Terças com Tita | O preço da estabilidade

 


A cura é uma promessa que vende. Um salto de fé para os joelhos amortecidos, um caminho para o céu, para encarar a escuridão sem sentir que se está prendendo o ar, o choro e algumas respostas indecorosas. Ninguém conta que, às vezes, esse salto é um abismo traiçoeiro. 

Não há nenhuma garantia de que essas feridas cicatrizarão num passe de mágica, a gente sabe que não é assim, que nesse cabo-de-guerra, a bravura também está escondida no ato de preservar a mão. Saber o momento de soltar a corda, quando a pele já chegou ao limite e honra nenhuma vale tamanho sacrifício.

Nunca foi sobre a promessa de nunca mais chorar, nem quebrar, nem desmunhecar… foi sobre, apesar de tudo, continuar. Chorando, em pedaços, certa de que eu não pertenço ao meu passado, nem sou meus demônios, nem certos diagnósticos, nem aqueles insultos de quem se divertiu com a minha humilhação. Não sou nada disso, nem sei o que ouso ser. 

Os efeitos colaterais de um desmame abrupto deixaram o sistema em curto-circuito, tenho receio de não sobreviver a essa noite, mas não aguento mais carregar esse baú pesado nos ombros. Ninguém contorna o abismo serrando a extensão da cruz de madeira, é mentir para si, você sabe disso. A estabilidade cobra um preço que eu pago com a balança, com a alma. Essa lógica também vende porque o verdadeiro processo de lamber as feridas é um negócio indigesto. 

Estou presa a um algoritmo vital que testa minha paciência e ressoa meus maiores medos, todos eles projetados num telão, em sorrisos plásticos que prometem perfeição, que dizem ser amor quando estão no centro das atenções. 

Vou escrevendo como quem faz um gesto obsceno para o sistema, ser real é abraçar o ostracismo, saudar as portas fechadas e ficar do lado de fora dessa festa onde os harmonizados contam suas mentiras e os que falam a verdade são silenciados nesse feed escroto.

Muita gente vende a cura como uma promessa de vida plena, mas o que ninguém conta é que o processo é uma escavação constante. É entender que, enquanto tentamos fechar uma ferida, o mundo e o sistema nos machucam de novo, de novo e de novo. Curar-se não é parar de sofrer, é aprender a sobreviver aos novos cortes sem perder a própria essência.

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