🎉 Um dia em 1995 🕹️🍌💿



Você acordou… em fevereiro de 1995. Sei, seu primeiro pensamento foi “deu ruim”. Na verdade, ninguém fala desse jeito. O vocabulário é outro: se algo é legal, dizemos que é “massa”; se alguém é chato, chamamos de “mala”.

No começo, dá um branco. Você pensa que teve um daqueles sonhos estranhos onde não consegue se mexer, no entanto, você nunca esteve tão bem, seus sentidos estão despertos e aguçados e todos os seus brinquedos estão na prateleira ou no baú, ou mesmo espalhados pelo recinto.

Você olha as horas, mas nem precisa levantar tão rápido porque hoje não tem aula. Você tem o dia inteirinho para fazer o que quiser. Seus pais já saíram para trabalhar e você foi arrastando os chinelos até a sala, ainda de pijama, ligar aquele aparelho de tubo pesado para assistir aos desenhos animados, bebendo achocolatado com bolacha recheada. 

E se bater aquela fome à tarde? Você corre no mercadinho da esquina com algumas moedas de Real (que ainda é uma moeda “novinha”, cheirando a tinta) para comprar o Chocolate Turma da Mônica, aquele quadradinho perfeito de chocolate ao leite com o personagem em chocolate branco. Se você for dos meus, come em volta para deixar o Cebolinha por último… ou fica na expectativa pelo brinquedinho que virá no Kinder Ovo, que custa um beija-flor, como anuncia o locutor da Disapel.

Quando o cachorro chef avisa “tá na mesa, pessoal!”, é hora de almoçar. Depois, tem Chaves e Chapolin. Se você quer ver o clipe da sua banda favorita, precisará ficar de plantão na MTV, ou seja, dar uma mexida lá na antena e torcer para o sinal pegar, com o dedo no rec do videocassete. 

A Rede Manchete é o nosso portal para os Cavaleiros do Zodíaco, e o SBT tem uma grade muito divertida: tem Hebe, Golias, Gugu, os domingos em ritmo de festa. No futebol? Somos deuses. O Brasil é o terror do mundo, Romário e Ronaldinho estão no auge. Não se preocupe, usar a amarelinha ainda não é coisa de tapado que pede volta de ditadura — agora, em 95, com a democracia pulsando, a gente pensaria ter assistido a uma distopia futurista de muitíssimo mau gosto, aliás.

A gente ouve músicas no rádio e grava na fita cassete, cronometrando para não pegar a voz do locutor. O Top 10 é sagrado. Ter um walkman é muito irado, mas não tanto assim quando a pilha acaba. E por falar em tecnologia, se você vir alguém interessante no Carnaval, esqueça o crush. Em 1995, ninguém “shippa” ninguém. Você diz ter uma “queda” por aquela pessoa ou que ela é sua “paquera”

Para descobrir se o sentimento é mútuo, você precisa ter coragem para mandar um bilhetinho de papel por uma amiga ou esperar o telefone fixo desocupar para ligar (torcendo para o pai dela não atender primeiro!). Não tem “vácuo” ou “visualizado”, apenas o som de ocupado ou o silêncio do outro lado da linha. Se der sorte, talvez você possa dançar com a pessoinha ao som de alguma música romântica do momento e contar todos os detalhes para a sua melhor amiga até ela se cansar de ouvir.

Imagine a liberdade de ser invisível. Ninguém sabe onde você está, o que você está comendo ou qual música está ouvindo em tempo real. Não tem influencer fazendo você se sentir insuficiente, nem febre por “canetinha” de emagrecer — até porque a Priscila da TV Colosso não usava isso; ela era linda, fofíssima e ocupava o trono das manhãs com carisma, sem precisar de dieta ou filtro. Sua única “timeline” é o mural de cortiça no quarto, cheio de fotos de papel com olhos vermelhos e ingressos de cinema guardados como relíquias.

Você passará o fim de semana com a família toda reunida na casa dos avós. Almoço farto, músicas, risadas, brincadeiras, prosa até o dia escurecer. Você e seus irmãos e primos colocam as conversas em dia, sempre tem tanto assunto. Você vai a vários lugares, mas como não grava stories nem publica nada no feed, o recurso mais rico a seu favor é a atenção aos detalhes.

E quando o sol começa a baixar, a verdadeira “timeline” acontece no meio da rua. Não precisa de grupo no WhatsApp para marcar o encontro; é só ouvir o primeiro grito de “mãããe, posso ir lá fora?” que a calçada lota.

Você passa horas no “pique-esconde”, jogando bet (o famoso taco, não aquele das apostas) com garrafas PET, futebol de rua, onde o gol é feito com dois chinelos e a partida só acaba quando o dono da bola é chamado para jantar ou aquele vizinho chato ameaça furar a bola que caiu no quintal dele.

É uma liberdade que não tem GPS, nem é validada por curtidas e engajamento. Ninguém sabe onde você está, mas todo mundo sabe que, quando o poste acende, é o sinal sagrado: hora de entrar. Você para casa com o joelho ralado, o pé preto de poeira e uma felicidade que não cabe no peito, sentindo aquele cansaço bom que te faz dormir sem se preocupar com boleto, prazos e perdas.

Aliás, cinema exige paciência: um filme leva de 3 a 5 anos para estrear na TV aberta. Se perdeu a estreia e não alugou a fita, senta e espera!

Sexta-feira é dia de ir à locadora. Não tem algoritmo te empurrando filme chato. A curadoria, nesse caso, é você passar os dedos pelas caixinhas de plástico, ler as sinopses no verso e torcer para o lançamento não estar alugado. Levar a última cópia daquele filme que você quer ver vale o fim de semana inteiro, mas não se esqueça de rebobinar a fita antes de devolver, se não quiser pagar multa.

Espero que você tenha sorte e alugue a fita de videogame que quiser porque às vezes, quando é sua vez, só tem a fita do Beethoven. Nada contra nosso bonachão, mas aposto que você também quer sentir a adrenalina boa de usar aqueles macetes que você aprendeu para jogar Mortal Kombat ou tentar zerar o Donkey Kong Country.

Imagino a cena: é um desespero bater aquela vontade de saber “quem é aquele ator daquela série” e não ter um Google para salvar. Você precisa sair e dar uma passadinha na banca de jornais e revistas ou perguntar para aquele amigo que é a “enciclopédia ambulante” da turma. O que dá para fazer é recortar alguma foto dele de alguma matéria e colar no mural ou na agenda.

Tirar foto é um exercício de fé. Você bate as 24 poses do rolo e só descobre se ficou legal (ou se o dedo de alguém saiu na frente da lente) uma semana depois, quando vai buscar o envelope na farmácia. Não existe filtro de suavizar a pele e atenuar “defeitos” que talvez você nem tenha. A imagem é o que é, o fragmento de um momento, às vezes com flash estourado e olhos vermelhos, e talvez por isso a gente guarde cada uma com tanto carinho num álbum de plástico.

Ir ao banco é um exercício de paciência, pois as filas nunca são pequenas… ninguém nem imagina o que é um Pix. Até é possível fazer compras por correspondência, mas vai levar uma era até chegar o que você pediu. Assim como as cartas, é aquela espera agradável quando a resposta chega. Não dá para mandar áudio, porém dá para conversar no portão, ou no orelhão, se tiver ficha.

Ir ao mercado com os pais é um evento à parte. Com o salário mínimo cravado em 70 reais, cada nota de beija-flor precisa ser tratada com respeito. Não tem aplicativo de desconto nem comparação de preço em tempo real; a “calculadora” é a cabeça da sua mãe ou do seu pai, fazendo contas mentais rápidas para garantir que o básico do mês não falte.

Fazer o dinheiro render exige uma criatividade de roteirista de novela: é escolher a marca menos famosa de sabão em pó para sobrar aquele trocado para o Chocolate Surpresa ou para o iogurte que vem com o bonequinho na tampa. E detalhe: o chocolate é de verdade e não “sabor chocolate”, viu? Nada dessa mistura de gordura hidrogenada de hoje. Se você abrir uma caixa de bombom, encontraria um tesouro de 500g com cores e sabores, não esse deserto de plástico e açúcar genérico futurista.

O carrinho nunca sai transbordando como nos comerciais, mas a gente aprendeu a fazer mágica com o pouco, celebrando cada item “supérfluo” que conseguia furar a barreira do orçamento.

Quando você for ao banheiro, encontrará a icônica Kolynos amarela,. Se ligasse a TV, a Manchete ainda estaria lá, sendo o nosso portal para os Cavaleiros do Zodíaco, e o SBT não seria essa lambança de grade que ninguém entende. No futebol? Éramos deuses. O Brasil era o terror do mundo, jogando por música, muito antes da amarelinha virar uniforme de tapado que pede volta de ditadura — coisa que em 95, com a democracia pulsando, a gente acharia que era surto coletivo.

É um ano de cores vibrantes, de risada solta e de uma alegria que parece que vai durar para sempre. Tem cheirinho de material escolar, livros encapados, uniforme nunca usado. A esperança é grande e cabe num sorriso. Você não precisa se preocupar com nada do que foi nem será, só te importa o hoje.

Amanhã, você acordará de novo nos “tempos modernos” outra vez. Onde o entretenimento é ver gente confinada numa casa, a Terra virou plana para alguns e a ditadura da beleza nunca foi tão insalubre. Se você pudesse levar desse sonho alguma coisa boa para a atualidade, o que seria?


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