Terças com Tita | O dia em que achei que tinha escrito um clássico

 

Ah, a pretensão juvenil. Mudar o mundo, uma missão quase messiânica. Sou a mensageira da sociedade. Pare e preste atenção na minha arte. 




Tenho mais fases do que a Lua. Era uma das inúmeras comunidades nas quais eu participava no tempo do Orkut. Sinto já ter escrito algo nessa mesma linha, mas precisava de um ponto de partida. No fundo, escrever é um método mais sofisticado de viajar na maionese e cai como uma luva para recordar aquela época da vida em que mudar o mundo é o sacerdócio da jovem e soberba alma.

Senta que lá vem a história, mas não é aquela do Rá Tim Bum. Seria melhor se fosse, insisto. Os leitores mais jovens provavelmente não entenderão a referência — e não tem problema; eu também não manjo das gírias dos tempos dos meus pais e está tudo bem. Porque o que vai sair daqui é um arremedo de escrevinhadora da mais reles estirpe, inclinada a encher linguiça porque não gosto de poupar palavras, a menos que o dever me obrigue.

Escrever diários sempre foi um hábito essencial e inquebrável desde a infância, mesmo precisando armar um esquema de guerra para proteger a integridade dos cacarecos dos olhos de coruja que mantinham o DOPS familiar mais vivo do que nunca.

Com 16 primaveras e milhares de registros, tive uma epifania durante uma sessão de terapia. O psicólogo fez as perguntas de um milhão de dólares e eu só na defensiva, tentando mudar de assunto, porque não queria tocar em certas feridas. Ele não se intimidou nem com meu ataque de choro, que não demorou a vir.

Eu não precisava falar nada se não quisesse. O silêncio também tinha seu simbolismo, tanto quanto aquelas lágrimas que os lenços de papel não deram conta de estancar. Parecia patético chorar por “dó de mim mesma”, mas eu já falava como se estivesse no corredor da morte, com as oportunidades zeradas, esgotadas, apenas no aguardo da execução.

Por muitos anos, palavras foram munições nas bocas daqueles que sentiam prazer em me causar dor. Os rastros permaneceram no ar, na alma, reverberando ainda hoje naquele pensamento grudento sobre incapacidade. A psicologia chama esse comportamento de síndrome da impostora.

O psicólogo me deu uma "lição de casa" e eu quase pensei em não fazer, muito embora essa mentira fosse só uma cortina de fumaça para encobrir aquele anseio juvenil de ser ouvida. Abrir o documento em branco deveria contar como tentativa, mas não bastaria. Arrisquei algumas palavras e apaguei tudo com a rapidez de um temporal.

Levantei-me da cadeira, fui olhar pela janela, coloquei uma música para tocar, voltei e pensei em perguntar se todos os escritores do passado tinham problemas para começar a joça do texto. Havia horas que eu estava naquela lenga-lenga e não saía uma só frase, nem um parágrafo todo truncado e desconexo para eu rir de mim mesma na posteridade. Eles faziam parecer tudo tão fácil.

Cricri dormia todo esparramado em cima da cama, barriguinha para cima, tão lindinho. Aquele sono pesado e despreocupado era de quem não se ocupava de pensar no passado nem no futuro. Choramingava quando tinha um pesadelo, abanava o rabinho quando tinha um sonho bom. Não se importava se os pinschers eram mais esguios, nem por que um labrador tinha o dobro do tamanho dele, nem se algum yorkshire de madame ostentava um guarda-roupa cheio de roupinhas e uma extensa coleção de brinquedos. Sentia prazer com coisinhas tão simples como furtar pão da mesa, morder calçados, latir nas horas mais inapropriadas e praticamente me enxotar da minha própria cama para ficar com o maior espaço.

Meu sonho sempre foi ter um cachorrinho. E eu realizei. Agora, que outros sonhos tenho para colocar no lugar?



Eu também sonhei em ter uma melhor amiga, ser mocinha do tempo e passar as férias em outro planeta. Fiquei por um triz de ser levada pela morte, mas escolhi a vida e ela me escolheu também. Estando naquela fase de querer mudar o mundo, uma coisa levou à outra... e o que era para ser só um "dever de casa" para o psicólogo se tornou questão de honra.

O mundo precisava conhecer a minha história.

Fonte Comic Sans, tamanho 14, cor fúcsia e muitas boas intenções. A joça não tinha nome e eu ia contando a história da minha vida até o presente momento. Parecia vida pra caramba e o tempo para contar tudo, quase insuficiente. Essa dedicação ostensiva rendeu frutos, ou melhor, mais de 400 páginas.

Era de madrugada e não dava para eu abrir a janela e sair gritando que terminei um livro…

Não um livro qualquer… era o livro da minha vida.

Foi inevitável não rir de nervoso quando vi aquele meme do Derp rabiscando aleatoriedades no Paint e olhando orgulhoso para a tela como se fosse o próprio Picasso contemporâneo. Gastei uma nota imprimindo aquele calhamaço cujo texto nem sequer estava justificado, imaginando que a Academia Brasileira de Letras ainda me coroaria com uma cadeira.

Júlia disse que eu escrevia melhor do que o Machado de Assis, mas foi só para me motivar. Ele sempre foi o "cara" para mim. Se algum dia eu escrevesse sobre a natureza humana com tanta riqueza de detalhes e criasse personagens memoráveis que ultrapassassem gerações, seria uma honra.

— Como vai ser o nome do livro? — Quis saber a Júlia.
— Eu… não sei.
— Você não pensou em nenhum nome?
Tita. Por mim mesma.
— Você está tirando onda? — Júlia me encarou, séria.
— Não gostou?
— Não...
— Esse negócio de inventar título é um problema. Já pensei em vários, mas não gosto de nenhum.

Simplesmente Tita, dentre todos os títulos pensados, foi o que mais agradou. Parecia até nome de novela mexicana antiga, daquelas que a gente ama e revê milhões de vezes: com uma protagonista sofredora, que se lasca do primeiro ao último capítulo, e a promessa de um final feliz.

Concluir o primeiro livro deveria ser o final da história, certo?

Errado, muito errado.

A primeira versão difere do rascunho por deixar o anonimato. E tão somente. Ela foi o primeiro passo de uma jornada interminável de releituras, revisões, reedições, reescritas e polimento.

O perfeccionismo também pesa a mão de vez em quando, mas um dia eu hei de driblar essa tal impostora que habita em mim e publicar essa história, nem que seja para meu eu da terceira idade cair na gargalhada.

O sentimento de ter dado com o pé na porta do sistema, chocado a sociedade e abalado as estruturas da família tradicional brasileira (atenção: contém ironia!) me levava às nuvens. Como a menina prodigiosa que, no meu íntimo, eu queria ser conhecida e validada.

Querer nem sempre é poder, sussurrou o bom senso. Bem menos, Tita

Parece até um esquete do Joselito: você está de braços abertos, dando bobeira, e o fanfarrão te surpreende com um balde de água gelada que desmancha o sorriso, o penteado e até o rebolado. Sem noção, Joselito. Nesse caso, a realidade assume a bronca. 

Que jovem escritor nunca se sentiu vivendo na época errada e amargou incompreensão em algum momento da vida?
 
Faz parte do processo. Uma crítica enviesada dói tanto quanto um tiro à queima-roupa. Não morri de tuberculose, embora tenha amargado umas desilusões bem indigestas. Ninguém cria uma boa casquinha de proteção sem sair da redoma, primeiro a gente quebra a cara para depois rir da cacetada.
 
Na prática, isso quer dizer que, quando a gente tropeça nas nuvens e para no chão, o desalento é o advogado do diabo, todo cheio de vir com aquela história de "jogar pérolas aos porcos" e criticar a tendência do momento, procurando alguma desculpa esfarrapada para fugir da autocrítica.

Quem lia aquele pergaminho de cores berrantes e pretensões astronômicas dizia "gostar", isso quando eu tinha resposta. Porque quando cheguei à fase adulta, com o rei na barriga, não entendi o motivo de levar um balde de água gelada atrás do outro; não sei como não morri de pneumonia moral.

É inevitável não recordar aquela cena de A Governanta em que a Rosália aparece na casa da D. Marisa, com uma travessa cheia de bolinhos de chuva chamuscados, e a vó da Raquel, diplomática, enrola a vilã para não precisar comer bolinho nenhum feito por quem amava a cozinha na mesma proporção da caridade.

A verdade é que fui pretensiosa como a Rosália. Apresentei meu trabalho para o mundo como se fosse a reencarnação da Clarice Lispector, a promessa da literatura brasileira, indiferente num primeiro momento aos sorrisos amarelos de quem elogiava a intenção e, discretamente, empurrava o prato para o lado. Nesse ponto, já não há mais volta: os pés estão grudados no piche. 

Eu era boa o suficiente para ser estimulada, só não para ser reconhecida pelas porcarias que escrevia.

Tá, você escreve, mas qual é o seu trabalho? Escritor nesse país não ganha nem para o sabão!

Não se sabe quando o juízo chega, mas um dia ele dá com o pé na porta e toca o terror. O primeiro impulso foi querer deletar todas aquelas abobrinhas que chamava de livro e aceitar o inferno da vida de CLT, trabalhar para ganhar uma miséria e ver a vida passar como se fosse só uma observadora da própria história, sem forças para redigir uma reviravolta… e sem vontade também!

Os professores da universidade diziam (e ainda dizem) que "tudo já foi escrito". Desconstruir a arrogância juvenil e não meter o louco, chegar a cogitar mudar de área, de ares, de ideia. Se não fosse esse cenário lastimável do cabresto acadêmico que esmurrava a criatividade, ainda teria de lidar com haters.

Haters gonna hate — disse Júlia, lembrando até dos axiomas de Lulu. — Ninguém odeia o feio nem inveja o fraco. Se a sua arte incomoda, você já chegou mais longe do que muita gente. Quem xinga por trás de uma tela não teria coragem de falar nem duas frases se estivesse olhando para você.
 
Recorrendo ao bolinho chamuscado em Comic Sans, os melhores feedbacks reconheciam os aspectos positivos e mostravam os pontos que poderiam (e deveriam) ser trabalhados; ignorá-los implica assinar o atestado de mediocridade. Quem odeia gratuitamente nunca jogou limpo; sempre apelou para a baixaria. Narcisismo literário não disfarça a inexistência do talento.
 
O destino de livros ruins e mal escritos é o esquecimento. Não adianta depositar entulho no quintal alheio porque ele não é aterro. Fica a dica. Seria o bolinho de chuva envenenado a última esperança de uma Rosália já sem paciência de esperar a D. Marisa morrer para passar a mão na grana. Vai falhar miseravelmente; subestimar o faro aguçado da Raquel nunca termina bem.

Para quem não calça as sandálias da humildade e não se dispõe a se reconstruir e viver também o lado B do ofício, o destino é a sombra. Pode culpar a concorrência, o mercado, as sabotagens de inimigos imaginários, o mau-olhado; vai correr em círculos e perder para meus hamsters, que correm por diversão. Vai dar de cara com a parede, Dom Quixote da Shopee. O pior inimigo do progresso é seu próprio orgulho ferido, não sou eu, nem a autora que vende milhões de exemplares.
 
Após o banho de água gelada e a digestão das verdades amargas, sobra o que realmente importa. Menos "chocar a sociedade" e mais "fazer sentido para alguém". Nem que seja meia dúzia. De Comic Sans para Arial, de fúcsia para preto. Podar assusta um bocadinho no começo; depois, acostuma.
 
Escrever é, no fundo, a arte de saber o que jogar fora. E às vezes é preciso sacrificar o próprio ego inflado para se livrar de fardos que só servem para retardar o progresso. E fechar os ouvidos para o que não convém, às vezes é só barulho tentando desconcentrar; não vale a pena.

E daí se eu nunca viver dos royalties da escrita?

Eu já vivo dela.

Desde que me dispus a aprender a contar histórias e combinar versos para estampar sentimentos, ser a desagradável que não segue a manada, a escrita corre pelas minhas veias. Vivo de registrar acontecimentos, observar o mundo, viajar na maionese e sonhar alto, mas agora os passos nas nuvens são mais cautelosos, contados, até um pouco hesitantes, eu me atreveria a dizer.
 
Às vezes, esse pensar demais, a tal mão pesada do perfeccionismo, é uma empata foda literária. Meu eu da terceira idade precisa ter alguma diversão. Preciso de motivação para comprar meu próprio carro e ficar livre de aturar música de qualidade duvidosa quando pego carona.
 
Não sou prato de brigadeiro, nem litrão, tampouco uma porção de batata-frita para lutar pela unanimidade. Atura ou surta, honey. Não nasci para agradar ninguém, só para botar os pingos nos is e fazer as perguntas inconvenientes varridas para debaixo dos tapetes dessa vida.
 
Sinto muito… Não, eu não sinto muito por quebrar as expectativas de ninguém… Assuma a responsabilidade por elas.

Transbordar em piscina rasa é encrenca; preciso desaguar nesse oceano de possibilidades infinitas e lembrar da minha condição de "peixinho" que busca incansavelmente o caminho de casa e não tem saída senão mergulhar.

Insisto que minha versão da terceira idade merece se divertir. E minha versão atual necessita de colo, um copo de café e umas férias.

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