Você julgou a história pela capa, condenou-me pelas entrelinhas, atuando como Deus no julgamento final.
Você me
odeia porque eu não sou o que você esperava que eu fosse.
Na realidade, você tem tanto receio do que é novo
que simplesmente o rejeita sem nem sequer conhecer mais a fundo para quebrar
paradigmas e fronteiras da própria mente.
O mundo evolui e a sua casca se fragiliza, mas
você se nega a aceitar o novo e tolerar aquilo que é diferente do que você
julga por certo ou errado.
Cansei-me de tentar ser a Cinderela. Meus pés
não cabem naqueles sapatos. Falta-me a graciosidade e a passividade que fariam
de mim uma princesa, mas eu quis ser princesa mesmo assim, dona de mim.
Uma princesa assim não lucra.
Uma plebeia sem coroa, estressada e louca, puta
por ser simplesmente eu mesma.
Xingar-me de puta é bem mais fácil do que me
respeitar.
Sou puta porque não sou o que você espera, mas
você jamais admitiria isso porque se choca com um palavrão e não com o que
realmente deveria te assombrar.
Ser o que você almeja anula a naturalidade.
Num mundo carente de espontaneidade, um nobre
gesto de coragem é romper com os padrões doentes e retrógrados que sufocam
almas até que elas se rendam e se curvem ao inferno da mesmice.
Por muito tempo desejei estar conforme as expectativas alheias e me adequar àquelas estreitas linhas que determinavam com
precisão até onde eu podia ir.
Ser a tal da mocinha. Nada ao contrário disso,
por gentileza.
Julgada pela beleza (ou a falta dela), segundo o peso (de preferência menos de 50 kg), por ter (ou não ter) uma
vida amorosa, por um pedaço de pele que ninguém vê, mas se torna mais
importante que o caráter para aqueles que ainda não aprenderam a respeitar uma
mulher.
Especulações, lições de moral à revelia, feitas
sob a encomenda de indiretas. Milhares de dedos podres apontados na minha
direção. O calibre desta arma é letal porque a bala de prata equivale ao veneno
da mais perigosa espécie de cobra.
Procurar o ponto exato da perfeição, trombar
com a depressão e ser ridicularizada pelo simples fato de reconhecer que, apesar
dos esforços, não sou constituída de ferro. E a frieza tão rechaçada é a minha
defesa contra os mais sórdidos ataques vindos logo daquele que tanto disse me
estimar e foi capaz de me destruir insistentemente com a desculpa de me amar
mais do que tudo no mundo.
Minhas linhas não formam a "verdadeira
poesia" porque têm a minha alma e estão pouco se lixando para a riqueza
das rimas ou a estruturação de sílabas.
As mocinhas perfeitas são rendosas porque não
há esforço em projetar nas linhas uma versão inexistente de você, cara
criadora. Desculpe-me a franqueza, mas eu
não estou interessada em ler as porcarias das suas idealizações de como a merda
do mundo deveria ser.
Se for impossível uma mulher ser machista,
posso dizer que você reproduz o discurso machista, sim, é racista, preconceituosa. Inovação é mais do que a mocinha
ter olhos verdes em vez de azuis.
Você projeta na sua personagem perfeitinha e
irritante tudo aquilo que você não é e não tem. Pessoas igualmente vazias como
você se identificam com as suas baboseiras.
Números são ilusões.
Sua personagem é o arquétipo do que você acha que é certo, do que me
aprisionou por muito tempo porque tentei ser a mocinha religiosa e perfeita,
mas nunca me senti de verdade enquanto lutei para viver conforme os rótulos.
Senti-me despencar num precipício de medo e
tortura por desviar da reta, todavia as algemas da alma se soltaram e eu pude
enfim abrir os braços, sentir sem que ninguém definisse antes das minhas
próprias conclusões.
Você julgou-me por um beijo que dei. Um simples
beijo. Errada ou não, a boca é minha e
não sua.
Eu só tinha doze anos e dei um único beijo.
Um beijo não engrandece nem diminui ninguém.
Pare de me comparar com você na mesma idade, tenha senso. Se eu fosse uma
pessoa real, de carne e osso, não deveria nenhuma satisfação a você.
Eu tinha doze anos e gostava de um garoto mais
velho. Nesse sentido, não fui diferente de ninguém. Não passando de uma criança
indefesa que sem mãe e carinho de pai, me apeguei à imagem de um rapaz por
pensar que ele poderia preencher o vazio que eu sentia, mas a verdade se
revelou, a decepção destruiu minha utopia e eu descobri que o meu
“príncipe” era um monstro.
Você foi incapaz de perceber o quanto as
aparências enganam porque mede o caráter dos outros pelos músculos, pelos olhos
brilhantes e a barriga sarada.
Você não leu com o coração e sim com ódio,
querendo encontrar um motivo para me desqualificar porque não saciei suas
malditas expectativas.
Sério, foda-se
você.
Foda-se o seu conservadorismo velado e
ridículo.
Foda-se se você não é capaz de abrir essa sua
mente medíocre e opressora que despreza a minha história porque nela as coisas
não acontecem do jeito que você “acha” que deveria ser.
Foda-se se você acha que eu deveria ter feito
assim ou assado.
EU NÃO NASCI PARA TE AGRADAR!
Pare de julgar as pessoas pela cor dos olhos, de desmerecer as esferas castanhas, as sardas, as saliências no abdômen, as coxas roliças.
Somos muito mais do que músculos definidos e membros torneados.
Não vou
permitir que o seu padrão assassine a minha autoestima.
Não sou certinha e não faço questão de ser.
Orgulho-me de cada lágrima que meu rosto
quadrado de olhos castanhos acolhe.
Amo cada centímetro do meu corpo, cada cicatriz
que tenho por dentro e por fora porque elas são os melhores feedbacks da minha
história. Eu não seria nada sem o sofrimento, nem metade do que eu sou.
Cuida da sua “salvação”. Sou apenas uma
personagem, existo para quem é capaz de me sentir. Não demonize o prazer de
uma pessoa que nem existe e nem das que existem.
CUIDA DA SUA VIDA!
Por pessoas como você, muitas mulheres crescem acreditando que sentir prazer faz delas “vagabundas”.
Eu fui uma dessas garotas.
Falo palavrão e tenho a boca suja, mas nada se compara com o seu ódio velado contra tudo o que se opõe ao seu protótipo doente de perfeição que nem eu e 99% do mundo nos encaixamos.
Quero amar o amor como ele é.
Não é uma porcaria de uma fórmula ultrapassada que vai me parar.
Não sou composta somente de predicados. Meus defeitos alimentam toda a complexidade do ser. Junto das qualidades eles fazem de mim o que eu sou.
Ser o que você almeja é renegar a essência. Ordinária e inexpressiva. Um rascunho apagado de um sonho maior.
Que, com a razão, eu perca também o medo.
Que a liberdade seja o meu caminho e se não houver nenhum lugar que me aceite, serei como um pássaro, livre para voar, mas não vou de maneira alguma mudar o que eu sou para agradar a quem me odeia e me julga sem conhecer a verdade.
O tempo que perdi nunca me pertenceu. Tenho o presente até amanhã. E depois de amanhã, simplesmente não sei.
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