Descanse em paz, Ninica

 


Ela costumava gritar quando eu me mexia na cama. Acorda, mãe, eu estou faminta. Levanta logo e vem me dar de papar.

Mas hoje não. Esse silêncio foi bem estranho. Quietinha, no cantinho da gaiola, a Ninica? Muito suspeito. Ela é o tipo que, quando acorda, ninguém mais consegue dormir.

Era... Ah, eu me esqueço de conjugar o verbo no tempo mais “apropriado”, pelo menos é o que aprendi a vida inteira. Ela era uma grande amiga. Era. Ninica era.

Em algum momento da madrugada, ela se foi. Em silêncio. Como quem não encontra uma maneira melhor de se despedir porque não quer chorar e também não quer que chorem por ela.

Esse sopro que a levou daqui talvez a conduza para um lugar onde uma porquinha serelepe possa dar seus pulinhos de pipoca e mastigar feno até altas horas.

Alguns corações estão partidos nesta manhã, em choque, tentando digerir o que aconteceu. Ontem mesmo ela cornetou porque queria maçã e repolho. Como pode hoje ser somente uma lembrança?

Não sei se alguém sabe dar uma resposta reconfortante. Pode ser, inclusive, que ninguém saiba o que dizer. Pensei que teríamos mais seis anos juntas, mas o dia de amanhã é realmente uma incógnita, e a nossa senha pode chegar sem que estejamos aguardando.

Ninguém nunca sabe quando o vento vai fazer nossa alma soprar noutra parte. Só o que sei agora é que preciso me acostumar com a rotina sem ela e esperar, de todo coração, que ela seja feliz nos braços do Pai.

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Descanse em paz, Ninica

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