Mary Recomenda | O terno tanto faz como tanto fez — Sylvia Plath


Existe um tipo de dor que só quem já se sentiu “fora do lugar” consegue entender. Em “O terno tanto faz, como tanto fez”, um conto curto, mas cirúrgico de Sylvia Plath, somos apresentados a uma peça de roupa que é, na verdade, uma herança de silêncios.

O terno passa de irmão para irmão. Para os mais velhos, ele é um fardo, uma armadura rígida que os obriga a caber em um papel que eles não escolheram. Quando ele chega ao irmão mais novo, algo mágico e terrível acontece: o menino fica feliz. Ele veste o terno com entusiasmo, sem saber que o mundo está prestes a usar aquele tecido para sufocar sua espontaneidade.

O que Sylvia Plath nos sussurra entre as linhas é que o mundo gasta uma energia enorme tentando nos ensinar a ter vergonha. Vergonha de não ser “adequada”, de gostar do que é diferente, de não vestir o figurino que a sociedade tenta nos impor. O menino é puro porque ainda não foi “educado” pelo constrangimento. Ele ainda não sabe que, para muitos, “vestir o terno” é sinônimo de silenciar a própria voz.

Reler Plath agora me faz pensar em como a literatura é esse espaço onde a gente pode, finalmente, tirar o terno. Muita gente vai tentar te ensinar a ter vergonha de ser inteligente, de preferir um passeio no parque a uma balada lotada. Não aprenda. Seja como o irmão mais novo: fique com a alegria da descoberta e deixe que os outros carreguem o peso do desconforto de não saberem ser autênticos.

Plath, como sempre, nos corta para a gente poder ver o que tem dentro, para recusar a vestir o terno da mediocridade.

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