Campo minado com tiaras arrancadas, pulseiras improvisadas e banhos de lama

Dizem que a infância é a fase da pureza. Que toda criança é feliz. Que bullying "faz parte", que "a gente supera". No entanto, não é bem por aí. Minha infância foi um campo minado com tiaras arrancadas, pulseiras improvisadas e humilhações cirúrgicas. E quem ousar dizer que isso ficou no passado… nunca carregou esse passado dentro do peito.

Eu tinha uma tiara azul-clara. Lembro dela com um carinho estranho, meio triste, sem saber que fim levou. Um dia, no colégio, a menina mais popular da sala simplesmente a removeu da minha cabeça. Com a frieza de quem se acha adulta aos 11 anos, ela me deu um conselho que era, na verdade, uma sentença: disse que os meninos até me achavam "bonitinha", mas "infantil demais" e ficaria melhor sem aquilo. Ali, o meu acessório favorito virou o símbolo da minha inadequação.

As meninas com quem eu andava me pressionavam a arranjar namorado porque "o tempo está passando". Meu nariz era cheio de cravo, minha barriga não era seca, eu era a única que nunca tinha beijado e não era "mocinha", ouvi que meninos não gostavam de pelos. 

Na verdade, parecia que os meninos não gostavam era de mim. Para um, meu pescoço era "grosso demais" para a gargantilha tribal que todas usavam — como se a beleza fosse uma questão de milímetros. Para outro, eu simplesmente não fazia o "tipo". E o meu "tipo", naquele cenário, era o de quem não pertencia a lugar nenhum.

Quando reparei naquela lanugem ocupando a panturrilha, lembrei-me do conselho de quem já se dizia "mulher": usar a "gilete". Decidi experimentar, crente de que a beleza era um processo simples. O que descobri, entre cortes e ardência, foi que a vaidade imposta machuca, sangra e, no meu caso, ainda rendeu um sermão homérico dos meus pais.

Talvez você nunca entenda por que eu odeio Rick & Renner e peço para mudar de estação quando toca "Feiticeira". Você não foi encurralada para ficar à força com o menino que a escola rotulou como o mais repulsivo. Não era para cima de você que os empurravam, em um ritual sádico para tentar te "desencalhar" — como se invadir o seu espaço e o seu corpo fosse a prestação de um favor. Saí correndo sob o coro daquele refrão maldito e meu refúgio foi uma poça de lama. Ali, com o uniforme encharcado e o rosto sujo de choro, eu entendi que a diversão deles dependia da minha destruição.

Até hoje, meu corpo trava em banheiros públicos. O pavor tem endereço: uma cabine de escola onde a privacidade era uma ilusão. Eu estava lá, vulnerável, quando ouvi as risadinhas. Ao olhar para cima, vi os rostos das minhas "amigas" me espiando por cima da divisória, rindo alto da minha intimidade exposta. Aquilo foi devastador. Elas passavam o dia atiçando a raiva, cutucando feridas com precisão cirúrgica, mas, quando eu finalmente reagia ou explodia, o jogo virava. Eu passava de vítima a vilã; eu era a "doida", a "grossa", a que "não sabia brincar". Elas me quebravam e depois me culpavam pelos estilhaços.

Naquela maldita semana de jogos, eu fui o bobo da corte. Fiquei de fora de todas as modalidades; as panelinhas fecharam os grupos de dança e eu virei o alvo das piadinhas por não saber o rodízio do vôlei. Mas eu tinha um trunfo: a peça de teatro em inglês. Eu era a princesa. Tinha as falas na ponta da língua, o sotaque ensaiado, a alma pronta.  Tudo para quê?

Em cima da hora, recebi o golpe: eu estava fora. Fui substituída por uma menina loira, alta e magricela, cujo único talento era caber no estereótipo — e em um vestido cor-de-rosa que eu não tinha. A beleza dela era comum, mas o privilégio dela era absoluto. Enquanto ela brilhava sob as luzes, fui chorar atrás da caixa d'água. O silêncio daquele lugar era o peso do mundo: eu sumi, e ninguém sentiu minha falta.

Meus pais não tinham dinheiro para esbanjar com supérfluos, então eu não tinha o braço cheio de pulseirinhas coloridas, anéis e colares, nem o prendedor de cabelo da moda. Numa tentativa desesperada de parecer descolada, peguei o velho ábaco da minha mãe e tentei fazer pulseirinhas com as peças dele para não me sentir tão jeca.

Naquela tarde mesmo, na hora do recreio, as outras meninas me olharam com desdém, caçoando da minha "pulseira de ábaco". E esta arrebentou exatamente diante dos olhos da menina popular, para o deleite das outras. Elas reconheceram cada peça de madeira que rolava pelo piso frio de concreto. O elástico gasto pelo tempo não aguentou segurar as miçangas e foi o prelúdio de uma humilhação pública. Naquele momento, as contas espalhadas no piso não eram apenas plástico ou madeira; eram os cacos da minha dignidade de 10 anos, expostos sob o brilho do cabelo perfeito de quem nunca precisou improvisar nada.

Minha vida não foi definida por uma grande tragédia, mas por pequenas mortes diárias. 

Por cada vez que me disseram que eu não servia. Que eu era pobre. Que o Fusca vermelho do meu pai era uma vergonha porque volta e meia ele pifava bem na hora da saída e virava motivo de piada de todo mundo por ter um "carro velho". Que meu nome era feio — e eu passei a dizer que me chamava Lizete, Andressa, menos o "palavrão composto" dito em tom de desdém, deboche e reprimenda.

Muitos dirão que estou apenas "remoendo o passado" ou que me recuso a superar. Mas a questão nunca foi sobre o tempo que passou; é sobre o que ficou. Esses traumas, acumulados em camadas, afetaram minha autopercepção e minaram meu amor-próprio de tal forma que passei décadas tentando desfazer as crenças que elas plantaram em mim. O bullying não termina quando o sinal toca; ele me tornou refém de um ceticismo crônico, de uma desconfiança que me faz duvidar de cada elogio e de uma luta diária contra a sensação persistente de que a minha existência, por si só, é um erro. Não estou remoendo o passado; estou tentando desarmar, uma por uma, as bombas que ainda fazem barulho dentro de mim.

Eu não fui criança, fui sobrevivente. Escrever isso, sem filtros, é a forma de recolocar aquela tiara azul-clara na cabeça da menininha de 10 anos e dizer: você não era jeca, nem feia, nem estranha; você só era um cisne nadando num lago cheio de baiacus.

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