Penso tanto em escrever, mas preciso manter o foco e não desviar o assunto. Honrar o compromisso com a verdade, consciente de que um ponto de vista não passa disso mesmo, um puro e simples ponto de vista. Falar sobre o que dói, sem esperar que alguém se comova ou se esforce para compreender.
Talvez chamem tudo isso de sangrar para tubarões, porém, o silêncio também me indica que ninguém pode ler pensamentos e o caminho mais recomendado é aquele do meio. Preciso de coragem para, numa possibilidade remota, representar os anseios de quem nem sempre sabe colocá-los em palavras.
Vejo a vida acontecer, mas do lado de dentro. No papel de figurante, enquanto parece não sobrar espaço para mim no palco. Uma personagem sem direito à fala, quanto mais a um final feliz. Num mundo par, uma peça ímpar sempre sente o efeito da rejeição, acostumada a uma conta que não fecha, às desculpas de quem nunca saberá, na pele, o peso da solidão e da rejeição.
Ouvir as historinhas dos outros e o pensamento ir para longe, porque tudo parece tão fora da realidade que a abstração machuca menos do que lembrar que ninguém realmente me enxerga. Ver o que não posso ter. Viver com a sensação de que ninguém me quer por perto. De que preciso me proteger para não somar mais culpas às que já carrego há tanto tempo que nem me lembro mais como era não acreditar ter merecido uma violência tão grande contra a dignidade e meu próprio autovalor.
Meu olhar não está perdido, está cansado. De ser o patinho feio esperando a glória que nunca chega. De uma tristeza que nunca dá trégua. De olhar em volta e não ter ninguém com quem contar, porque ninguém consegue enxergar nada além do próprio ego.
Quem é o centro das atenções nunca entenderá o suplício de ser uma mulher fora dos padrões, passar despercebida, precisar se proteger de predadores e ver que todos os caras legais já estão comprometidos. Não deveria ser a realidade de ninguém... mas é a minha!
Estou cansada de ser figurante da própria vida, de não poder escrever porque meu posicionamento "incomoda", de não poder falar com quem se sente como eu porque o orgulho tenta me convencer de que sofrer sozinha tem algum sentido, só que não tem.
Viver abrindo concessões para os outros corrói o entendimento de "limite". Todo mundo se habitua ao meu "sim", e meu "não" é interpretado como uma ofensa. Aceitar convites que não quero para socializações que me fazem sentir ainda mais insignificante e vazia, pessoas me dizendo o que fazer com a vida, pensando que sabem tudo sobre mim porque conhecem o meu nome.
Escrevi, enfim. Pedi licença poética para escrever sem me preocupar. Pensei em ser cuidadosa, mas às vezes é muito difícil engolir tanta revolta em seco e fingir que nada me afeta.
Estou cansada de ser tratada como um asteroide qualquer.

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