Ainda tenho muito chão pela frente em relação aos projetos audiovisuais, mas trabalhar neles me faz um bem danado. Hoje, olho para aquele cômodo e lembro da noite quente em que me sentei no chão, peguei algumas folhas de papel sulfite, uma caneta azul e decidi escrever uma novela.
O conteúdo? Provavelmente não me representaria hoje (era puro suco de novelas mexicanas!), porém isso não vem ao caso. O importante é segurar na mão da coragem de começar um empreendimento sem grandes pretensões, apenas delimitando o primeiro parágrafo de um sonho que já falava ao meu coração havia muito tempo.
Em busca do equilíbrio
Por que é tão difícil voltar a fazer o que mais amo? O que me faz recuar depois de tantos progressos?, essa é a pergunta que a menina me faz.
Sempre fui uma criança muito imaginativa. Desde cedo já criava historinhas sobre a vida do meu cachorro e dos bichos que fizeram parte da infância. Perdi essas lembranças de papel com o passar do tempo, mas um tiquinho dessa magia sobreviveu ao passar dos anos.
Eu já criava altas cenas dentro da cabeça, só não sabia muito bem como transferir tudo para o papel. Na teoria, parece “fácil”, só que não. As ideias ferviam dentro daquele caldeirão colorido da mente, no entanto, bastava pegar papel e caneta que a coragem sumia igual naqueles dias de apresentar um seminário para a classe inteira.
Muito dificilmente, o início conta com holofotes. A força motriz é a iniciativa. Toda história começa com uma primeira palavra. O valor do rascunho se percebe quando, numa das voltas que a vida dá, observo além das incoerências e das falhas, que o caminho para o aprimoramento tem o erro como norte. Ninguém nasce escrevendo perfeitamente, mesmo quando há uma inclinação maior.
Descobri cedo o peso do perfeccionismo: aquele que, em excesso, destrói a delícia de produzir. Uma das inúmeras batalhas de quem escreve é desenvolver uma relação mais saudável com a própria arte. Se vivemos adiando nossos sonhos, talvez não sobre tempo para realizá-los. Ao mesmo tempo, se andamos nas nuvens sem nos ancorar pelo menos um pouquinho na realidade, o tombo vem. E não é pequeno.
Outra eterna busca é pelo equilíbrio entre não padecer à autossabotagem e a arrogância. Nesse caso, cabe a nós desenvolver uma casquinha para não nos deixar enaltecer pelos elogios e nos colocar num pedestal, bem como também não levar tanto para o coração a opinião isolada de uma pessoa.
Travada pelo bloqueio
Quando pensamos na palavra crítica, sempre nos ocorre a conotação negativa. No entanto, o significado é bem mais amplo do que um “não gostei”. Reconheço que minha escrita pode não ser tão agradável para alguns leitores, que talvez não gostem dos meus livros ou personagens, e está tudo bem. É sério, você aí do outro lado não tem obrigação nenhuma de ler (nem que seja por amizade) ou gostar do que escrevo. Nunca leia por obrigação, pois meu carinho não é uma barganha de interesses.
Quem já sofreu bullying sabe que o trauma é tão grande que buga o sistema. O medo me faz viver em estado de alerta, como se a qualquer momento eu fosse abrir o blog e encontrar um comentário desaforado porque em tanto tempo escrevendo, seria quase impossível não ter pelo menos um causo complicado para contar. Por outro lado, esse negócio de me fazer de vítima não cola, muito embora eu ainda me veja um pouco paralisada por uma crítica recebida em 2019.
Às vezes, uma pessoa tem um olhar totalmente diferente acerca daquilo que escrevemos. Quando existe respeito, essas diferenças podem se tornar degraus para o amadurecimento, para uma percepção mais aguçada sobre a própria vida, de modo geral. Entretanto, há quem confunda feedback com ataque pessoal e transforme a resenha numa ofensa particular contra quem escreveu. Aqui, é essencial ter cautela porque algumas observações pontuais podem ser de grande valia num processo de revisão, reescrita, reedição, outras podem contribuir até para alguém pensar em desistir da vida.
Quanto a erros gramaticais ou de concordância, acato todos. Eu mesma já sou minha mais rigorosa juíza. Agora, uma pessoa vir e me tratar como uma analfabeta e me acusar de crimes que não cometi, são outros quinhentos. Não sou obrigada a concordar com calúnias esdrúxulas vindas de quem não parece ter moral para apontar o dedo para mim.
Felizmente, o jardim não se faz só de ervas-daninhas. A joaninha encontra vaga-lumes, borboletas, abelhas, besouros e uma infinidade de vidas que se deixam cativar. Inspiram, ensinam, emocionam, acolhem. Eles merecem um espaço maior do que os odiadores ou alguma odiadora de plantão.

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