Você olha as horas, mas nem precisa levantar tão rápido porque hoje não tem aula. Você tem o dia inteirinho para fazer o que quiser. Seus pais já saíram para trabalhar e você foi arrastando os chinelos até a sala, ainda de pijama, ligar aquele aparelho de tubo pesado para assistir aos desenhos animados, bebendo achocolatado com bolacha recheada.
E se bater aquela fome à tarde? Você corre no mercadinho da esquina com algumas moedas de Real (que ainda é uma moeda “novinha”, cheirando a tinta) para comprar o Chocolate Turma da Mônica, aquele quadradinho perfeito de chocolate ao leite com o personagem em chocolate branco. Se você for dos meus, come em volta para deixar o Cebolinha por último… ou fica na expectativa pelo brinquedinho que virá no Kinder Ovo, que custa um beija-flor, como anuncia o locutor da Disapel.
Quando o cachorro chef avisa “tá na mesa, pessoal!”, é hora de almoçar. Depois, tem Chaves e Chapolin. Se você quer ver o clipe da sua banda favorita, precisará ficar de plantão na MTV, ou seja, dar uma mexida lá na antena e torcer para o sinal pegar, com o dedo no rec do videocassete.
A Rede Manchete é o nosso portal para os Cavaleiros do Zodíaco, e o SBT tem uma grade muito divertida: tem Hebe, Golias, Gugu, os domingos em ritmo de festa. No futebol? Somos deuses. O Brasil é o terror do mundo, Romário e Ronaldinho estão no auge. Não se preocupe, usar a amarelinha ainda não é coisa de tapado que pede volta de ditadura — agora, em 95, com a democracia pulsando, a gente pensaria ter assistido a uma distopia futurista de muitíssimo mau gosto, aliás.
A gente ouve músicas no rádio e grava na fita cassete, cronometrando para não pegar a voz do locutor. O Top 10 é sagrado. Ter um walkman é muito irado, mas não tanto assim quando a pilha acaba. E por falar em tecnologia, se você vir alguém interessante no Carnaval, esqueça o crush. Em 1995, ninguém “shippa” ninguém. Você diz ter uma “queda” por aquela pessoa ou que ela é sua “paquera”.
Para descobrir se o sentimento é mútuo, você precisa ter coragem para mandar um bilhetinho de papel por uma amiga ou esperar o telefone fixo desocupar para ligar (torcendo para o pai dela não atender primeiro!). Não tem “vácuo” ou “visualizado”, apenas o som de ocupado ou o silêncio do outro lado da linha. Se der sorte, talvez você possa dançar com a pessoinha ao som de alguma música romântica do momento e contar todos os detalhes para a sua melhor amiga até ela se cansar de ouvir.
Imagine a liberdade de ser invisível. Ninguém sabe onde você está, o que você está comendo ou qual música está ouvindo em tempo real. Não tem influencer fazendo você se sentir insuficiente, nem febre por “canetinha” de emagrecer — até porque a Priscila da TV Colosso não usava isso; ela era linda, fofíssima e ocupava o trono das manhãs com carisma, sem precisar de dieta ou filtro. Sua única “timeline” é o mural de cortiça no quarto, cheio de fotos de papel com olhos vermelhos e ingressos de cinema guardados como relíquias.
Você passará o fim de semana com a família toda reunida na casa dos avós. Almoço farto, músicas, risadas, brincadeiras, prosa até o dia escurecer. Você e seus irmãos e primos colocam as conversas em dia, sempre tem tanto assunto. Você vai a vários lugares, mas como não grava stories nem publica nada no feed, o recurso mais rico a seu favor é a atenção aos detalhes.
E quando o sol começa a baixar, a verdadeira “timeline” acontece no meio da rua. Não precisa de grupo no WhatsApp para marcar o encontro; é só ouvir o primeiro grito de “mãããe, posso ir lá fora?” que a calçada lota.
Você passa horas no “pique-esconde”, jogando bet (o famoso taco, não aquele das apostas) com garrafas PET, futebol de rua, onde o gol é feito com dois chinelos e a partida só acaba quando o dono da bola é chamado para jantar ou aquele vizinho chato ameaça furar a bola que caiu no quintal dele.
É uma liberdade que não tem GPS, nem é validada por curtidas e engajamento. Ninguém sabe onde você está, mas todo mundo sabe que, quando o poste acende, é o sinal sagrado: hora de entrar. Você para casa com o joelho ralado, o pé preto de poeira e uma felicidade que não cabe no peito, sentindo aquele cansaço bom que te faz dormir sem se preocupar com boleto, prazos e perdas.
Aliás, cinema exige paciência: um filme leva de 3 a 5 anos para estrear na TV aberta. Se perdeu a estreia e não alugou a fita, senta e espera!
Sexta-feira é dia de ir à locadora. Não tem algoritmo te empurrando filme chato. A curadoria, nesse caso, é você passar os dedos pelas caixinhas de plástico, ler as sinopses no verso e torcer para o lançamento não estar alugado. Levar a última cópia daquele filme que você quer ver vale o fim de semana inteiro, mas não se esqueça de rebobinar a fita antes de devolver, se não quiser pagar multa.
Espero que você tenha sorte e alugue a fita de videogame que quiser porque às vezes, quando é sua vez, só tem a fita do Beethoven. Nada contra nosso bonachão, mas aposto que você também quer sentir a adrenalina boa de usar aqueles macetes que você aprendeu para jogar Mortal Kombat ou tentar zerar o Donkey Kong Country.
Imagino a cena: é um desespero bater aquela vontade de saber “quem é aquele ator daquela série” e não ter um Google para salvar. Você precisa sair e dar uma passadinha na banca de jornais e revistas ou perguntar para aquele amigo que é a “enciclopédia ambulante” da turma. O que dá para fazer é recortar alguma foto dele de alguma matéria e colar no mural ou na agenda.
Tirar foto é um exercício de fé. Você bate as 24 poses do rolo e só descobre se ficou legal (ou se o dedo de alguém saiu na frente da lente) uma semana depois, quando vai buscar o envelope na farmácia. Não existe filtro de suavizar a pele e atenuar “defeitos” que talvez você nem tenha. A imagem é o que é, o fragmento de um momento, às vezes com flash estourado e olhos vermelhos, e talvez por isso a gente guarde cada uma com tanto carinho num álbum de plástico.
Ir ao banco é um exercício de paciência, pois as filas nunca são pequenas… ninguém nem imagina o que é um Pix. Até é possível fazer compras por correspondência, mas vai levar uma era até chegar o que você pediu. Assim como as cartas, é aquela espera agradável quando a resposta chega. Não dá para mandar áudio, porém dá para conversar no portão, ou no orelhão, se tiver ficha.
Ir ao mercado com os pais é um evento à parte. Com o salário mínimo cravado em 70 reais, cada nota de beija-flor precisa ser tratada com respeito. Não tem aplicativo de desconto nem comparação de preço em tempo real; a “calculadora” é a cabeça da sua mãe ou do seu pai, fazendo contas mentais rápidas para garantir que o básico do mês não falte.
Fazer o dinheiro render exige uma criatividade de roteirista de novela: é escolher a marca menos famosa de sabão em pó para sobrar aquele trocado para o Chocolate Surpresa ou para o iogurte que vem com o bonequinho na tampa. E detalhe: o chocolate é de verdade e não “sabor chocolate”, viu? Nada dessa mistura de gordura hidrogenada de hoje. Se você abrir uma caixa de bombom, encontraria um tesouro de 500g com cores e sabores, não esse deserto de plástico e açúcar genérico futurista.
O carrinho nunca sai transbordando como nos comerciais, mas a gente aprendeu a fazer mágica com o pouco, celebrando cada item “supérfluo” que conseguia furar a barreira do orçamento.
Quando você for ao banheiro, encontrará a icônica Kolynos amarela,. Se ligasse a TV, a Manchete ainda estaria lá, sendo o nosso portal para os Cavaleiros do Zodíaco, e o SBT não seria essa lambança de grade que ninguém entende. No futebol? Éramos deuses. O Brasil era o terror do mundo, jogando por música, muito antes da amarelinha virar uniforme de tapado que pede volta de ditadura — coisa que em 95, com a democracia pulsando, a gente acharia que era surto coletivo.
É um ano de cores vibrantes, de risada solta e de uma alegria que parece que vai durar para sempre. Tem cheirinho de material escolar, livros encapados, uniforme nunca usado. A esperança é grande e cabe num sorriso. Você não precisa se preocupar com nada do que foi nem será, só te importa o hoje.
Amanhã, você acordará de novo nos “tempos modernos” outra vez. Onde o entretenimento é ver gente confinada numa casa, a Terra virou plana para alguns e a ditadura da beleza nunca foi tão insalubre. Se você pudesse levar desse sonho alguma coisa boa para a atualidade, o que seria?

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Muito obrigada pela visita ao OCDM, espero que você tenha gostado do conteúdo e ele tenha sido útil, agradável, edificante, inspirador. Obrigada por compartilhar comigo o que de mais precioso você poderia me oferecer: seu tempo. Um forte abraço. Volte sempre, pois as páginas deste caderno estão abertas para te receber. ♥