Quando é hora de saber parar

 


Todo mundo conhece bem a sensação de admitir que todas as chances se esgotaram. Dói na boca do estômago, no peito, na alma, na garganta travada pela ausência de palavras. C'est fini

Se estava liberado acreditar, também está liberado sentir raiva. Pelo pênalti perdido, por todas as bolas perdidas na cara do gol, pela impotência transformada em oportunidade do outro lado. 

De mim também.

Não joguei nem trinta segundos, não seria nem gandula, mas às vezes me vejo nadando e morrendo na praia, já que não sei remar e na certa teria virado o barco também. Fracassei em tudo que tentei fazer na vida e até na hora de tentar tirá-la. 

Estou sentada no gramado, com a cabeça coberta, só não tenho mais lágrimas para derramar. A medicação transformou a inquietação em apatia e deformou a feminilidade, essa luta está perdida antes do fim. Nem prorrogação, nem pênaltis, nada pode me livrar da condenação de estar na minha própria pele.

O algoritmo cospe na minha cara que não sou inteligente nem bonita nem magra nem boa o bastante. Tentar entender o que estar por trás dessa lógica obscura só serve para me torturar ainda mais.

Se o camisa 10 decidiu pendurar as chuteiras, o que mais falta para eu entender de uma vez por todas que ninguém quer ler nada do que eu tenha a dizer?

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