Sob o pano branco: um relato sobre o que ninguém gostaria de ver

Triste registro do incidente ocorrido por volta do meio-dia (Reprodução/Arquivo pessoal da Mary)

Escrevo ainda em profundo estado de choque e consternação, nem sempre posso vir contar sobre eclipses, superluas e viagens no tempo. Os ditos imprevistos da vida escancaram a dolorosa realidade de que a existência não passa de um sopro e ninguém sabe quando encontrará a morte na esquina… ou numa canaleta.

Era uma quarta-feira comum, pelo menos até pouco depois do meio-dia e vinte, um dia esquecível. Ouvimos um barulho seco, metálico, que ressoou por toda a rua. Num primeiro momento, especulamos ser uma colisão entre dois veículos, porém essa perspectiva foi suprimida em questão de segundos. Antes fosse um incidente que uma seguradora ressarcisse os envolvidos e tudo fosse resolvido com diálogos e acordos.

Aquela poça avermelhada escorrendo pelo asfalto cinzento foi uma imagem que dispensou o uso de qualquer legenda. O golpe duro na esperança, se ainda havia alguma. Não pude deixar de me indignar com a frieza e insensibilidade das pessoas, muitas filmando o cadáver exposto e rindo, comentando como se fosse um meme, uma piada. 

Minutos depois, o carro do SIATE estacionou na canaleta e uma repórter da Rede Massa entrou ao vivo no Tribuna da Massa. De acordo com a reportagem, o motorista não viu o homem, nem teve tempo de frear o biarticulado. A vítima era um catador em situação de rua, na faixa dos 60 anos, que sofreu “lesões incompatíveis com a vida”. Uma equipe da RIC TV, que noticiou o fato no Balanço Geral, também deslocou-se para a região. 

Polícia Científica realiza perícia no local do atropelamento (Reprodução/Arquivo pessoal da Mary)

Em virtude do ocorrido, o referido trecho da canaleta foi desviado para a pista comum, como é possível ver na imagem de abertura desta publicação. Com isso, o tráfego na região pode apresentar lentidão na Marechal Floriano Peixoto, perto do tubo da Almirante Gonçalves. A Polícia Científica realiza neste momento uma perícia para apurar as circunstâncias da fatalidade. 

Muitos dirão que “a morte faz parte da vida”; que, por se tratar de uma morte instantânea, “ele não sofreu”. Explorar as mazelas da desgraça humana não é uma corrente de pensamento que me agrade, expor vídeos do cadáver descoberto, desrespeitar a dignidade de alguém que pereceu em troca de visualizações e curtidas, nada disso me move. Todavia, é quase inevitável não pensar no quão frágil é esse fio que nos mantém vivos, o menor dos imprevistos pode gerar uma reação em cadeia.

Independentemente de quaisquer circunstâncias, foi uma vida que acabou. A história dele foi interrompida nesse cruzamento na região central da cidade, mas ela também deve ter sido feita em algum momento de sorrisos, lembranças, tristezas e promessas. Posso ser deveras sentimentalista ao me questionar se esse indivíduo acordou sabendo que hoje seria seu último dia no mundo, se ainda havia algum sonho a ser realizado, porém o fluxo de pensamentos me fez quebrar um tabu para registrar um momento o qual não gostaria jamais de ter vivido.

A equipe do OCDM presta condolências aos familiares e amigos do catador e o mais sincero pesar pelo falecimento.

(caso haja novas informações sobre o caso, posso atualizar este post)

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