Com o adiamento de México e Inglaterra por uma hora devido às tempestades na Cidade do México, o pós-jogo da Malacubaca continuou repercutindo a vexatória eliminação do Brasil diante da Noruega.
De pé em frente ao imponente telão onde uma arte mostrava a longa sequência de derrotas brasileiras para times europeus em mata-mata de Copas do Mundo, Vivaldo desabafava:
— O que a gente viu em campo hoje é a morte do futebol, é a vergonha nacional. É esse vexame. Sim, sim... um vexame. V-E-C-H-A-M-E. E podem me xingar porque eu não tenho medo, eu fui tetracampeão, tenho moral pra mandar a real.
Uma das câmeras focou na expressão confusa de Rubão, ao centro, entre ele e Edu Meirelles, ainda tentando assimilar a soletração do amigo e colega de transmissão.
— O episódio de hoje evidenciou a nossa insistência nos mesmos erros — opinou Edu. — Ficou muito claro que esse ciclo infrutífero pede uma reestruturação completa das nossas instituições futebolísticas. Vivemos momentos bonitos no passado, mas os tempos são outros.
— É o que eu sempre digo, Meirelles. Eu sempre digo nas minhas palestras, pros meus alunos, se não fizer gol, vai levar. É a máxima do futebol.
— Se a gente não se submeter a uma autocrítica verdadeira e profunda, daqui a quatro anos estaremos lamentando outra eliminação.
— O Brasil perdeu porque não fez gol.
— Até fez um, mas marmelada na hora da morte não adianta nada...
— Exatamente, Meirelles! — gesticulou o tetracampeão. — Fazer um gol não resolveu o problema, era pra ter feito antes.
— Eu mudaria meu nome se perdesse um gol feito daqueles... — gabou-se Edu. — Põe na tela esse pênalti perdido. Observem bem a categoria... até uma tartaruga faria esse gol!
— Faltou malandragem...
Rubão tentava uma brecha para falar, mas o pingue-pongue entre Edu e Vivaldo frustrava todas as suas tentativas. Quando finalmente conseguiu abrir a boca, Vivaldo retomou o raciocínio:
— Perdeu várias oportunidades de resolver o jogo. Quem não faz gol, não ganha. Quem não ganha, não levanta taça... E quem não levanta taça vai embora mais cedo. Não estou inventando nada, só falando o que todo mundo em casa está pensando.
— O sonho do hexa fica pra 2030 — Rubão tentou tomar a palavra.
— Você ainda é otimista, Rubão. Se continuar do jeito que está, nem nossos netos vão ver o Brasil campeão — ironizou Edu.
— Agora não tem quem não esteja procurando um algoz para a eliminação precoce. As redes sociais estão fervendo de críticas e memes... porque se tem uma coisa que o brasileiro sabe fazer até quando o navio afunda, é piada. E se a gente já está na chuva, não tem jeito, vai se molhar, mas também vai rir como nunca... Produção, mostra aí alguns memes que estão repercutindo agora.
Eis que algum internauta ligeiro reparou na soletração do Vivaldo e não perdeu tempo.
— Vexame não é com CH? — Vivaldo engoliu em seco. — Deve ter sido o nervosismo. Embolei as palavras na hora de falar, mas peço desculpas. Ao vivo é assim mesmo, a gente fala o que está pensando e sentindo numa hora dessas. O Brasil todo triste e indignado com o que aconteceu... devo ter confundido uma coisa com outra, mas o vexame continua sendo vexame e foi o que a gente viu hoje.
— O importante é reconhecer o erro, Vivaldo. — alfinetou Edu.
— É o que eu sempre digo, Meirelles. Errar é humano... quem nunca errou? Mas o que está acontecendo é a insistência no erro. Errar uma ou duas vezes a gente até perdoa, até os melhores do mundo erram, mas errar uma vez não é desculpa pra viver errando e pedindo desculpas... tem que mudar essa mentalidade aí!
— Não por nada, longe de mim querer levantar polêmica...
— Mas já levantando... — disparou Rubão.
— Eu sou um ferrenho defensor do bom futebol, do futebol arte, por isso estou tão decepcionado com o que testemunhamos mais cedo. Na verdade, o jogo de hoje foi apenas um exemplo, mas os sinais estavam claros desde a primeira partida. Eu quis, quis de verdade acreditar, quis estar errado, mas o fato é que eu nunca me engano.
Rubão engoliu em seco. O olhar era do tipo "a humildade mandou lembranças, mermão".
— Eu sou do time do Vivaldo... a gente perdeu o amor à camisa. Nelson Rodrigues morreria de desgosto se estivesse vivo, Galeano não escreveria mais uma só linha. Mas eles estariam rendidos se eu, Eduardo Meirelles, tivesse encerrado minha carreira de craque levantando o tricampeonato consecutivo do Brasil. Eu veria até meus adversários e críticos obrigados a me aplaudirem!
— Eu, como um tetracampeão de respeito, nunca vendi meu rosto para ser garoto-propaganda de site de apostas...
Não que ele tenha recebido alguma proposta, diga-se de passagem...
— Aceitaria algum contrato?
Vivaldo pareceu hesitar, mas logo ajeitou a postura confiante de sempre:
— A Malacubaca me paga bem, estou dando minhas aulas, ruim não está, não...
— E você, Meirelles?
— Com esse corpo monumental, fazendo comercial de cerveja, carro, shampoo e cueca, eu lá iria precisar fazer anúncio de bets? — respondeu Edu, o bastião do quase. — Na condição de craque mundial, respeitado nos quatro cantos do mundo, não posso nem devo envolver meu nome nesses esquemas de apostas que tantos malefícios têm trazido à nossa sociedade. O único bolão que eu faço é no bom e velho caderninho... e o do Rubão.
— Por falar no Bobão do Rubão — empolgou-se o próprio comunicador.
Edu e Vivaldo se olharam e caíram no riso.
— ... bolão! Eu quis dizer Robão do Bulão! — Rubão corou, mas não perdeu a pose. — Bolão do Rubão! Agora sim deu certo! É como diz o nosso amigo Vivaldo: ao vivo a gente se embola todo... e por falar no bolão mais animado da televisão, vamos conhecer os ganhadores de hoje...
A eliminação do Brasil continuará repercutindo dentro e fora da internet, porém na Malacubaca a diversão nunca sai de campo.
Coladinho com a transmissão do jogo entre México e Inglaterra, teremos o sorteio do Bolão do Rubão.
Logo após o Bolão do Rubão, fiquem com mais um jogaço das oitavas de final, México e Inglaterra.
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