O gosto por existir (não sou de ninguém, nem de lugar nenhum)

Que ninguém tente me explicar que os altos e baixos ajustam a entonação da história. Nem me diga que eu não me esforço o suficiente. Que só enxergo as situações sob a lente mais cruel de todas. Que estou em busca de atenção. Que, quanto mais reclamo, mais desagradável me torno.
Porque é fácil ser leve quando o sofrimento alheio é colírio para os seus olhos. Quando uma dor está distante da sua realidade. Quando a fala carrega uma perspectiva até preconceituosa sobre o que é certo ou errado.
O fato é que eu perdi a vontade de viver.
Não sei quando isso aconteceu, nem encontro um motivo preciso que justifique a existência das notas de rodapé. Por mais que eu tente acompanhar os outros, continuo ficando para trás. Corro e não saio do mesmo lugar. Acredito, mais do que jamais acreditei, mas volto sempre à estaca zero, como se estivesse presa a uma dimensão alternativa, cumprindo pena num labirinto.
As pessoas falam. De si mesmas. O tempo todo.
Elas não querem saber como estou, o que penso ou o que deixei para trás. Às vezes, tenho a impressão de que precisam de alguém “inferior” para ostentar a própria performance de vencer. Qualquer um poderia estar no meu lugar. Essas palavras arranhadas poderiam estar na boca de qualquer um.
Quem dera fosse preguiça. Se levantar não custasse tão caro. Se continuar fazendo esse papel ingrato não exigisse, com juros, o que restou dos meus sonhos.
Não me obrigue a sorrir. Estou tentando ser “normal” porque ser eu me foi vetado.
Falem sobre paqueras, em códigos. Riam dessas piadas de duplo sentido e até do que não tem a menor graça. Ser café-com-leite nunca foi novidade.
De tanto chorar pelo que não aconteceu, fui deixando pedras pelo caminho — e hoje tropeço nelas.
Questionar fez de mim aquela chata que não se contenta com qualquer explicação meia-boca. Ser intensa também tem seu preço: exige maturidade para lidar com os próprios transbordamentos e coragem para assumir riscos que, tantas vezes, o medo me impede de correr.
De tanto querer pertencer, no fundo não sou de ninguém, nem de lugar nenhum.

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