Do lado de fora, o mundo gira com seus bombardeios, ausências e absurdos. O algoritmo finge dar a noz mais apetitosa para nos prender àquela conveniente bolha onde nos querem de almoço, jantar e sobremesa, mesmo reclamando das particularidades que nos diferenciam do restante do rebanho.
Ora, aqui nesse silêncio morno entre o banho e o sonho, nosso casulo não é exílio nem escudo. Os aparelhos ficam em cima da mesinha, no modo silencioso, de preferência…
Mesmo que não houvesse beijos a mais, nem pele com pele, só o abraço já toma posse da caneta e escreve, despreocupado, versos que nós dois podemos entender, nós dois e ninguém mais…
O resto se diz no compasso da respiração, no calor compartilhado da sua pele molhada com a minha. Se por acaso os olhos marejarem, não será por dor, mas por finalmente compreender o que significa estar segura nos braços de alguém.
A dorzinha gostosa no peito?
É só o nome poético da saudade sendo curada aos poucos.
Saio do banheiro enxugando os cabelos, o vapor ainda dançando no ar, sem medo de errar a coreografia. A toalha macia escorrega pelos ombros e o cheiro do sabonete de lavanda mistura-se ao perfume doce da noite. Ele já está deitado, de lado, o braço esticado como quem espera para abraçar o travesseiro favorito… e esse travesseiro sou eu.
Sem dizer uma palavra, ele abre espaço no peito e me encaixa devagarinho num abraço de quem segura seu mundo inteiro com cuidado e devoção. Com a pele ainda quente do banho e o rosto colado no pescoço dele, permito-me fechar os olhos e me deixar conduzir na frequência desse afeto.
— Agora sim… — ele sussurra, apertando os dedos entre os meus. — Meu cheiro bom de lavanda, meu amor com nome de aconchego.
Rio baixinho, com os olhos fechadinhos, sentindo os lábios dele tocarem minha testa. Depois, o nariz, as bochechas, a ponta da orelha. Beijos leves como promessa de um amanhã melhor. Nenhuma guerra no mundo pode atravessar nossa cama. Nenhuma ausência consegue mais nos alcançar aqui.
No peito dele, o coração bate firme. No meu, uma prece silenciosa: “Fica. Mesmo que só hoje. Mesmo que só um pouquinho.”
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