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| Captura de tela do The Sims 4 (Reprodução/Arquivo pessoal da Mary) |
A vida universitária corrobora uma teoria que eu queria veementemente ter refutado: os idiotas também chegam ao ensino superior.
Aquele que deveria ser o templo do saber, muitas vezes é só o coliseu onde aqueles que apenas cresceram, mas não amadureceram, continuam usando as mesmas táticas da quinta série, agora incluindo termos como "networking" ou "trabalho em equipe" entre quatro palavras e o vício de linguagem "tipo" — típico de quem não tem muito repertório e quer se pagar de orador.
Apresentar seminário em grupo já deixava a gente com piriri na escola; não tem como fugir dele na faculdade, sobretudo quando alguns professores parecem ter "preguiça" de dar aula e preferem mandar a turma apresentar trabalho enquanto eles ficam sentados a aula toda. Fui reler essa oração e ela ficou ambígua, porque quem se torna inescapável: o piriri pré-apresentação ou a ladainha de professor preguiçoso? Professor não, docente!
Além disso, faltou lembrar que quem não é muito enturmado sempre se lasca, porque, se o povo da sua turma não for muito com a sua cara, na hora de montar equipes para os trabalhos, você vai sobrar na conta. De duas, uma: ou vai entrar num grupo aleatório porque não tem vaga em nenhum, ou vai formar um grupo com pessoas avulsas — e, se azar pouco for bobagem, terá de fazer toda a pesquisa, a parte escrita e os slides, e os turistas irão aparecer (ou não) no dia da apresentação.
Eu nunca entendi o porquê daquele desprezo todo. Qualquer pessoa que entrasse na turma era bem recebida, mas eles agiam como se eu não merecesse estar lá, como se eu fosse inferior demais para pertencer, para ganhar um bom-dia. Prometi não ser fraca, tentei aguentar até onde as estruturas permitiram, engolindo as lágrimas e a vontade de perguntar o que eu poderia ter feito de tão errado.
Dizem que devemos focar só na vida acadêmica e não em entrar em panelinhas, mas é impossível ser indiferente. A rejeição reabre velhas feridas, abala a autoestima, faz parecer que todo esforço para realizar um antigo sonho não vale nada. Pedir para ignorar tudo é fácil para quem aconselha, não para quem vive aquela realidade dura de indiferença e solidão.
Na minha turma tinha um monte de turista, porém até eles eram enturmados e tinham amiguinhos que preenchiam os nomes deles nas listas de presença. Se eu precisasse faltar, levava as faltas e ninguém nem perguntava se eu estava bem, nem nada do tipo. Nenhuma cantada no Spotted, nunca estive tão em baixa.
É lógico que o sonho virou pesadelo. Fiz silêncio porque não quis confiar na minha percepção. Enxergar a realidade tal como ela é pode ser humilhante, como um soco desprevenido na boca do estômago.
E o peito dói. E a vontade de chorar não passa. E a determinação para contornar os obstáculos diminui a cada semana que passa.
Voltando aos temidos seminários... Tem professor que, quando não falta, faz prova com conteúdo que nem ensinou, só joga slide ou manda fazer trabalho em grupo só para economizar na hora de dar nota.
E os bullies não são mais os valentões que batiam na gente no corredor. Eles são os que adoram debater o mundo, que dizem ser pela paz e pelo amor, pelas minorias, pelos injustiçados; são os que adoram ler em voz alta qualquer textinho que o professor peça para ler, os puxa-sacos que querem monopolizar a atenção até depois que o sinal toca e a aula acaba.
A Cássia Reis do ensino superior não é aquela que te xinga na frente de todo mundo. Muito pelo contrário, ela te destrói com a rejeição, afastando as outras pessoas de você sem que você possa entender o motivo. É aquela que "todo mundo adora" por "farmar aura" (adaptando para o contexto atual) e ser a líder da turma. Não ter a aprovação dela significa uma experiência tão infeliz quanto o ensino fundamental.
Atrevo-me a dizer que, de acordo com a minha experiência nesse ambiente, até o ensino fundamental era mais feliz. Pelo menos sempre tinha um grupinho de pessoas que também era excluído, não ia com a cara da dita-cuja e me achava legal. Naquela classe, todos pareciam rendidos àquela falastrona egocêntrica que decidiu me odiar, mas, mais do que isso, convenceu todo mundo de que eu não merecia me enturmar. Era a mesma que falava de sororidade, feminismo e girl power, pelo jeito, não me considerava gente o suficiente para compartilhar o mesmo ambiente que ela. Enfim, a hipocrisia.
Não era coisa da minha cabeça, nem foi falta de esforço, nada disso. Só Deus sabe o que eu passei e o quanto até hoje eu tenho medo de simplesmente ir ao shopping porque não quero ver aquelas pessoas de novo, já que o estabelecimento fica a uma quadra da universidade. E, sim, eu carrego essas mágoas, pois eu não queria ser melhor do que ninguém; só queria ir à aula, aprender, viver, me permitir fazer coisas que a timidez me impediu.
Pode ser que o bullying no ensino superior não seja tão reportado, mas ele existe e é preciso falar a respeito para que quem sofre possa se lembrar de que não está sozinho, como eu me senti naqueles meses, sem ter com quem contar, sem contraponto, sem encontrar um lugar e um grupo para chamar de meu.
O mais frustrante é que eu não estava indo mal. Pelo contrário: minhas notas eram boas. Não fui embora porque não desse conta de Letras, porque não entendesse as aulas ou porque tivesse descoberto que escolhera o curso errado. Eu queria estar ali. Talvez seja justamente isso que torne a lembrança tão dolorosa: academicamente, eu conseguia. O que se tornou insustentável foi continuar entrando numa sala onde eu me sentia indesejada.

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