. Imagine uma jovem prodígio, preparada para ser a “mulher do futuro”, mas que, ao tentar exercer sua liberdade real e se distanciar do controle materno, foi assassinada pela própria mãe enquanto dormia.

Rosa Montero usa esse caso para nos mostrar como o brilho de uma mulher pode ser visto como uma ameaça até por quem a criou. É um lembrete brutal de que o controle sobre o corpo e o destino feminino é uma das formas mais antigas de apagamento.

O Roubo do Protagonismo e a Intensidade de Viver

Fiquei indignada ao ler sobre mulheres como Maria Lejárraga, que escrevia obras-primas enquanto o marido levava os aplausos e os créditos. Isso foi uma constante na história: mulheres sendo apagadas do protagonismo por aqueles que deveriam ser seus parceiros.

Por outro lado, o livro nos apresenta mulheres que foram o oposto do silêncio: piratas, guerreiras e mulheres que viveram a sexualidade com uma liberdade selvagem, casando e amando quem quisessem, desafiando todas as regras da época. Rosa mostra que elas não eram “loucas”, eram apenas seres humanos exercendo o direito à intensidade.

O Enigma das Irmãs Brontë

Confesso que o capítulo sobre as Brontë me deixou pensativa. Charlotte, Emily e Anne viveram isoladas em uma casa paroquial nos pântanos ingleses. Como três mulheres que mal saíram de casa conseguiram escrever obras tão viscerais? Elas foram gigantes presas em um mundo minúsculo, e a genialidade delas teve o preço do isolamento. Elas conquistaram abismos interiores que muitos exploradores de mares nunca ousaram visitar.

O Direito à Narrativa

Rosa Montero termina o livro nos deixando uma missão: a de não permitir que as vozes das mulheres ao nosso redor sejam levadas pela “noite veloz” do esquecimento. No fundo, este livro é sobre o direito de sermos donas das nossas próprias histórias.

Neste 8 de março, recomendo que você leia Nós, Mulheres para se olhar no espelho e celebrar não as musas, mas as protagonistas. Que possamos ser, cada vez mais, as autoras das nossas próprias vidas.

Espero do fundo do coração que vocês tenham gostado desta edição especial. Se você ainda não conferiu as leituras anteriores deste ciclo (como o nosso querido Stuart Little ou a resistência de Vidas Secas), clique na tag Mary Recomenda e confira.

Um brinde à força feminina de todas as épocas. Um abraço e até a próxima sexta! 🥂✨


Referências

MONTERO, Rosa. Nós, Mulheres. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.

Quantas obras-primas que amamos hoje não foram, na verdade, gestadas por mãos femininas silenciadas pelo sobrenome do marido?

Não adianta nada oferecer flores hoje e nos matar amanhã.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Muito obrigada pela visita ao OCDM, espero que você tenha gostado do conteúdo e ele tenha sido útil, agradável, edificante, inspirador. Obrigada por compartilhar comigo o que de mais precioso você poderia me oferecer: seu tempo. Um forte abraço. Volte sempre, pois as páginas deste caderno estão abertas para te receber. ♥

Mary Recomenda | Nós, Mulheres - Rosa Montero

  Hoje o post é diferente. Neste 8 de março , decidi trazer uma obra que não apenas se lê, mas se sente como um ato de justiça. Se você, ass...