🍕 10 de julho | Dia da Pizza


Venha, pode entrar! Não tem bolo, mas nossa cantina está cheirando a massa assando, queijo derretido e manjericão fresco, porque a ocasião pede. Sextou, e sextou combina com pizza.

Se você chegou até aqui atraído pelo cheiro de queijo derretido que está escapando da cantina da Malacubaca, fique à vontade. Hoje ninguém está contando calorias; a Noviça já pediu uma pizza inteira só para ela, o Vivaldo jurou que conhece a verdadeira origem da marguerita e o Luís Carlos está prestes a iniciar uma discussão completamente desnecessária sobre colocar ou não ketchup na pizza.

Enquanto a turma debate assuntos de extrema importância gastronômica, aproveite para descobrir como uma receita criada há séculos atravessou oceanos, conquistou o Brasil e acabou virando presença obrigatória nas noites de sexta-feira.


— Só quero deixar uma coisa bem clara — avisou Vivaldo, olhando para os colegas antes mesmo de abrir o cardápio. — Hoje ninguém sai correndo quando o garçom aparecer com a maquininha.
— Eu nunca fiz isso! — protestou Eduardo Meirelles, cujo histórico não nos permite colocar as mãos no fogo por ele. Na verdade, eu não colocaria nem um tiquinho do dedo mindinho no fogo por ele.
— Mentira — respondeu Renata.
— Mentira — concordou Noviça.
— Mentira — acrescentou Luís Carlos.
— Uma vez você fingiu que precisava atender uma ligação urgente — completou Lilly.

— Era urgente! — insistiu o bonitão.
— A ligação nem existia! — protestou Renata.
— Eu estava sem sinal.
— Você estava dentro da pizzaria.

Enquanto Eduardo tentava defender sua reputação, a mesa já se dividia entre os partidários da calabresa, os defensores da marguerita e aqueles que estavam dispostos a iniciar uma guerra civil por causa do abacaxi na pizza.

— Eu só queria uma noite tranquila — suspirou a Noviça.
— Escolheu o grupo errado — respondeu Renata.

Entre discussões sobre recheios, acusações de calotes gastronômicos e opiniões que jamais deveriam ter sido verbalizadas em público, surgiu uma pergunta muito mais importante:

Afinal, quem teve a brilhante ideia de criar a pizza?

— Então quer dizer que a pizza foi inventada pelos italianos? — perguntou Luís Carlos, já na terceira fatia.
— Não exatamente — respondeu Renata. — Antes mesmo da Itália existir como conhecemos hoje, gregos, egípcios e persas já assavam massas achatadas em fornos rústicos e colocavam por cima ingredientes como azeite, ervas e queijos.
— Ou seja, a humanidade estava certa desde a Antiguidade — concluiu Vivaldo. — Algumas invenções simplesmente não precisavam ser melhoradas.
— Fala isso porque você ainda não provou pizza de chocolate — retrucou Noviça.

Enquanto a discussão gastronômica seguia seu curso natural, Renata aproveitou para explicar que a versão mais próxima da pizza moderna surgiu em Nápoles, no sul da Itália. Por volta do século XVIII, trabalhadores da cidade passaram a consumir pães achatados cobertos com molho de tomate e temperos, uma refeição barata, prática e nutritiva.

— Trabalhador, comida barata e tomate. Já estou me identificando com a história — comentou Eduardo. — Você só se identifica com a parte da comida barata — corrigiu Renata.

A popularidade foi tanta que, em 1738, surgiu a Antica Pizzeria Port'Alba, considerada a primeira pizzaria do mundo. O estabelecimento existe até hoje e utilizava fornos revestidos com pedra vulcânica do Vesúvio.

— E sabe qual é a melhor parte? — continuou Renata.
— Degustação grátis? — arriscou Eduardo.
— Não.
— Rodízio vitalício?
— Também não.
— Então não sei.
— Os clientes podiam pagar em até oito dias.

Eduardo endireitou a postura na cadeira.

— Finalmente uma tradição histórica com a qual eu me identifico.

Renata arqueou uma sobrancelha.

— Com certeza, o dono da pizzaria precisava acreditar fielmente em Papai Noel, no Coelhinho da Páscoa, na Fada dos Dentes, em duendes, no pote de ouro no fim do arco-íris e, claro, no tetracampeonato do Vivaldo.
— Ei! — protestou Vivaldo.
— O que foi? — perguntou Noviça.
— Estão me chamando de caloteiro? — reagiu Edu.
— Se a carapuça serviu, pode calçar o sapatinho de cristal, Cinderela! — finalizou Vivaldo.

— Então quer dizer que uma rainha ganhou uma pizza em sua homenagem? — perguntou Noviça.
— Em 1889 — confirmou Renata. — O pizzaiolo Raffaele Esposito preparou uma receita especial para a Rainha Margherita de Savoia.
— Eu trabalho há anos nesta emissora e nunca ganhei uma pizza com meu nome.
— Você já ganhou uma caneca.
— Não é a mesma coisa.

Renata ignorou a reclamação e continuou:

— A receita levava molho de tomate, muçarela e manjericão, representando as cores da bandeira italiana: vermelho, branco e verde.
— Então a Margherita nasceu por patriotismo? — perguntou Luís Carlos.
— E porque a rainha gostou da pizza — respondeu Renata.
— Se dependesse do meu gosto, já existiria a Pizza Noviça há muito tempo.
— O que iria nela? — perguntou Eduardo.
— Paciência e cobertura de goiabada.
— Então seria uma pizza vazia.
O comentário foi recebido com uma chuva de guardanapos.


Décadas depois, a pizza atravessou o oceano junto com os imigrantes italianos e encontrou um novo lar no Brasil. A primeira pizzaria brasileira surgiu em 1910, no bairro do Brás, em São Paulo.

— E foi aí que começamos a cometer excessos — observou Vivaldo.
— Excessos deliciosos — corrigiu Luís Carlos.

Diferentemente da tradição italiana, que costuma valorizar poucos ingredientes e sabores mais simples, os brasileiros decidiram que espaço livre sobre uma pizza era desperdício.

— Concordo plenamente — declarou Eduardo.
— Você concorda com qualquer coisa que envolva comida.
— Também concordo com isso.

Hoje existem pizzas de praticamente tudo: requeijão, milho, estrogonofe, brigadeiro, Romeu e Julieta e combinações que provavelmente fariam alguns italianos pedir explicações diplomáticas.

— E o ketchup? — perguntou Luís Carlos.

A mesa inteira ficou em silêncio.

— Não vamos começar essa discussão — avisou Noviça.
— Concordo — disse Renata.
— Pela primeira vez na noite — acrescentou Vivaldo.
— Principalmente porque, quando o assunto é pizza, cada brasileiro tem uma opinião e todas elas acham que estão certas.
— Então quer dizer que existe um Dia da Pizza? — perguntou Eduardo, pegando a última fatia antes que alguém pudesse reagir.
— Existe — respondeu Renata. — E a data é 10 de julho.

Ela explicou que a comemoração surgiu em 1985, depois de um concurso organizado pela Secretaria de Turismo de São Paulo para eleger as melhores pizzas de mussarela e margherita. O evento fez tanto sucesso que o então secretário Caio Luiz de Carvalho oficializou a data.

— Finalmente um feriado que eu respeito — declarou Eduardo.
— Não é feriado.
— Deveria ser.

A essa altura, a discussão já tinha abandonado a história e migrado para um assunto muito mais sério: os sabores.

— Calabresa — disse Luís Carlos.
— Marguerita — respondeu Renata.
— Quatro queijos — opinou Vivaldo.
— Frango com catupiry — escolheu a Noviça.
— Chocolate com morango — arriscou Eduardo.

O silêncio foi imediato.

— Você acabou de destruir toda a sua credibilidade gastronômica — decretou Renata.
— Ainda bem que eu nunca tive nenhuma.

Entre clássicas e criativas, apimentadas ou doces, simples ou exageradamente recheadas, as pizzas foram conquistando espaço nas mesas brasileiras e ganhando versões para todos os gostos.

— No fundo — concluiu Noviça — o melhor sabor sempre é aquele que reúne gente para conversar.
— Concordo — disse Eduardo.
— Porque você gosta da companhia?
— Não. Porque assim alguém divide a conta.

Dessa vez, os guardanapos vieram acompanhados de uma ameaça formal de expulsão da pizzaria.

E talvez seja justamente esse o segredo da pizza: mais do que uma receita, ela virou uma desculpa perfeita para reunir pessoas, criar memórias e render boas histórias.

Agora queremos saber: você é #TimeClássica ou #TimeCriativa? Tem um sabor favorito? E, principalmente, você divide a conta ou faz como o Eduardo quando a maquininha aparece?

Até a próxima fornada!

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