Se você chegou até aqui atraído pelo cheiro de queijo derretido que está escapando da cantina da Malacubaca, fique à vontade. Hoje ninguém está contando calorias; a Noviça já pediu uma pizza inteira só para ela, o Vivaldo jurou que conhece a verdadeira origem da marguerita e o Luís Carlos está prestes a iniciar uma discussão completamente desnecessária sobre colocar ou não ketchup na pizza.
Enquanto a turma debate assuntos de extrema importância gastronômica, aproveite para descobrir como uma receita criada há séculos atravessou oceanos, conquistou o Brasil e acabou virando presença obrigatória nas noites de sexta-feira.
— Só quero deixar uma coisa bem clara — avisou Vivaldo, olhando para os colegas antes mesmo de abrir o cardápio. — Hoje ninguém sai correndo quando o garçom aparecer com a maquininha.
— Eu nunca fiz isso! — protestou Eduardo Meirelles, cujo histórico não nos permite colocar as mãos no fogo por ele. Na verdade, eu não colocaria nem um tiquinho do dedo mindinho no fogo por ele.
— Mentira — respondeu Renata.
— Mentira — concordou Noviça.
— Mentira — acrescentou Luís Carlos.
— Uma vez você fingiu que precisava atender uma ligação urgente — completou Lilly.
Enquanto Eduardo tentava defender sua reputação, a mesa já se dividia entre os partidários da calabresa, os defensores da marguerita e aqueles que estavam dispostos a iniciar uma guerra civil por causa do abacaxi na pizza.
Entre discussões sobre recheios, acusações de calotes gastronômicos e opiniões que jamais deveriam ter sido verbalizadas em público, surgiu uma pergunta muito mais importante:
Afinal, quem teve a brilhante ideia de criar a pizza?
— Então quer dizer que a pizza foi inventada pelos italianos? — perguntou Luís Carlos, já na terceira fatia.
— Não exatamente — respondeu Renata. — Antes mesmo da Itália existir como conhecemos hoje, gregos, egípcios e persas já assavam massas achatadas em fornos rústicos e colocavam por cima ingredientes como azeite, ervas e queijos.
— Ou seja, a humanidade estava certa desde a Antiguidade — concluiu Vivaldo. — Algumas invenções simplesmente não precisavam ser melhoradas.
— Fala isso porque você ainda não provou pizza de chocolate — retrucou Noviça.
Enquanto a discussão gastronômica seguia seu curso natural, Renata aproveitou para explicar que a versão mais próxima da pizza moderna surgiu em Nápoles, no sul da Itália. Por volta do século XVIII, trabalhadores da cidade passaram a consumir pães achatados cobertos com molho de tomate e temperos, uma refeição barata, prática e nutritiva.
— Trabalhador, comida barata e tomate. Já estou me identificando com a história — comentou Eduardo. — Você só se identifica com a parte da comida barata — corrigiu Renata.
A popularidade foi tanta que, em 1738, surgiu a Antica Pizzeria Port'Alba, considerada a primeira pizzaria do mundo. O estabelecimento existe até hoje e utilizava fornos revestidos com pedra vulcânica do Vesúvio.
Eduardo endireitou a postura na cadeira.
— Finalmente uma tradição histórica com a qual eu me identifico.
Renata arqueou uma sobrancelha.
— Estão me chamando de caloteiro? — reagiu Edu.
— Se a carapuça serviu, pode calçar o sapatinho de cristal, Cinderela! — finalizou Vivaldo.
Renata ignorou a reclamação e continuou:
Décadas depois, a pizza atravessou o oceano junto com os imigrantes italianos e encontrou um novo lar no Brasil. A primeira pizzaria brasileira surgiu em 1910, no bairro do Brás, em São Paulo.
Diferentemente da tradição italiana, que costuma valorizar poucos ingredientes e sabores mais simples, os brasileiros decidiram que espaço livre sobre uma pizza era desperdício.
Hoje existem pizzas de praticamente tudo: requeijão, milho, estrogonofe, brigadeiro, Romeu e Julieta e combinações que provavelmente fariam alguns italianos pedir explicações diplomáticas.
— E o ketchup? — perguntou Luís Carlos.
A mesa inteira ficou em silêncio.
Ela explicou que a comemoração surgiu em 1985, depois de um concurso organizado pela Secretaria de Turismo de São Paulo para eleger as melhores pizzas de mussarela e margherita. O evento fez tanto sucesso que o então secretário Caio Luiz de Carvalho oficializou a data.
A essa altura, a discussão já tinha abandonado a história e migrado para um assunto muito mais sério: os sabores.
O silêncio foi imediato.
Entre clássicas e criativas, apimentadas ou doces, simples ou exageradamente recheadas, as pizzas foram conquistando espaço nas mesas brasileiras e ganhando versões para todos os gostos.
Dessa vez, os guardanapos vieram acompanhados de uma ameaça formal de expulsão da pizzaria.
E talvez seja justamente esse o segredo da pizza: mais do que uma receita, ela virou uma desculpa perfeita para reunir pessoas, criar memórias e render boas histórias.
Agora queremos saber: você é #TimeClássica ou #TimeCriativa? Tem um sabor favorito? E, principalmente, você divide a conta ou faz como o Eduardo quando a maquininha aparece?
Até a próxima fornada!
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